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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

O suicídio dos grandes jornais

Front page of the Lancaster Today newspaper, D...Image via Wikipedia


António Campos

Por que será que os jornais impressos enfrentam dificuldades sem precedentes na história das comunicações? Principalmente no Brasil, o que mais se ouve falar é que a crise desses veículos decorre do avanço das novas mídias. Na tentativa de reverter o quadro, muitos diários acabam perdendo ainda mais leitores e assinantes, não lhes restando outra saída senão fechar as portas.

O Monitor Campista, órgão dos Diários Associados com 175 anos de história, é um exemplo disso. O jornal sobreviveu durante décadas graças ao contrato de publicação do Diário Oficial do Município de Campos dos Goytacazes, no Norte fluminense. Como a Justiça decretou o fim da "boquinha" típica dos tempos do velho Chateaubriand, a empresa simplesmente não soube como enfrentar a dura realidade do mercado. Confirmando o ditado, o vício do cachimbo deixou a boca torta.

A indiferença pela análise dos fatos, a ausência de compromissos sociais e o atrelamento a interesses políticos e econômicos contribuem cada vez mais para a derrocada de grande parte dos jornais brasileiros. Simplesmente culpar a internet parece ser uma atitude cômoda, principalmente quando tentam imitá-la em sites de notícias de acesso complicado e que mais parecem colchas de retalhos.

Como escorpiões desesperados

Vale lembrar que o rádio não acabou devido à concorrência da TV e esta não ofuscou o cinema; tampouco reclama da concorrência das novas mídias que assolam o planeta. A radiodifusão se beneficiou das tecnologias para redefinir sua natureza e ressaltar a grande vantagem que tem diante dos novos meios. Nenhum veículo de comunicação de massa consegue ser mais ágil e fácil de acessar que as ondas médias e curtas do velho dial. Isso ficou claro no blecaute que assolou 12 estados brasileiros e parte do território paraguaio. Quando as grandes redes de TV resolveram interromper a programação para noticiar o fato, emissoras de rádio de todo o país já buscavam explicações para o mesmo – tendo a seu favor o popular radinho de pilha.

A televisão, por sua vez, ganhou nova dinâmica com as novas tecnologias, melhorando a qualidade da imagem e buscando a interatividade com os telespectadores. O cinema, que no primeiro momento perdeu público para a TV, passou a produzir séries e longas-metragens para a telinha sem, no entanto, abrir mão das superproduções que só funcionam bem na telona. Hoje, as grandes produções de Hollywood são fartamente divulgadas nos jornais, no rádio, na TV e na internet.

Em vez de se adaptarem às adversidades e tirar proveito de suas particularidades, os jornais impressos insistem nas velhas fórmulas. Seus proprietários e diretores mostram-se incapazes de reagir à concorrência eletrônica com criatividade. Fenômeno semelhante ocorreu com as grandes gravadoras, que simplesmente entraram em pânico diante das novas tecnologias que já nos permitem dispensar o CD. Como escorpiões desesperados na roda de fogo, executivos de jornais antecipam a tragédia como se cometessem suicídio.

Manchetes redundantes

Quem se der ao trabalho de parar diante de uma banca de revistas há de perceber algo de óbvio nas capas dos jornais. Basta um veículo de expressão nacional apontar um caminho para que todos os outros caminhem na mesma direção. Daí a repetição de temas ou mesmo a coincidência de manchetes nem sempre criativas. Publicações regionais ficam de olho nas agências de notícias para não desafinar do diapasão da concorrência. Na tentativa de se tornarem jornais de expressão nacional, ignoram temas locais ou fazem uma cobertura tosca dos fatos que realmente poderiam interessar aos leitores.

As notícias que saem hoje no rádio, na TV e na internet serão manchetes nos jornais de amanhã – e sem nenhum acréscimo analítico ao fato ocorrido.

Falta de visão crítica diante dos grandes acontecimentos, economia a todo custo, demissões de bons profissionais e falta de gente especializada, experiente e contestadora contribuem cada vez mais para a queda de qualidade dos jornais impressos e para a consequente perda de leitores e anunciantes. Com tantos meios de comunicação ao alcance de todos, ainda existem veículos impressos que ignoram fatos relevantes ou manipulam a notícia na ilusão de enganar a opinião pública.

No momento em que a velocidade da informação chega a estressar as novas mídias, publicações impressas teriam a seu favor justamente a possibilidade de analisar a notícia com algum tempo pela frente, aprofundando a reflexão para mostrar os diversos ângulos da realidade. Nenhuma mídia supera a palavra impressa, que tem a seu favor o fato de se perpetuar como documento histórico. Pode-se dizer que, de certa forma, os jornalistas é que escrevem a história.

Chuteiras, em vez de luvas de boxe

Para que isso seja feito, no entanto, seria necessário investir na contratação e na valorização de repórteres e colaboradores éticos e bem-formados, com conhecimentos acima da média. Tal estratégia, no entanto, custaria dinheiro e este vem principalmente dos cofres públicos, por meio de anúncios, matérias pagas, financiamentos, tráfico de influência ou simples atrelamento editorial. Qualquer análise mais aprofundada de certos acontecimentos que interessam aos leitores poderia incomodar o principal anunciante ou parceiro da casa, fechando a torneira de recursos.

Em outras palavras, o estreitamento dos laços com o poder político e econômico fez com que a maioria dos jornais brasileiros perdesse o hábito de pensar e fazer pensar, de cobrar das autoridades em nome da sociedade – sem paixão ideológica e sem que o leitor desconfie das intenções do veículo. Se os brasileiros confiassem plenamente na imprensa, o episódio do mensalão teria resultado numa grande mudança sociopolítica, mas não foi isso o que ocorreu nas últimas eleições. O que dizer, por exemplo, da crise econômica internacional, que acabou mesmo virando "marolinha"? Ou da gripe suína, que ainda mata silenciosamente, mas sobre a qual a imprensa se calou depois do alarde apocalíptico dos primeiros momentos da suposta epidemia? Ou do caso Celso Daniel, que sumiu da mídia sem ser devidamente esclarecido?

O exagero, o sensacionalismo, a espetacularização da notícia e a falta de esclarecimento dos fatos podem até ser compreendidos na televisão ou na internet, principalmente devido à pressa na apuração, ao impacto da imagem em movimento e à constante mudança nas informações. No entanto, pela própria natureza, caberia justamente aos jornais dar a palavra final sobre os grandes temas abordados pela mídia. Ao contrário disso, nossos diários geralmente se deixam levar pela concorrência eletrônica, como quem sobe num ringue de boxe calçando chuteiras, em vez de luvas.

A tentação dos tablóides

Outra saída para a crise dos impressos seria investir nas grandes coberturas, em reportagens especiais e exclusivas sobre temas que possam realmente interessar ao público. Contudo, as empresas de comunicação se distanciaram tanto da notícia que jornalismo investigativo há muito deixou de ser pleonasmo. Esse tipo de trabalho pode custar caro, pois não seria nada ético mandar um repórter viajar sob o patrocínio de terceiros. Mesmo assim, parece comum que alguns profissionais da notícia viajem a convite de empresas, clubes esportivos ou governantes de plantão. Nesse caso, como garantir distanciamento para que se tenha independência crítica nas reportagens?

Na maioria dos grandes jornais, as manchetes de capa quase sempre dizem respeito às editorias de Economia e Política, embora toda pesquisa de opinião demonstre que esses são os temas que menos interessam aos leitores. No entanto, interessam – e muito – aos donos dos jornais, pois é nesse tipo de noticiário que se digladiam os grandes interesses. A prestação de serviços também deixa a desejar, na medida em que se divulga aquilo que é mais do interesse dos veículos – ou dos próprios jornalistas – do que dos leitores. Ainda na tentativa de popularizar os jornais, publicam-se matérias para um suposto público jovem pouco dado à leitura, deixando de atender ao interesse de leitores cativos, hoje considerados velhos e fora de moda.

No momento, empresas que editam grandes jornais se rendem à tentação dos tablóides destinados aos leitores das classes C e D. Esse é o preço que pagam por não terem contribuído de fato na luta contra o analfabetismo e em favor da qualificação do ensino público no país. Até quando esse veio dará ouro, é outra boa pergunta a se fazer. A resposta, certamente, daria outro longo artigo. Diante de tantos equívocos, fica fácil compreender porque é que os grandes jornais agonizam – e seus donos ainda culpam a internet.

Jorge Fernando dos Santos

http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=566JDB00

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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Só um em cada cinco tem nível médio de literacia

Literacy class in El AltoImage via Wikipedia


António Campos

Relatório aponta graves deficiências nas competências dos portugueses.

Somente um em cada cinco portugueses possui nível médio de literacia. O que causa prejuízos directos no potencial de desenvolvimento do país. As conclusões constam de um estudo apresentado na Gulbenkian.

Segundo o relatório realizado pela Data Angel, a pedido dos coordenadores do Plano Nacional de Leitura (PNL) e apresentado ontem na Gulbenkian, apenas um em cada cinco portugueses possui o nível médio de literacia. Na Suécia, a correspondência é de quatro em cada cinco suecos.

Literacia é a capacidade de ler e compreender o que se lê para resolver problemas concretos. Esta aptidão em Portugal, refere o relatório, é muito baixa. "Portugal apresenta os níveis mais baixos de competências de literacia de entre todos os países observados", referiu o coordenador do projecto, Scott Murray.

"O conhecimento e as competências das pessoas, quando postos aos serviço da produção, são um forte motor do crescimento económico e do desenvolvimento social". Mas, segundo os dados disponíveis para Portugal, a literacia tem no nosso país "um valor económico reduzido no mercado de trabalho".

"Portugal tem de dedicar muito mais atenção à literacia. As análises do impacto da literacia no desempenho económico durante os últimos 50 anos deixam poucas dúvidas de que o país pagou um preço significativo por não ter aumentado a oferta de competências de literacia ao dispor da economia", aponta o documento.

Por outro lado, continua o estudo, "a exigência em conhecimentos e em competências do mercado de trabalho é baixa, numa perspectiva comparada", e o mercado laboral "não parece compensar as competências de literacia na medida esperada". Os alunos portugueses "têm poucos incentivos para investir tempo e esforço no aumento do seu nível de literacia".

Iniciativas como o Plano Nacional de Leitura ou as Novas Oportunidades são encorajadas, mas Murray sustentou que "são insuficientes".

Convidado a comentar o relatório, o economista João salgueiro contrariou a defesa de mais investimento em Educação. "Se há indicador em que não estamos mal é no volume de recursos que dedicamos à Educação e temos dos piores resultados no desempenho". A causa "está no funcionamento do sistema de Educação e no sistema económico".

A ministra da Educação, Isabel Alçada, apelou para que "toda a sociedade se mobilize para que a melhor oferta de qualificações corresponda a um reconhecimento da parte do tecido empresarial".

J.N. - 03.12.09

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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Pobreza preocupa mais os portugueses do que as alterações climáticas

Poverty in Colombia.Image via Wikipedia


António Campos

Pobreza, falta de alimentos e de água potável são os principais problemas da actualidade, na opinião dos portugueses, que relegam as alterações climáticas para sexto lugar, depois dos conflitos armados, segundo uma sondagem hoje divulgada em Bruxelas.

No Eurobarómetro sobre atitudes face às alterações climáticas, apenas 28 por cento dos portugueses consideraram que estas são um dos problemas mundiais mais sérios, contra 47 por cento da média europeia (UE27). Três em cada quatro portugueses (75 por cento) responderam que a pobreza e a falta de comida e de água potável são a principal preocupação global actual (69 por cento na UE27).

Segue-se a disseminação de doenças infecciosas, com 39 por cento de respondentes portugueses (32 na UE27), o terrorismo internacional (37 em Portugal, 35 na UE27), uma quebra importante na economia global (31 em Portugal, 39 na UE27), e os conflitos armados (30 em Portugal, 29 na UE27). A proliferação das armas nucleares (11 em PT, 15 na UE27) e o aumento da população mundial (6 por cento em Portugal, 24 na UE27) são as questões menos valorizadas no inquérito.

Na comparação com uma sondagem semelhante feita em Fevereiro, os resultados mostram que o número de portugueses preocupados com as alterações climáticas baixou dois pontos percentuais e a média europeia baixou três. Por outro lado, o número de portugueses que teme a disseminação de uma doença infecciosa subiu 17 pontos, tendência também acompanhada na média europeia, que subiu 14 em relação a Fevereiro.

Já a separação do lixo é a actividade de eleição dos portugueses que dizem agir contra as alterações climáticas, seguindo-se a poupança de energia e de água, segundo o Eurobarómetro hoje divulgado em Bruxelas. Segundo a sondagem, 71 por cento dos portugueses que dizem fazer algo pela luta contra as alterações climáticas separam o lixo, sendo a média europeia (UE27) de 78 por cento. Seguem-se os portugueses que poupam no consumo de energia, desligando o ar condicionado ou o aquecimento, comprando lâmpadas de baixo consumo ou produtos energeticamente eficientes: 55 por cento (63 por cento UE27).

No campo dos transportes, apenas 8 por cento optam por ser amigos do ambiente deslocando-se a pé, de bicicleta ou de transportes públicos (28 na UE27) e só 9 por cento reduziram o uso do automóvel optando, por exemplo, pela partilha de viaturas (24 na EU27). Por outro lado, não foram além dos 4 por cento os que optaram por comprar carros que consomem menos combustível ou que são mais amigos do ambiente (20 na UE27).

A sondagem foi realizada entre 28 de Agosto e 17 de Setembro últimos, tendo sido feitas 26719 entrevistas pessoais em todos os Estados-membros da União Europeia, 1051 das quais em Portugal.

Público.pt - 02.12.09

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Desemprego acima dos 10% atinge 561 mil pessoas

NEW YORK - MARCH 31:  Unemployed people race '...Image by Getty Images via Daylife


António Campos

São já 561 mil os desempregados em Portugal, estima o Eurostat, que aponta para uma taxa de desemprego acima dos dois dígitos. A oposição reagiu ontem aos dados divulgados pelo gabinete estatístico da União Europeia com novas exigências ao Governo. No Parlamento há margem para novos entendimentos que garantam o reforço da protecção social.

O desemprego continua a subir, superou as duas décimas e chegou a 561 mil pessoas em Portugal, estima o Eurostat. Dados não ajustados de sazonalidade - e por isso mais próximos dos que são oficialmente divulgados a nível nacional - apontam para uma taxa de desemprego de 10,3% em Outubro, a quarta maior entre os 16 países da Zona Euro.

Os valores são os mais altos desde, pelo menos, 1983, data de início da série do Eurostat. A estimativa do gabinete de estatísticas europeu para Portugal baseia-se na evolução dos dados enviados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) e nos registos administrativos do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP).

Não admira, por isso, que os valores relativos aos últimos meses tenham sido revistos em alta - apontando agora para uma taxa de dois dígitos desde Agosto - depois de o INE ter revelado que no terceiro trimestre deste ano o desemprego atingiu 9,8% da população activa. O número de de-sempregados agora divulgado pelo Eurostat está acima do avançado pelo INE para o terceiro trimestre (547,7 mil indivíduos) e muito acima do que foi divulgado pelo IEFP para o mesmo mês de Outubro (517,7 mil).

Em termos ajustados de sazonalidade - ou seja, corrigindo as habituais subidas no Inverno -, a taxa de desemprego é de 10,2% com 558 mil desempregados, revelou o Eurostat. Continuam a ser os valores mais altos de que há registo, e em tendência ascendente, numa altura em que estabilizam na Zona Euro. As mulheres (10,9%) são mais afectadas do que os homens (9,6%) enquanto nos jovens a taxa ajustada de sazonalidade chega aos 18,9%, com quase 90 mil pessoas com menos de 25 anos à procura de trabalho.

Perante os números, a CGTP volta a exigir novas medidas. "Justifica um conjunto de medidas extraordinárias do Governo, desde logo aquela que é prioritária, a alteração da lei, de forma a possibilitar que todos os trabalhadores desempregados tenham acesso ao subsídio de desemprego", disse à agência Lusa Arménio Carlos. O dirigente da CGTP considera que os números "confirmam o falhanço" das medidas anunciadas pelo Governo para combater o desemprego e pede uma "avaliação" das que já foram implementadas.

Também a oposição pressiona no sentido da aprovação de novas medidas. No Parlamento há já novos acordos à vista (ver texto em baixo).

Os dados não ajustados de sazonalidade apontam para mais 5,2 milhões de desempregados na União Europeia no espaço de um ano, 3,3 milhões dos quais na Zona Euro. A taxa de desemprego é mais elevada na Letónia (20,3%), mas é em Espanha que os números absolutos são mais expressivos. Um em cada quatro novos desempregados europeus estão no país vizinho, onde a taxa de desemprego chegou aos 18,9% (19,3% quando ajustada de sazonalidade).

A tendência de aumento do desemprego é generalizada na Europa. Mas a explosão do desemprego não é uma inevitabilidade em todos os países europeus. Na Áustria e na Holanda, a taxa ainda está abaixo dos 5%.

CATARINA ALMEIDA PEREIRA

D.N. 02.12.09


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