sexta-feira, 12 de março de 2010

A manipulação pela religião

Guadalupe @ Ciudad de MéxicoImage by Gorski via Flickr


António Campos

A religião tem sua base assentada sobre três pilares fundamentais e que se auto-sustentam. Esses pilares chamam-se em grau de importância economia, política e crença. Mas porque a fé estaria em último lugar? Simples: Pegando como exemplo a Igreja Católica, o mais complexo e sólido sistema religioso organizado sob o nome de Catolicismo, antes de tudo, devemos entender que nenhuma religião sobrevive sem dinheiro, vide a Igreja. Ela possui uma complexa rede de seminários, colégios, universidades, santuários, congregações, templos e é claro, sem contar, a magnífica sede do Vaticano. Tudo isso requer custos, entretanto, como muitos se enganam, a fonte de renda da Igreja menos importante são as doações dos fiéis. A prova é tanta que a Igreja Católica aboliu a lei do dízimo o que significa uma auto-suficiência financeira. Diferente de outras igrejas como as protestantes que dependem do dízimo para se manterem funcionando.

Entretanto como vimos a Igreja possui um património tão absurdo que o custo para mantê-los vai além das doações dos fiéis, e nem todo o património que a mesma possui poderia suprir tal necessidade. Desse modo, a principal fonte de renda da Igreja está assentada no seu banco nacional. Fundado no pontificado de Pio XII em 1942, o Banco tinha a função de gerir o então recém fundado Estado do Vaticano, criado mediante um acordo político com o ditador italiano Mussolini. Após um tempo, o Banco passou a ter mais uma função do que guardar os bens do Vaticano. Para ajudar na reconstrução económica da Europa, o banco passou a servir de financiador e até de paraíso fiscal sendo receptor de bens não declarados de grandes empresários da Europa. Muito mais seguro que as Ilhas Cayman, ele cobrava altos juros, garantindo o isolamento económico assegurado pelo património da Igreja, desse modo impedindo um "crack" como aconteceria com o resto do mundo caso houvesse uma crise, pois mesmo sendo nacional, a Economia do Vaticano "não possui" relações económicas oficiais com outras nações.

Desse modo, o primeiro pilar da religião está assente na Economia, uma vez que sem ela os outros dois pilares não podem se sustentar. Sendo independentemente económico, o Estado do Vaticano tem credibilidade no cenário político internacional, uma vez que ele tem autonomia para firmar discretamente acordos com quaisquer países, principalmente na Europa onde a política e a religião estão ligadas à séculos. O secularismo, embora tão defendidos e pregados como uma realidade, na verdade é um engodo, uma bela ilusão, uma vez que justamente por possuir credibilidade na política internacional, o Vaticano pode manipular a política a seu belo prazer como já fazia há anos. O que o Vaticano quer é fiéis, não porque precise para sobreviver economicamente, mas a partir do momento em que a Europa está unida sob uma crença, a ameaça estrangeira, vide actualmente, o Islão, não ameaçaria a estabilidade social. Social, vide económica, pois tudo o que está em jogo são interesses económicos.

Desse modo ao poder interferir na política mundial o contrato torna-se simples. O Vaticano mantém as tradições na Europa segundo os moldes já existentes, afinal a razão da tradição é perpetuar-se pelos séculos, assim o Vaticano financia campanhas de partidos e candidatos conservadores. E desse modo mantendo esses políticos no poder, ela mantém seus costumes na sociedade. O interessante é que justamente depois da criação do Banco do Vaticano, houve uma onda de conservadorismo invadindo os países europeus, e coincidentemente muitos movimentos totalitários e conservadores como o actual presidente italiano, Silvio Berlusconi, um fascista declarado, é amplamente apoiado por membros do clero, vulgo, a Igreja. Mantendo esses políticos no poder, a Igreja mantém essa relação financeira de apoiar certos partidos para que com isso, esses governos eleitos incentivem a aplicação financeira de várias empresas no Banco do Vaticano.

Sobre o último pilar, este é consequência. Na verdade os fiéis interessam principalmente ao Estado. Como cidadãos, o único propósito da Igreja precisar de fiéis é que primeiramente esses fiéis pagam impostos ao Estado, que por sua vez por meio de acordos financiam a sustentabilidade da Igreja. O segundo propósito está em manter a tradição, primeiramente a tradição social, uma vez que esse sistema de contribuição mútua vem desde a época de Constantino onde o Estado garantia a sustentabilidade da Igreja e vice-versa. Assim a função dos fiéis é garantir a perpetuação dessa ordem estabelecida. E voltando à questão do choque cultural, por não querer que essa ordem seja destruída por outra, a unidade de um continente por meio da religião simboliza uma blindagem contra outros sistemas político-religioso como o Islão que cada vez mais ganha espaço na Europa. Desse modo, mais que uma valorização da crença existente, cria-se uma fobia à outra crença/cultura.

Por isso um minarete muçulmano não é o símbolo de uma religião do Médio Oriente e sim o símbolo de um sistema social organizado que possui seus interesses em conflitos com os de outro. Da mesma forma esse conflito expande-se por outras religiões organizadas, seja em âmbito nacional, continental ou global. Com isso cria-se uma perigosa situação onde há uma situação de conflito de natureza económica estabelecida sob uma justificativa religiosa. Por isso foram realizadas as Cruzadas, por isso foi realizada a Intifada, por isso recentemente a população dos EUA defendeu a “guerra contra o terror” sob o pretexto de defesa da soberania do ocidente judaico-cristão. E o pior disso tudo, é que justamente por haver a crença num sistema religioso que os povos são levados a acatarem essas decisões políticas sob nuvens de justificativas religiosas e culturais. Levando em conta que a religião está intimamente ligada à cultura de um povo, ao criar-se um conflito de culturas, o foco desse conflito estabelecido no meio social sempre será voltado primeiramente à crença, com isso, a “ameaça” que a cultura seria atacada por ser considerada fraca pela outra, tornar-se ia na verdade uma “ameaça” onde a crença é que estaria sob o julgamento de ser inferior, ou do Deus dessa crença ser fraco.

Com isso, não é estranho que os homens se matem uns aos outros em nome de Deus, por isso é preciso que o mundo acorde para a realização de um diálogo inter-religioso, e principalmente, que a globalização não se torne um choque de culturas, gerando conflitos muito mais graves, mas uma oportunidade de buscar-se uma trégua nesses conflitos seculares onde os únicos prejudicados são os indivíduos que compõem essas sociedades, só que alienados mediante à fé cega tão pregada semanalmente nos púlpitos dos templos e incentivados pelo culto ao patriotismo e às tradições seculares, faz com que esse ciclo seja indestrutível, e quanto mais ele dura, mais difícil fica de modificá-lo, gerando graves consequências para a evolução social da humanidade.

Posted por Shaka Kama-Hari



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quarta-feira, 10 de março de 2010

A Teoria da Incomodação Zero

ISKANDARIYHA, IRAQ - JANUARY 21:  An Iraqi wor...Image by Getty Images via Daylife


António Campos

Os homens distinguem-se dos animais, não porque têm consciência, já afirmavam teorias sociológicas do fim do século XIX, mas porque produzem as condições de sua própria existência. Estas condições são, em grande parte, oriundas do trabalho, que sempre fez parte da vida humana. Contudo, desde que surge a propriedade privada capitalista, a relação de trabalho estabelecida entre empregador e empregado passou por muitas transformações. O trabalho consistia em sinónimo de segurança, de um ambiente ordenado, regular, confiável e duradouro. Em uma época não tão distante, o imediatismo não figurava como valor maior, e a lógica do trabalho se assemelhava a uma construção: tijolo a tijolo, andar a andar, no trabalho lento, que findava com uma obra sólida e firme – a carreira.

Mas hoje o status do trabalho parece estar subvertido ou, ao menos, tem se revestido de características muito distintas das de outrora. O sociólogo polaco Zigmunt Bauman revela-nos que o novo perfil do trabalhador, procurado pelas empresas, não é mais exactamente aquele que prima por um sujeito íntegro, enraizado em valores, com princípios e tradições sólidas. O mais novo filtro utilizado nesta escolha é de outra natureza. De acordo com Bauman, desde 1997, usa-se nos EUA uma expressão que designa o perfil de trabalhador que o mercado procura, o chamado “chateação zero”. A expressão cómica, mas extremamente reveladora, mostra-nos que o trabalhador que possuir menos factores potenciais para chatear ou incomodar a empresa durante o seu labor será aquele com maior possibilidade de conseguir a vaga. Por exemplo, um sujeito dotado de família e filhos tem o seu nível de chateação elevado, pois provavelmente não terá tanta flexibilidade para aceitar tarefas em qualquer horário ou local.

Ora, se é um empregado que ousa questionar as relações e que procura cumprir as suas obrigações, cobrando dos demais o mínimo de responsabilidade, saiba que você possui um nível de chateação elevadíssimo. Vantajoso é ser alguém descomprometido com a realidade social, com laços afectivos frágeis e que possa estar sempre à disposição. A preferência é por “empregados ‘flutuantes’, acríticos, descomprometidos, flexíveis, ‘generalistas’ e, em última instância, descartáveis (do tipo ‘pau para toda obra’, em vez de especializados e submetidos a um treino estritamente focalizado)”, afirma Bauman. O mercado de trabalhadores é também um mercado de produtos.

Neste ambiente “líquido-moderno”, estendemos o retrato da prática do consumo para as demais instâncias da vida, como parece ocorrer com as actividades do trabalho. Uma predilecção pela facilidade, desprendimento e individualização. Um produto é comprado, usado até perder o valor e depois descartado, pois uma imensidão de outros estará à disposição. O trabalhador assume, enfim, o status de descartável. Incomodando zero, disponível sempre e criticando nunca.

Juliana Salbego

Publicitária e professora do Curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Pampa
Fonte: Jornal Zero Hora
Imagem em: http://reflexoescorporativas.wordpress.com/2009/08/



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segunda-feira, 8 de março de 2010

100 anos atrás: o Dia da Mulher (1910-2010)

International Women's Day.Image via Wikipedia


António Campos

As mulheres são uma força revolucionária. Esse facto mostra em suas férias, International Women's Day (IWD), tanto o seu passado e presente.Porque o sistema de lucro depende do estatuto de segunda classe das mulheres, o dia que se homenageia é obrigado a ser ligado a acontecimentos importantes.
Havia pelo menos 984 eventos no ano passado em 64 países. O dia é um feriado oficial em 29 países - não é por acaso, principalmente aqueles com uma história anti-capitalista. Eles incluem a China, Cuba, Vietnam nos estados da antiga União Soviética e da Europa Oriental, e alguns na África.
As nações mais ricas - Norte-americanos e países europeus, Austrália - não o reconhecem. É notável que tanto IWD e May Day, feriado internacional dos trabalhadores, foram iniciados para comemorar as lutas dos trabalhadores os E.U. - mas não é reconhecida oficialmente, no coração da Capital.
Um começo militante. O feriado raízes estão nas lutas das mulheres trabalhadoras e os seus apoiantes socialistas. Acredita-se que foi um protesto em massa das mulheres e dos trabalhadores têxteis em Nova Iorque em 1857 ocorreu em 8 de março, e que, em Março, dois anos depois, a mesma mulher ganhou uma unidade sindical. Eles estavam lutando contra as brutais condições de trabalho, salários baixos, e as 12 horas do dia.
Em 8 de março de 1908, as mulheres socialistas organizaram uma manifestação de 15.000 em Nova York. Suas demandas foram aumentos salariais, menos horas, a votação, e um fim ao trabalho infantil. Depois disso, o Partido Socialista da América decidiu comemorar um dia das mulheres nos os E.U., a primeira das quais teve lugar em 1909.
Dia Internacional da Mulher foi fundado no ano seguinte, um século atrás, a Segunda Conferência Internacional de Mulheres Socialistas realizada juntamente com o Congresso da Internacional Socialista em Copenhaga, Dinamarca. Os participantes representados partidos socialistas, clubes de mulheres, e os sindicatos, e incluiu as três primeiras mulheres eleitas para o parlamento finlandês, numa altura em que poucas mulheres tinham o direito de voto.
E.U. delegados foi a intenção de propor um dia internacional da mulher, só para mostrar que a feminista alemã Clara Zetkin tinha vencido . Zetkin foi um membro proeminente do partido socialista alemão, que teve uma forte história de defesa dos direitos das mulheres. Mulheres de 17 países votaram por unanimidade a criação do feriado. No ano seguinte, 1911, as celebrações começaram com um estrondo, com mais de um milhão de pessoas manifestam-se em Alemanha, Áustria, Dinamarca e Suíça.
A necessidade de tal dia tem um impulso a refrigeração, mas poderoso do grande incêndio na fábrica Triangle Shirtwaist de 25 de março de 1911, em Nova York. Saídas Locked pobres e medidas de segurança causou a morte de 146 trabalhadores, maioritariamente mulheres. Tornou-se um escândalo internacional para a organização do trabalho inflamado. Ele ajudou a construir a International Ladies Garment Workers Union, que foi um dos primeiros sindicatos principalmente do sexo feminino e se tornou um dos maiores sindicatos de os E.U.
Em 1913 e 1914, como o batuque para a I Guerra Mundial estava começando a soar, IWD grandes manifestações pedindo paz teve lugar na Europa. A I Guerra Mundial começou em agosto de 1914. Durante vários anos, IWD foi reprimida tanto por governos capitalistas e por alguns partidos socialistas, aqueles que tinham traído trabalho internacional de solidariedade de classe, apoiando suas próprias nações em guerra.
Foi uma faísca revolucionária. Mas o mais momentoso IWD até agora foi na Rússia, em 8 de março de 1917. A história é contada magnificamente Leon Trotsky em História da Revolução Russa. As mulheres começaram a insurreição que derrubou o czar todo-poderoso - e levou à Revolução Bolchevique oito meses mais tarde.
Trabalhadores têxteis Mulher em São Petersburgo estava desesperado e irritado por causa da grave escassez de alimentos e ao abate de vários milhões de soldados russos na guerra. Eles entraram em greve, e apelou a outras fábricas para os apoiar. A greve e as manifestações aumentaram de dia para dia, e cinco dias depois, a monarquia russa tinha ido embora para sempre.
Revolta em curso. IWD não é apenas uma ocasião cerimonial. No Irão, em 2007, a polícia reprimiu violentamente um protesto IWD e prenderam dezenas de mulheres. O dia tem uma história de militância no Irão ».
Em IWD em 1979, no meio da revolução que derrubou o xá apoiado pelos EUA, e logo após a direita regime islâmico do aiatolá Khomeini chegou ao poder, 100.000 mulheres e adeptos do sexo masculino subiu na Universidade de Teerão. Então, 20.000 mulheres, com roupas ocidentais, em vez de o véu comprimento mandato completo, marcharam através da cidade. Os protestos foram organizados em outras cidades também. As mulheres exigiam igualdade de direitos, incluindo o direito de vestir-se como quisessem. Vigilantes religiosos dispersaram as mulheres, embora elas lutassem ao longo de vários dias. Foi o fracasso dos partidos de esquerda para defender as mulheres que levaram à derrota final da revolução.
A Liderança feminina é uma marca de água de alta nas lutas numerosos demais para contar. As trabalhadoras foram determinantes para nacionalizar os bancos durante a revolução incompleta portuguesa em 1974. As mulheres desempenharam um papel vital em convulsões latino-americana da década de 1980, incluindo a rebelião sandinista da Nicarágua. Europa nos anos 80 viu um aumento enorme do feminismo, sobretudo dentro dos partidos socialista e comunista.
No ano passado, as mulheres desempenharam um papel de vanguarda na insurreição em Honduras contra o golpe que depôs o presidente democraticamente eleito, Manuel Zelaya.
Nos E.U., o enorme movimento feminista lançado na década de 1960 começou com objectivos radical. Apesar da realização de algumas reformas e uma mudança nas atitudes sociais, estes objectivos continuam a ser cumpridas - como acontece no resto do mundo.
O dinamismo eo papel revolucionário das mulheres trabalhadoras que IWD comemora é uma chave para entender os nossos tempos. Revoltas por aqueles na parte de baixo contra os crimes da mola do sistema de lucro acima continuamente. E aquelas no fundo são mulheres, de todas as cores e nacionalidades e convicções sexuais, e como a parte mais injustiçado de todos os outros grupos oprimidos.
No processo de realizar sua própria libertação, as mulheres serão essenciais para a libertação da humanidade.

Megan Cornish - Global Research, 8 de março de 2010(traduzido).

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sexta-feira, 5 de março de 2010

Alteração das pensões e a desigualdade perante a morte

A Study of Death..Image by Compound Eye - In Business First Magazine via Flickr


António Campos

Será só em Espanha?

Quosque tandem abutere,
Catilina, patientia nostra? [1]

A deliberação do passado Conselho de Ministros de Espanha de propor a elevação da idade de reforma de 65 para 67 anos, a ampliação do período de tempo para o cálculo das pensões – com o objectivo evidente de reduzir a sua quantia – e o anúncio para o próximo dia 5 de Fevereiro dos conteúdos de uma nova reforma laboral – que indubitavelmente implicará novos cortes nos direitos laborais –, são as gotas que devem encher o copo da paciência dos trabalhadores e trabalhadoras.

Com cinco milhões de desempregados, 1.200.000 famílias com todos os seus membros desempregados, ao mesmo tempo que se volatiliza o emprego precário criado no tempo de fabulosos lucros empresariais, quando reforma após reforma se agravam os requisitos para aceder ao subsídio de desemprego ou de jubilação; agora que se transferiram centenas de milhares de milhões de euros para a banca e a indústria automobilística, que se reduzem sem parar os impostos às grandes fortunas e aos lucros empresariais, as cotizações do patronato para a segurança social; agora que se mantém a fraude fiscal ( do capital, claro) calculada em, pelo menos 130.000 milhões de euros, precisamente agora, aproveitando a paralisia catatónica que momentaneamente é a expressão generalizada do pânico da classe operária, o Governo do PSOE pretende descarregar sobre ela a totalidade do custo da crise.

Mas o mais grave não são os recursos que nos arrancam, precisamente na última etapa da nossa vida, quando o nosso corpo e a nossa mente envelheceram e se desgastaram produzindo a riqueza que nos foram expropriando e que engrossa os seus ofensivos lucros.

O cúmulo da alienação e da manipulação expressa-se quando o Governo e os seus «peritos»fazem o diagnóstico, e a partir dele o seu tratamento, no aumento da esperança de vida e, dizem eles, o correspondente aumento do tempo que medeia entre a reforma e a morte do trabalhador. O que deveria constituir, se fosse assim, um indiscutível avanço do desenvolvimento humano é um obstáculo a besta do capital continue a engordar, isto é para que funcione a prioridade absoluta que rege a sociedade e à qual se sujeita qualquer consideração que afecte as pessoas que a integram.

Mesmo que não houvesse milhares de outros exemplos, só este bastaria para definir o modelo social capitalista do século XXI como o predador mais feroz de seres humanos, precisamente quando o desenvolvimento científico e tecnológico permitiriam satisfazer as necessidades básicas de toda a humanidade.

A primeira consideração que há que fazer é que estão a manipular os dados como objectivo de confundir. A esperança de vida, como sabe qualquer aluno do primeiro ano de um curso de estatística, não mede a idade média da morte, como parece indicar o seu nome. A esperança de vida é um indicador complexo elaborado a partir de taxas de mortalidade em cada idade e que é decisivamente influenciado pela mortalidade infantil (primeiro ano de vida) e, ainda mais, pela perinatal (primeira semana de vida); isto é, o aumento da esperança de vida reflecte fundamentalmente diminuições nas taxas de mortalidade nas primeiras etapas da vida e não que se viva muito mais tempo. Utilizar este argumento é um truque indecente.

A segunda ideia essencial é ainda mais cruel, e por isso mais zelosamente escondida: as enormes e crescentes desigualdades sociais perante a morte.

Apesar dos poucos estudos não serem recentes – não é por acaso –, desde que existem estatísticas que comparam a mortalidade por classes sociais os dados reflectem o mesmo em todos os países capitalistas: as desigualdades reflectem-se directamente em diferenças de mortalidade que além do mais se expressam de forma gradual (o decréscimo em cada nível da escala social reflecte-se no correspondente aumento da mortalidade), que estão há décadas a aumentar e que exacerbam nos períodos de crise económica.

O relatório SESPAS 2000 [2] conclui rotundamente: «A mortalidade é superior entre os trabalhadores manuais em comparação com os restantes profissionais e quadros dirigentes. (…) A Razão da Mortalidade Estandardizada entre ambas as classes sociais [indicador que permite compará-las] aumentou de 1,27 em 1980-82 para 1,72 em 1988-90 e em quase todas as doenças as desigualdades se incrementaram. (…) Por outro lado, regista-se uma associação em forma de gradiente entre a privação material (desemprego, analfabetismo, classe social e condições de habitabilidade) e a mortalidade». [3]

Outro relatório elaborado sobre a mortalidade na cidade de Sevilha [4], comparando bairros diferentes (Zonas Básicas de Saúde), apesar de ser um estudo indirecto (por os territórios comparados não serem homogéneos), danos dados como estes: a mortalidade prematura multiplica-se por quatro nos homens nas zonas mais desfavorecidas, comparando-as com as zonas mais favorecidas; nas mulheres, multiplica-se por 2,6.

Isto é, a classe operária não é só a que produz a totalidade da riqueza que é usurpada por alguns, não vê apenas reduzir a capacidade aquisitiva do seu salário e deteriorarem-se as condições de vida em função da mais-valia expropriada, não só é expulsa para o desemprego como um traste imprestável quando o patronato calcula que os lucros não são suficientes. Além disso, os trabalhadores e trabalhadoras – com o seu corpo e a sua mente convertidos em autênticos campos de batalha da luta de classes – ainda pagam com a doença, e sobretudo, com a morte prematura, o seu dramático tributo ao desenvolvimento do capitalismo.

Mas tudo tem um limite e a impostura deste Governo e a de todos os que o precederam também o terá. A verdade nua e crua é que eles não são capazes de esgrimir um só argumento credível, nem sequer para os mais ingénuos, de que estas novas machadadas nos direitos laborais e sociais podem conseguir criar emprego, a começar pela insensata decisão de aumentar a idade da reforma.

O que é evidente é que depois de três décadas de genuflexões sindicais e de um baixar a cabeça «a ver se não me toca a mim», o que conseguimos foi retroceder até à lei da selva no que respeita a direitos, enquanto o capital enche os bolsos como nunca. Agora, perante uma crise descomunal, o que está claro é que, nem o Governo nem a restante classe política nem os capitalistas a quem eles representam têm qualquer alternativa que não seja o apertar da tarracha para reduzir os custos laborais, e que preferem que a locomotiva capitalista descarrile, em vez de mudar de via e de condutor.

Um novo sindicalismo deve surgir e é preciso recorrer o mais urgente possível ao encontro entre as organizações e as pessoas que fazem a democracia operária, a dignidade e a luta da sua razão de existir, para canalizar a luta operária e popular. Está na hora de decidir, e o suicídio, que aumenta dramaticamente entre os que individualmente não vêem outra saída para desespero do desemprego e da angústia, não é alternativa.

Ángeles Maestro

Notas:
[1] «Até quando Catalina abusarás da nossa paciência?» Imprecação lançada por Marco Tulio Cicero contra Catilina numa reunião do Senado romano, perante as continuas conspirações deste contra a República.
[2] Sociedade Espanhola de Saúde Pública e Administração Sanitária (SESPAS)
http://www.sespas.es/informe2000/d1_01.pdf
[3] Ibid.
[4] http://scielo.isciii.es/scielo.php?pid=S0213-91112004000100004&script=sci_arttext

http://odiario.info/articulo.php?p=1476&more=1&c=1

Inclusão original (d1_01.pdf)



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quarta-feira, 3 de março de 2010

Crise económica - aproxima-se a hora da verdade

MN: Economic Crisis on Nicollet Mall - Engagin...Image by aflcio2008 via Flickr


António Campos

O colapso populacional de 4 e 5 de Fevereiro deste ano mostrou que a crise estava a entrar numa nova fase. O Outono de 2008 tinha visto a agonia de uma crise financeira e de progresso, a sua transmissão para a economia "real". No entanto, após uma queda fenomenal em 2009 U. S. PIB de -2,4% (sem precedente real da crise do "grande"), tinha pensado que pudesse apontar para uma recuperação, rapidamente apelidado de "sair da crise".

Ilusão: a economia mundial estava em um estado de levitação, mal tocando o chão, carregado nos braços de apoio público de uma forma extraordinária. Avançando em grandes disparidades, vem em auxílio dos bancos, execução de planos de suporte, os défices públicos atingiram níveis incríveis: 10% do PIB nos Estados Unidos, 8% na França, mais de 12% no Brasil Unido. A dívida pública passou por todos os países, atingindo 85% do PIB nos Estados Unidos, ou 76% em França.

Como um jogo de rugby em que a bola é passada a queimar as mãos, tornou-se o endividamento das famílias americanas, o endividamento dos Estados. Quando um devedor não consegue cumprir os prazos, só existem duas maneiras de lidar com a dívida em suspenso - transferir ou cancelar. Cancelar as dívidas significaria entrar em uma crise financeira e económica do curso de extensão enorme, é preferível, uma vez mais, a frente de voo e a dívida privada foi convertida em dívida pública. Assim, o problema foi superado, mas apenas disfarçado e deslocado. O excesso de dívida pública é universal, mas sempre há elos fracos.

Estes são chamados de Grécia, Espanha, Portugal e Irlanda. Grécia (cuja dívida pública deve chegar a 125% do PIB em 2010) foi colocado sob tutela da Comissão Europeia. Mas outros países não são deixados para trás e as taxas correspondentes para 2010 ascendeu a 85% para Portugal, 83% para a Irlanda (44% em 2008), 66% para a Espanha (40% em 2008). Estava claro desde o início que esta situação não podia durar. O consumo privado doméstico (o investimento empresarial) deve assumir a partir do público, que lhe permite retirar-se. O grande problema é que a embraiagem do privado incide sobre o público e, a grande mudança está começando a prevalecer no estabelecimento de medos que devem perdurar por muitos meses. A ideia de que, em suma, a crise está longe de acabar, e nós não estamos em um quadro onde V, mesmo em W, mas certamente mais em L.

No entanto, os planos de recuperação das finanças públicas que foram apresentadas até agora são todos baseados no pressuposto de uma forte recuperação da economia, o que permitiria reduzir os défices mais rápido e o aumento das receitas fiscais com a redução drástica das despesas públicas. Se a recuperação esperada não aparece, e muito menos a hipótese de uma rápida subida das receitas fiscais e os governos dos países que estão na mira dos investidores são colocados perante um dilema terrível. Ou continuar a apoiar a economia e evitar o seu colapso, mas evolui um ciclo de que não é assim, continua a agravar os seus défices para que eles sejam cada vez mais caros para cobrir. Ou suporte para a queda da economia, a remoção de apoios do público, mas depois corre-se o risco de precipitar a economia nas profundezas, sem no entanto garantir uma redução do défice público. Estes países são membros da União Europeia, o que se poderia pensar que seriam elegíveis para o apoio da União, como tal, ou algum de seus componentes.

Mas se as principais potências económicas europeias decidem ajudar aqueles que lutam em águas profundas, que o risco de ser varrido e afundar sua vez, e isto especialmente porque eles também estão muito endividados. Se esses poderes não avançam, os países mais directamente ameaçadas não podem pagar suas dívidas, eles sabem que vai relançar a crise dramaticamente e eles são os próximos na fila.

"Os mercados" vão pensar, falar, sinalizar, e estes são, nessa ocasião, bastante claros. "Os investidores" estão claramente tornando-se cada vez mais convencidos de que os países em risco não podem mais sustentar suas economias por um longo tempo. Será então sair da situação "de baixo", ou seja, tentar a recuperação das finanças públicas, principalmente pela redução de custos.

Ilusões: depois de ter voado para doações em auxílio dos capitalistas, os governo vão agora pedir aos trabalhadores que fazer sacrifícios, através de aumento de impostos ou a destruição dos serviços públicos. O colapso dos mercados que acaba de ter lugar pode ser facilmente interpretado como uma forte reacção, um apelo aos governos para começar a trabalhar no menor espaço de tempo, para mostrar que são capazes de atacar a grande massa da população a poupar para uma pequena minoria. Trata-se de pedir aos trabalhadores para organizar a resistência, já que esta crise é a do capital, e não uma questão de pagar os seus preços mais elevados.

Isaac Johsua

http://www.rebelion.org/noticia.php?id=100344


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segunda-feira, 1 de março de 2010

A cultura – conceitos gerais

Singer sewing machine advertisement card, dist...Image via Wikipedia


António Campos

Em 1871, o etnólogo americano Edward Tylor definia a cultura como «aquele conjunto de elementos que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, usos e quaisquer outras capacidades e costumes adquiridos pelo homem enquanto membro de uma sociedade» (Ty1or, 1871). É esta uma das primeiras tentativas para uma definição científica de cultura, ou de elaboração de um conceito capaz de delimitar de um modo suficientemente rigoroso o âmbito dos fenómenos culturais enquanto objecto de análise das ciências sociais.

Na realidade, o termo cultura, como constataremos ao longo deste trabalho, presta-se a muitas e diversas interpretações. Em 1952, Alfred Kroeber e Clyde Kluckhohn, desenvolvendo uma análise histórico-crítica das definições de cultura propostas pelos especialistas das ciências sociais, puderam inventariar mais de cento e cinquenta. Kluckhohn tentou sintetizar na lista que se segue os diferentes tipos de definição da cultura: 1) o modo de viver de um povo na sua globalidade; 2) a hereditariedade social que um indivíduo adquire no seu grupo de pertença; 3) uma maneira de pensar, sentir, crer; 4) uma abstracção derivada do comportamento; 5) uma teoria elaborada pelo antropólogo social sobre o modo como efectivamente se comporta um grupo de pessoas; 6) a globalidade de um saber colectivamente possuído; 7) uma série de orientações generalizadas relativamente aos problemas recorrentes; 8) um comportamento aprendido; 9) um mecanismo para a regulação normativa do comportamento; 10) uma série de técnicas que permitem a adequação, quer ao ambiente circundante, quer aos outros homens; 11) um aglomerado de história, de um mapa, de uma peneira, de uma matriz (cf. Kroeber, 1952; Kroeber-Kluckhohn, 1963; Kluckhohn, 1949;
Geertz, 1973, pp. 40-41).

Como vemos, os tipos de definição variam na medida em que se coloca a tónica sobre a dimensão subjectiva da cultura ou sobre a presença do aspecto humano referente aos valores, modelos de comportamento, critérios normativos interiorizados (modos de pensar, sentir, crer; orientações estandardizadas; mecanismos de regulação do comportamento, etc.), ou ainda sobre o carácter, por assim dizer objectivo, que as formas culturais assumem enquanto memória colectiva ou tradição codificada e acumulada no tempo (hereditariedade social, depósito do saber, das técnicas, composto de história, superfície geográfica). Enfim, outras definições tendem a sublinhar que o conceito de cultura não passa de uma abstracção que permite ao cientista social orientar a sua investigação.

Os diversos elementos que surgem condensados no termo cultura fazem ressaltar, por um lado, a dimensão descritiva e cognitiva da cultura; as crenças e as representações sociais da realidade natural e social, ou as imagens do mundo e da vida, que contribuem para explicar e definir as identidades individuais, as unidades sociais, os fenómenos naturais; por outro, a dimensão prescritiva da cultura, enquanto conjunto de valores que indicam os objectivos ideais a prosseguir, e de normas (modelos de acção, definição dos papéis, regras, princípios morais, leis jurídicas, etc.), que indicam o modo segundo o qual os indivíduos e as colectividades devem comportar-se.

Ambas as dimensões, a descritivo-cognitiva e a prescritiva, encontram-se quase sempre intimamente ligadas, enquanto o elemento normativo acha uma justificação nas crenças e nas representações, porquanto estas surgem reforçadas pelos processos de construção da realidade, influenciados pelas prescrições normativas. Além disso, a cultura apresenta-se como tradição, isto é, como possibilidade de um acumular das experiências, enquanto depósito da memória colectiva.

A dificuldade de estabelecer de um modo preciso o conceito de cultura encontra-se ligada à complexidade apresentada por este mesmo fenómeno e, caso não se pretenda apresentar uma definição redutora, será necessário tomar em consideração os diversos elementos que o compõem. Um contributo decisivo neste sentido decorreu das diferentes abordagens teóricas e metodológicas a partir das quais a sociologia da cultura se tem vindo a articular.

Porém, antes de entrarmos no campo dessas diferentes interpretações, será útil recordar as origens históricas do conceito científico de cultura, e, em seguida, esclarecer algumas categorias gerais que se encontram na base da função simbólica produtora de cultura. Além disso, a fim de se compreender a função dos modelos teóricos considerados, será também necessário evidenciar o tipo de relação existente entre a dimensão teórica e a da pesquisa empírica.

In Manual de Sociologia da Cultura, de Franco Crespi (adaptado)


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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O Poder Simbólico

A segment of a social networkImage via Wikipedia


António Campos

O autor aponta para a necessidade de relativizar a proposta do texto, pois o mesmo é fruto de uma “tentativa para apresentar o balanço de um conjunto de pesquisas sobre o simbolismo numa situação escolar particular…” ele fala do cuidado que se deve ter ao aplicar ideias oriundas de um dado contexto cultural a outros, apontando para as suas implicações: riscos de ingenuidade e simplificação, além de inconvenientes. Entretanto, ele fala de algo que está em toda parte e é ignorado: o poder simbólico.”O poder simbólico é, com efeito, esse poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo o exercem.”

Bourdieu cita os neo-kantianos e o tratamento dado por eles aos diferentes universos simbólicos: mito, língua, arte, ciência. Para eles, cada um desses instrumentos constitui-se num instrumento cognoscente e de construção do mundo objectivos. Ele faz referência a Durkheim e à sua tentativa de elaborar ciência, sem empirismo e apriorismo, como o primeiro passo na inauguração de uma “sociologia das formas simbólicas.” “Nesta tradição idealista, a objectividade do sentido do mundo define-se pela concordância das subjectividade estruturantes (senso = consenso).” Segundo ele, a análise estrutural seria capaz de analisar a apreensão de cada uma das “formas simbólicas”, a partir do isolamento da estrutura imanente a cada produção simbólica, privilegiando as estruturas estruturadas. Para ilustrar, ele cita o linguista Ferdinand Saussure, fundador desta tradição, e a representação que ele faz da língua:“… sistema estruturado, a língua é fundamentalmente tratada como condição de inteligibilidade da palavra, como intermediário estruturado que se deve construir para se explicar a relação constante entre som e sentido.”

A eficácia dos sistemas só é possível, porque eles próprios são estruturados. O poder simbólico constrói a realidade e estabelece uma ordem gnosiológica.“… o sentido imediato do mundo (e, em particular, do mundo social) supõe aquilo que Durkheim chama o conformismo lógico, quer dizer, ‘uma concepção homogénea do tempo, do espaço, do número, da causa, que torna possível a concordância entre as inteligências.” Segundo Bourdieu, Durkheim afirma que a função social do simbolismo é política, não se realizando a função de comunicação. “Os símbolos são instrumentos por excelência da ‘integração social’: enquanto instrumentos do conhecimento e de comunicação (a análise durkheimiana da festa), eles tornam possível o consenso acerca do sentido do mundo social que contribui fundamentalmente para a reprodução da ordem social: a integração ‘ilógica’ é a condição da integração ‘moral’.”

Bourdieu cita a ênfase nas funções políticas que os “sistemas simbólicos têm, em detrimento da sua função gnosiológica. Os símbolos seriam produzidos para servir à classe dominante. “As ideologias, por oposição ao mito, produto coletivo e colectivamente apropriado, servem interesses particulares que tendem a apresentar como interesses universais, comuns ao conjunto do grupo (…) Este efeito ideológico, produz a cultura dominante dissimulando a função de divisão na função de comunicação: a cultura que une (intermediário da comunicação) é também a cultura que separa (instrumento de distinção) e que legitima as distinções compelindo todas as culturas (designadas como subculturas) a definirem-se pela sua distância em relação à cultura dominante.”

As relações de comunicação são, para Bourdieu, relações de poder determinadas pelo poder material ou simbólico acumulado pelos agentes envolvidos nas relações. Os “sistemas simbólicos” actuam como instrumentos estruturados e estruturantes de comunicação e conhecimento e asseguram a dominação de uma classe sobre outra a partir de instrumentos de imposição da legitimação, “domesticando” os dominados. “O campo de produção simbólica é um microcosmos da luta simbólica entre as classes: é ao servirem os seus interesses na luta interna do campo de produção (e só nesta medida) que os produtores servem aos interesses dos grupos exteriores do campo de produção.”

A luta de classes fica retratada na teoria de Bourdieu como uma luta pelo domínio do poder simbólico, que é travada nos conflitos simbólicos quotidianos. Esta luta se dá também a partir do embate travado entre os especialistas da produção simbólica legítima: “… poder de impor – e mesmo de inculcar – instrumentos de conhecimento e de expressão (taxionomias) arbitrários – embora ignorados como tais – a da realidade social.” Os “sistemas simbólicos” são produzidos e apropriados pelo próprio grupo, ou por um corpo de especialistas que conduz à retirada dos instrumentos de produção simbólica dos membros do grupo. Como exemplo, Bourdieu cita a história da transformação do mito em religião. As ideologias devem a sua estrutura e as funções mais específicas às condições sociais da sua produção e da sua circulação, quer dizer, às funções que elas cumprem, em primeiro lugar, para os especialistas em concorrência pelo monopólio da competência considerada (religiosa, artística etc) e, em segundo lugar e por acréscimo, para os não-especialistas.” As ideologias, segundo Bourdieu, são determinadas pelos interesses de classe e pelos interesses específicos daqueles que a produzem e pela lógica específica do campo de produção.

“A função propriamente ideológica do campo de produção ideológica realiza-se de uma maneira quase automática, na base da homologia de estrutura entre o campo de produção ideológica e o campo de luta de classes. A homologia entre os dois campos faz com que as lutas por aquilo que está especificamente em jogo no campo autónomo produzam automaticamente formas eufemizadas das lutas económicas e políticas entre as classes.’ O ideológico aparece então como taxionomias políticas, filosóficas, religiosas, jurídicas etc. que demonstram legitimidade “natural”, dado que não reconhecidas. O poder simbólico como poder de constituir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de transformar a visão do mundo e, deste modo, a acção sobre o mundo, portanto mundo, poder quase mágico que permite o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou económica), graças ao efeito específico de mobilização, só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário.”

“O reconhecimento do poder simbólico só se dá “na condição de se descreverem as leis de transformação que regem a transmutação das diferentes espécies de capital em capital simbólico e, em especial, o trabalho de dissimulação e de transfiguração (numa palavra, de eufemização) que garante uma verdadeira transubstanciação das relações de força fazendo ignorar-reconhecer a violência que elas encerram objectivamente e transformando-as assim em poder simbólico, capaz de produzir efeitos reais sem dispêndio aparente de energia.”


BOURDIEU, Pierre. “Sobre o poder simbólico”. In : O poder simbólico. Lisboa : DIFEL, 1989. p. 7-15. (adaptado)



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