sexta-feira, 14 de junho de 2013

Economia e religião nas culturas letradas - o pecado como conceito da reprodução social (II)



 

O pecado
Se o trabalho é a colaboração de seres humanos, natureza e saber experiencial dos primeiros sobre a segunda, quer dizer, o abandono da ideia de divindade ou a sistematização da matéria, que é o pecado senão uma taxinomia e uma garantia?
Influenciados como estamos pela nossa própria forma de pensar, poderemos entender os seres humanos que, pela crença, definem as formas incorpóreas e abstractas de lembrar as definições das relações sociais, dizendo que se trata de um culto de espíritos, que é como designamos tudo o que fica fora da História. Contudo, se nos recordarmos do valor que o trabalho tem entre os seres humanos que se vêem e sabem parte da Natureza, apercebemo-nos da necessidade que a ideia de pecado envolve, de distinguir para entender, na relação homem-natureza.

A primeira parte da taxinomia consiste em manter os indivíduos submetidos ao grupo: o próprio conceito de pecado deriva do amor, isto é, a caridade entre os homens e para consigo próprios, expresso no amor da divindade. Quem rompe a lealdade com o grupo, fica exposto da forma como ficou Caim, Salomão, Jesus, Judas, Pedro, Thomas Becket, entre outros. No entanto, existe uma forma de romper por traição, e, a forma de romper porque o grupo se torna pouco razoável; ainda que nos dois casos se sofra, só a traição é castigada porque mata o entendimento entre todos, hierarquizado como é. Uma segunda parte, é o cuidado com as virtudes que a partir da divindade os homens enumeram, numa projecção das suas próprias potencialidades com as quais a revestem: justiça, paz, bondade, omnipotência, contidas no homem. Uma terceira parte da taxinomia, é a submissão à hierarquia do grupo que trabalha, onde há uma correlação entre dar a vida, ter recursos, saber administrá-los e aceitar a subordinação aos que sabem e entregaram o conhecimento e os bens que asseguram a continuidade social. Uma quarta parte da taxinomia, diz respeito à compreensão dos corpos, o seu cuidado e o seu objectivo, onde se define o entendimento da sua gestão, não só para mantê-los vivos, bem como para não desgastá-los. Ao mesmo tempo, uma quinta parte classifica os bens com que os corpos trabalham e os retira aos que não possuem entendimento ou legitimidade. Uma sexta parte refere-se à reputação das pessoas que circulam entre as coisas, já que sabem transformá-las, o que lhes confere um bom nome, quer dizer, um destino entre os homens, um lugar garantido na estrutura enquanto mantenham o seu saber, a fama que vem de preservar o contexto que guarda esse saber e as condições em que o corpo pode materializá-lo. Finalmente, a sétima parte da taxinomia é a sistematização das relações entre os homens, os seus grupos e as suas coisas, de forma que ninguém subtraia a outro o que facilita e permite a sua reprodução.

A garantia de tudo isto está na criação das transgressões que durante muito tempo foram castigadas em nome da divindade cá na terra, enquanto que no Céu se viria a fazer como Deus entendesse. A história recente do Ocidente, com o seu antecedente de abstrair os seres humanos segundo uma concepção do trabalho que se entende primeiro e se faz depois – alma e corpo – mostra as consequências da transgressão.

Economia
Parece-me que tais consequências se encontram na economia, como domínio independente, ou talvez tornado independente, da religião. O pensamento do Ocidente começa a preocupar-se com as coisas quando cria uma outra força para o trabalho que segue estritamente as regras da invenção humana, aplicada agora de forma não subjugada ao movimento natural. A luta mais esclarecedora é a discussão entre os fisiocratas e a burguesia no seu interlúdio revolucionário de 1791. Talvez seja tão importante como a da sistematização de elementos que se encontravam dispersos e que permitem a Ricardo formular a lei que orienta a criação do valor, enquanto Marx os usa para explicar a História. Assim, temos as várias lutas.

A economia passa a ser a teoria do trabalho quando os bens adquirem movimento próprio escapando das mãos dos homens como mercadorias, e o conhecimento se especializa em qualificar a força de trabalho. A teoria que sistematiza a acumulação vem já do entendimento de que, obter o trabalho dos outros, quer dizer, não tratá-los como iguais, decorre da caridade não cumprida. A própria acumulação é um entesouramento onde apenas se armazena o coração e os sentidos, se isso a torna possível. Entende-se que o corpo sem cuidados e sem comida, sem recursos, acaba por não estar em condições de trabalhar e, usando o artifício de transpor o respeito pelas coisas, pessoas e prestígios de outros para alguns por meio da lei civil, inverte-se a realidade que sistematiza o religioso, acabando por fazer desta forma uma figura verdadeiramente de espelho. A economia valoriza o trabalho do homem a partir dos mesmos factos pragmáticos com que a religião os estuda e classifica: é da ética que vem o primeiro princípio da criação da riqueza, o trabalho; enquanto que o segundo, o valor, pode dizer-se que vem da apreciação da diligência, honestidade e cumprimento dos valores domésticos e familiares. O terceiro resultado, a riqueza, acumulada ou lucro da bondade , que é o conceito que subsume o saber usar os bens para os objectivos para os quais servem. É aqui que a economia consegue a separação dos homens que entendem o trabalho pela dor, a riqueza pelo milagre, a acumulação pelo respeito ao próprio corpo e ao dos outros. Cria um conhecimento do movimento dos recursos, da sua produção, circulação e consumo que escapa a quem não possui o entendimento dos princípios com que se avalia o cálculo do que produzir, ao mesmo tempo que se gera uma separação entre esse conhecimento e as pessoas, através do emprego de técnicas para recordar princípios que não são apenas escritos, mas obedecem a formas de registar por escrito depois de aplicar uma bateria de outros conhecimentos, seja no movimento da produção industrial que obriga a desenvolver a teoria económica, seja nas próprias regras e abstracções com que o saber económico é produzido. Conteúdo e forma colocam o saber reprodutivo longe dos não especialistas, tomando vantagem o proprietário que lucra através das formas de entender os seres humanos pela sistematização funcional que o pecado ensina. A economia funciona com a teoria do mal. (…)

A reprodução social
O pecado sistematiza os elementos do real que dinamizam o processo de reprodução da sociedade. Estes elementos são os recursos que classificamos em pessoas, coisas, ideias e que estão contidos num conhecimento herdado que gosto de chamar tecnologia. A relação entre todos estes recursos, a matéria que tem de ser trabalhada, os homens que a trabalham, as ideias que teorizam como trabalhá-la e que resultam de lidar com ela, formam a teoria onde o conceito de pecado sistematiza e classifica a conduta social. Porém, existe uma capacidade teórica mais ampla no conceito, que creio que deve ser explorada: a capacidade de permanentemente reclassificar as pessoas. De facto, a economia ao longo do tempo foi abstraindo as qualidades das actividades que as pessoas desempenham, convertendo-as em ofícios. O lugar que uma pessoa ocupa na estrutura social tem a haver com a apreciação do ofício que desempenha por relação à forma reprodutiva mais importante do seu tempo; as qualidades com que desempenha o seu ofício ou o trabalho parte do valor do conhecimento e capacidade que se pode exigir da pessoa nos postos de trabalho. Durante a vigência, ou dominância, no pensamento humano da ética económica da religião, as condições pessoais do desempenho são avaliadas: seja a virtude que a descreve a pessoa à propriedade, seja o cultivo do mal e da ideia de ser pecador e de transgredir que se junta ao uso do corpo no trabalho. Na taxinomia que propus, a pessoa que está mais perto da divindade é a que sabe que não usa o seu corpo na produção, enquanto que mais perto da terra está quem só tem o seu corpo para lidar com a Natureza. O pecador, sendo aquele que não tem alternativa de conhecimento, é considerado ignorante e possui um lugar fixo nas relações sociais: fora da estrutura dos justos, fazendo o trabalho mais bruto, mais barato e mais “baixo”. É preciso ver a correlação entre o comportamento classificado como pecado e a ausência de saber especializado em todos os campos específicos da actividade, e este pecador específico é bêbado, o opulento, o ignorante dos cuidados com o seu corpo e a sua saúde, o não diligente e o subserviente. Não é o pecador geral que vive em tal estado porque tentou saber e tornar-se independente da divindade, mas o específico que está associado à natureza e à falta de sabedoria para controlar a sua capacidade. Esta é a função do pecado desenvolvida pelas ideias económicas investidas na religião pela letra da lei.

Raul Iturra, do Aventar
Julho 2011

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Economia e religião nas culturas letradas - o pecado como conceito da reprodução social (I)



 

O Problema

Todos os povos idealizam as formas segundo as quais os bens serão produzidos, distribuídos e consumidos. Se esta actividade está ou não dividida em estruturas e instâncias, e qual delas assume precedência por sobre as restantes, é um problema do investigador, cuja técnica de conhecimento contém os limites do seu saber. Pode-se dizer que, para as pessoas que trabalham, o conhecimento daquilo que fazem, como, quando, quanto e com quem passa por avaliações e decisões que dependem também do seu próprio entendimento do mundo. Assim sendo, penso que existe apenas uma forma de abordar este processo, definindo os conceitos que usamos para escutá-lo: se é certo que todos os povos produzem, não é menos certo que todos sabem como o fazer. É neste conjunto que temos de introduzir a dimensão temporal para entender como se combinam as ideias e as actividades. Ao longo do tempo, o conceito de economia tem variado desde o conjunto doméstico que trabalha, dividindo as actividades segundo as formas de classificar pessoas dos gregos clássicos, até à teoria independente que se pronuncia sobre as qualidades das coisas, teorizando e estudando a sua acumulação, cujo controlo passa a classificar as pessoas.

Ao longo dos séculos, as formas de combinar coisas, pessoas, ideias e tecnologias têm sido definidas pela participação de uma vontade divina arbitrária na criação da sociedade, incarnada aos seus ministros e em preceitos.
Pode dizer-se, que a vontade divina, sendo criação do homem, já que só tem existência na medida em que é usada no cálculo reprodutivo, incarnando-se nele, ou melhor, materializando-se nele, é o conceito à volta do qual os povos constroem a explicação de si próprios e aferem as relações entre os membros individuais. Esta é a forma chamada religiosa de entender as relações sociais, definindo o trabalho de forma directa e precisa, que se pronuncia sobre as modalidades de pagamento de preços e salários. Não se pode dizer que a economia tenha permanecido dentro da religião, porque a religião é outra forma de pensar o valor das coisas; é, contudo, a forma que serve de base imediata à criação da economia como modo de teorizar que calcula pela utilidade marginal que os homens podem criar quando têm bens acumulados com vista ao lucro. A divisão taxativa entre ambas as formas de teorizar-se deve-se, por um lado, à divisão entre ciência e teologia com que os intelectuais entendem o mundo, enquanto que, por outro, se deve à ignorância que a cultura letrada, enquanto forma dominante de pensar a partir da causalidade, atribui aos que não sabem economia. Estes, usam o saber subordinado da religião.

A religião

Existem mil e uma formas de definir este conceito, e outras tantas formas haverá também de entendê-lo e pronunciar-se acerca dele. Entendo por religião o conjunto de abstracções em ideias, rituais e entidades espirituais que os homens elaboram a partir da sua experiência histórica: a teorização do acontecer histórico.
No meu pensamento está presente o facto de que, enquanto seres humanos, pronunciamo-nos acerca dos nossos factos e definimo-los porque é essa a forma de os entendermos, colocando os limites. Acabamos por definir da mesma forma, aquilo que serve como o que não serve: sistematizamos os abusos do corpo e sistematizamos as virtudes da alma. A alma passa a ser assim, uma síntese do que as pessoas devem fazer, é a memória individual no meio do colectivo. O homem da mulher Kiriwina (Malinowski, 1948) quando produz inhames para o irmão dela, exibe a colheita e leva-a em procissão a sua casa; quando morre, o inhame maior ser-lhe-á oferecido para, na ilha Tuma ou ilha dos mortos, apresentar ao guardião, que assim ponderará o seu valor enquanto homem que vale a pena repetir através da encarnação. As formas de compreensão dos Maori (Firth, 1929) passam por ponderar os valores que cada pessoa deve ter na sua condição. O mito do Bagré dos LoDabaga (Goody, 1970) serve para desenvolver as qualidades da observação e da memória.

As pessoas no Ocidente têm de exibir virtudes, que estão repartidas entre os atributos da divindade, e o culto dos mortos específicos passaram a ser santos. Enquanto treino, a religião cumpre a função social de dividir cada membro individual pelo conjunto de qualidades que, previamente, compõem o modelo central – a divindade. As qualidades da mente que abstraem passam por entender a diligência, a lealdade, o amor, a compaixão, a caridade, a fé e outras virtudes que, se têm, estão atribuídas em conjunto com a sua versão negativa. Parte da abstracção feita pela mente que constrói as relações sociais são as ideias de mal e de dor. Mesmo a explicação da criação do homem é um mito do Génesis que explica, com todo o detalhe, como se chegou a saber: em companhia de outros seres humanos, da própria natureza que é a serpente, a árvore e o jardim, e prescindindo da divindade e das suas normas. O castigo da expulsão, antecipa as fadigas pelas quais passará o corpo e define com antecedência as doenças ou disfunções que terá na medida em que transforma a matéria em bens. De forma sistemática, a concepção que o homem tem da sua própria história é abstraída em formas explicativas de como entender o real: pessoalmente, experimentando, sem recurso a outras forças para além da sua, ao mesmo tempo que vai entregando os elementos do trabalho em representações que permitem lembrar nas culturas sem escrita. A palavra divindade não é suficiente, existem as representações que se vêem, assim como mais tarde se lêem. Com técnicas diversas, o homem abstrai a sua acção e recorda.(…)

Raul Iturra, do Aventar
Julho 2011

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Casamento ritual e lucro - a produção de produtores numa aldeia portuguesa



 

Falar em produção de produtores significa, para mim, falar nos meios, ritualizados ou não, através dos quais tem lugar a produção de seres humanos que trabalham a terra. A produção de produtores é uma parte de um processo muito mais vasto de reprodução social. Torna-se necessário, por isso, esclarecer, antes de mais, o que entendo por reprodução social e o que esta é enquanto processo.

Ao examinar, em 1958, o ciclo de desenvolvimento dos grupos domésticos, Meyer Fortes definiu o conceito como um processo que inclui todos os mecanismos institucionais, normas e actividades consuetudinárias, que servem para manter, renovar e transmitir, o capital social entre as gerações. Goody (1958) que, como Fortes (1958), também escreveu sobre o tema, centra o estudo da reprodução na análise das regras de herança e de sucessão através das quais são distribuídos os direitos de propriedade entre gerações sucessivas. O mesmo autor veio, mais tarde, a refinar as suas hipóteses, incidindo a sua reflexão sobre as modalidades de herança e os seus efeitos nas relações interpessoais e principalmente no casamento, visto como uma forma de controlo de propriedade de uma importância vital tanto para a produção como para a reprodução (1976), o qual tem vindo a ser controlado, enquanto instituição, pela Igreja e pelo Estado, nas sociedades ocidentais (1983). Bourdieu (1976) procede à distinção entre reprodução biológica, cultural e social, assinalando que é por meio destes três sistemas que todos os grupos procuram transmitir, à geração que se lhes segue, através do matrimónio, a totalidade de poder e de prestígio que herdaram. Meillassoux (1973) defende que, nas sociedades agrárias, o campo da análise da reprodução social é aquele que diz respeito ao controlo sobre a força do trabalho, ou seja, sobre pessoas. O controlo exercido sobre as mulheres por meio do casamento é, na sua perspectiva, um elemento fulcral neste processo. Godelier (1975, 1979, 1981) afirma, por sua vez, que as estruturas produtivas e reprodutivas se encontram no campo do parentesco, enquanto expressão demográfica da sociedade e no campo do ritual, visto como o conjunto de ideias que operam na produção de relações sociais.

Quer se trate das definições explícitas de Fortes ou de Bourdieu ou dos elementos analíticos fornecidos por outros, o campo de estudo da reprodução social parece conter elementos que, como Harris e Young (1981) sublinharam, ultrapassaram o campo restrito da aldeia, da produção e da tecnologia. Enquanto processo, a reprodução social tem como resultado a prática social de um sistema gerador dos seus próprios elementos da continuidade (Iturra, 1982). Refira-se que todas estas observações fazem uma referência, implícita ou explícita, a sociedades não industriais contemporâneas estudadas por antropólogos sociais. Note-se, também, que a ênfase, na análise deste fenómeno, se tem centrado em relações como o casamento, o trabalho, a propriedade e o conhecimento. No que diz respeito a este último, o seu estudo é feito nas rubricas do costume ou da cultura ou ainda na do ritual. A reprodução social como processo parece assim consistir no modo como se organizam elementos constituintes estruturais, o casamento, a terra, o trabalho e o conhecimento, que asseguram a continuidade da sociedade, com ou sem mudança.

A meu ver, o estudo da reprodução social também requer que sejam tomados em consideração os factos da história económica e do pensamento religioso, na medida em que a variação nos termos materiais e nas ideias tem como resultado uma produção diferente de relações sociais. Se sublinho aqui a importância de que se revestem as ideias religiosas, tal deve-se ao facto de ser fundamentalmente na religião que encontramos, abstraída, sistematizada e exprimida pelas pessoas, nas áreas camponesas, a racionalidade das relações sociais. O processo de produção de produtores, tal como se desenrola num grupo camponês, fornece-nos os elementos, que nos permitem compreender o modo pelo qual os seres humanos são ensinados e treinados através de um ciclo ritual, que se encontra contido em ideias religiosas. Mostra-nos, também, que o casamento, sendo uma relação social proclamada, assinalada e aceite como o ritual oficial que começa a produção social, bem como a biológica de seres humanos, mais não é do que uma das muitas formas criadas pelas pessoas no âmbito das suas práticas reprodutivas. Este é o seu lugar social, apesar do carácter sagrado que lhe é conferido pelas ideias religiosas formais, pelo ritual oficial e pelas próprias pessoas, carácter esse que se encontra reflectido na própria análise antropológica, obscurecendo a dimensão cultural do casamento e o valor de outras práticas. Como disse anteriormente, muitos autores colocando de parte as razões culturais que os criam, fazem do ritual e do conhecimento o centro das suas análises da reprodução social e do casamento a relação social estabelecida da qual todas as outras derivam.

Desde que consideremos que as ideias religiosas representam o principal conjunto de ideias da racionalidade camponesa que opera na produção e reprodução social; e desde que o ritual seja pensado como uma via de publicitar relações sociais e de comunicar ideias com vista à produção de produtores, então podemos ver o casamento através de uma outra perspectiva problemática, observando-o como mais um ritual criador de relações sociais e como mais uma relação entre várias outras, tudo isto constituindo fenómenos que necessitam de explicação.

É exactamente neste aspecto que desejo agora centrar a minha análise, na medida em que quero tratar, de entre todos os factos que podem ser tidos em conta no estudo da reprodução social, aqueles que se encontram relacionados com a produção social de seres humanos, observada já, através da análise do casamento. A minha hipótese exploratória assenta na consideração de que existe uma contradição entre a ideia de que a reprodução deve ter lugar no interior do casamento e as condições que rodeiam a afectividade deste. A terra, o trabalho e a tecnologia têm sido até hoje os principais recursos envolvidos na reprodução camponesa e, por isso, quer se tratasse de um momento histórico em que a terra se encontrava concentrada e o trabalho disperso, quer de um outro em que o contrário sucedia, com a terra dispersa e o trabalho concentrado, a sua aquisição, conjugação ou acumulação, têm constituído o objecto da manipulação de relações sociais por parte dos produtos. Tal como a terra é manipulada no sentido da concentração ou no da divisão e a na tecnologia no da continuidade ou nos da invenção ou substituição, assim também os seres humanos, através da manipulação das relações sociais, são dirigidos para várias funções que permitem manter viáveis os recursos disponíveis. Se não existisse manipulação dos diversos laços sociais – pelas próprias pessoas ou por vontade externa –, poderia em algum momento suceder, que houvesse indivíduos em excesso num determinado território ou que existissem demasiados direitos do mesmo tipo sobre a mesma coisa.

Esta manipulação tem lugar entre dois extremos: o de juntar aqueles que, pela natureza da sua relação com as coisas, permitirão a concentração de recursos e o de levar à dispersão dos restantes, habitualmente a maioria. Aqueles que ficam têm de procurar organizar um grupo produtivo adequado, o que é feito, nas áreas camponesas dos nossos dias, por meio da procriação e da activação dos laços de parentesco e através de uma série de contratos diferentes, que definem uma relação entre camponeses e senhores, em tempos mais recuados. Estes eram os tempos em que a terra estava concentrada nas mãos de uns poucos, o que dificultava as condições de casamento, sem pôr em causa a produção de produtores. Quando a propriedade camponesa começa a aparecer, o casamento ganha uma maior importância, mas a produção de produtores torna-se para eles próprios problemática, devido ao seu número e ao conjunto de direitos de que são portadores. Entre estas duas situações históricas bem diversas, têm lugar um certo número de estratégias camponesas, cuja variação parece estar ligada à superioridade que vai tendo a produção destinada ao mercado sobre a produção de bens de uso e à mudança correlativa nas condições de troca, que ocorre com a passagem da organização do trabalho camponês pelos senhores à sua subordinação ao capital mundial (Iturra, 1978, 1981).

Existe todo um conjunto de alternativas geradas pelos produtores, sendo possível entrever, pelo menos, quatro formas, por via das quais a reprodução social se efectiva: por meio de um sistema de reprodução em que o casamento é combinado com o celibato e a ilegitimidade, como observou O’Neill (1984) para o Nordeste de Portugal, pela combinação do casamento com o não casamento, como pude detectar na minha investigação em Portugal; pela manipulação dos laços de parentesco, visando a construção de uma força de trabalho através da troca de herdeiros, da exclusão de filhos da casa dos pais e de tornar a classificar dos parentes, bem como por intermédio das trocas de trabalho, como demonstrei no caso da Galiza (1978, 1980, 1981); e, também, mediante a integração diferencial dos membros do grupo doméstico no seu seio, entre os que partem e os que ficam, como Bouquet (1984) refere para o Centro de Portugal. Estas observações espelham o casamento – quer enquanto ritual, quer como relação social – como um campo onde se desenvolvem as estratégias que visam a obtenção de recursos humanos ou materiais, em qualquer grupo doméstico, afirmação, cuja pertinência pude verificar entre os camponeses do vale central, no Chile, da Galiza e do Centro de Portugal. Pessoalmente, gostaria de discutir todos estes tópicos em função das duas asserções inter-relacionadas: as primeiras têm a ver com a investigação sobre o lugar que o casamento ocupa na sua relação com outras práticas reprodutivas e rituais; as outras duas estão relacionadas com a função que se atribui ao casamento, a de este servir para angariar recursos.

Distinguindo, as duas primeiras podem-se definir assim: o casamento é apenas uma de entre as várias formas de um sistema de práticas reprodutivas; o casamento é um rito de um ciclo de rituais, cuja finalidade comum é a produção de produtores. As outras duas são: o casamento é a fase final de um processo de escolha, pelo qual são adquiridos e conjugados recursos e materiais; o casamento é uma instituição redistributiva regulada pelo lucro.(…)

Raul Iturra, do Aventar
Julho 2011