segunda-feira, 10 de maio de 2010

Igreja, crise e visita do Papa

Golgotha Crucifix, designed by Paul Nagel, Chu...Image via Wikipedia


António Campos

São três dados históricos que, embora não pareça, se entrelaçam no nosso actual quotidiano: a Igreja como componente social, a crise capitalista que tende a fugir a qualquer controlo e uma banal visita de um Papa que pode vir a ganhar outros contornos.
Como se sabe, é a Igreja que, a partir da sua estruturação, sugere ao sistema capitalista actual o esquema da sua organização política. A Igreja, tal como o capitalismo, invoca raízes éticas, fala uma linguagem metafísica mas procura na prática o lucro imediato e a qualquer preço. Tal como acontece com todos os sistemas capitalistas.

Foi assim que a Igreja enriqueceu colada a estruturas de poder cada vez mais ferozes e também cada vez mais opulentas. As regras da ética política tornam-se maleáveis e contam com o beneplácito da Igreja. Ao longo dos tempos – desde a Reconquista até aos finais dos finais do século XIX – tudo se mostrou favorável à expansão universal destes três principais parceiros: a Igreja, o capital e o poder. Depois, com o desenvolvimento sistemático das ciências, o aprofundamento dos métodos materialistas e dialécticos, a vitória socialista num grande país do mundo como era a Rússia czarista e com a desagregação dos grandes impérios coloniais, todo o panorama mundial se transformou radicalmente. Ainda assim, capitalismo e Igreja puderam recuperar o controlo da nova situação, para eles alarmante. Mantinha-se porém, a nível confessional, uma questão de fundo, hoje já praticamente inexistente no mundo católico – que é mais importante para o crente: ter fé e agir de acordo com a sua própria consciência moral e política ou curvar-se e obedecer cegamente aos interesses da Igreja do Papa? …

Se é verdade que as crises cíclicas sempre acompanharam a história do capitalismo, é não menos certo que nos tempos modernos e actuais elas têm sido cada vez mais numerosas, ganhando novos contornos e diminuindo os intervalos entre si.

A crise que vivemos (simultaneamente crise financeira, económica e de valores) não é comparável a muitas outras crises. Antecipa uma catástrofe global nunca vista. E não surgem mezinhas milagrosas que lhe acudam. Esta crise gera, como nas escleroses, uma girândola de novas crises. A bancarrota final desenha-se, cada vez mais nitidamente, nas sociedades convertidas ao capitalismo.

Nestes cenários de crise mundial, os governos capitalistas limitam-se a copiar mecanicamente as receitas já usadas por outros governos capitalistas, em tempos anteriores, para combaterem crises muito menos graves. Quebram a moeda, aumentam os impostos, vendem o património ao desbarato, extinguem ou inviabilizam direitos populares já conquistados, emprestam a juros cada vez mais altos, numa palavra, norteiam-se pelo princípio inflexível: «Nos bons velhos tempos, engordámos muito bem... Agora que venha o povo,… e pague a crise!».

Assim, esta vinda a Portugal de Bento XVI, pode ser entendida em três níveis interligados: dois deles secundários e um outro essencial. O primeiro é um grito de alarme. A Igreja precisa urgentemente de maquilhar as suas feridas. Os escândalos religiosos ligaram-se aos crimes financeiros das bolsas e da banca. O prestígio da Igreja entrou em derrapagem. Precisa-se de um milagre.

O outro nível, por ridículo que pareça, desenvolve-se a nível do comércio miúdo. A Igreja deve lucrar o máximo com gastos mínimos. Acumular, acumular, acumular, continua a ser uma linha de rumo, a «regra de oiro» da presença cristã no mundo. Neste sentido, o Papa não rejeita oportunidades: desde o negócio dos microfones em oiro aos cadeirais setecentistas, às dádivas das Fundações e das empresas, à partilha das «esmolas» com as ONG e as IPSS, aos «diabólicos» lucros dos jogos de azar das Santas Casas, a lista não tem fim. O Papa dá lucro.
Mas o fundamental destas digressões consiste no reforço das relações que unem a Igreja Católica e o sistema capitalista…

Jorge Messias (adaptado)




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sexta-feira, 7 de maio de 2010

O que se passa no quotidiano 2)

Everyday (Dave Matthews Band song)Image via Wikipedia


António Campos

Mesmo fazendo emergir meras silhuetas ou contornos do social através da sua alusão sugestiva, em vez da sua ilusão de posse, cabe perguntar: o que se passa no quotidiano?

O quotidiano - costuma dizer-se - é o que se passa todos os dias: no quotidiano nada se passa que fuja à ordem da rotina e da monotonia. Então o quotidiano seria o que no dia a dia se passa quando nada se parece passar. Mas só interrogando as modalidades através das quais se passa o quotidiano - modalidades que caracterizam ou representam a vida passante do quotidiano - nos damos conta de que é nos aspectos frívolos e anódinos da vida social, no «nada de novo» do quotidiano, que encontramos condições e possibilidades de resistência que alimentam a sua própria rotura.

Detenhamo-nos, com efeito, nesta simples constatação: se o quotidiano é o que se passa quando nada se passa - na vida que escorre, em efervescência invisível -, é porque «o que se passa» tem um significado ambíguo próprio do que subitamente se instala na vida, do que nela irrompe como novidade («o que se passou?»), mas também do que nela flui ou desliza (o que se passa...) numa transitoriedade que não deixa grandes marcas de visibilidade.

O que se passa no quotidiano é «rotina», costuma dizer-se. A ideia de rotina é próxima da de quotidianeidade e expressa o hábito de fazer as coisas sempre da mesma maneira, por recurso a práticas constantemente adversas à inovação. É certo que, considerado do ponto de vista da sua regularidade, normatividade e repetitividade, o quotidiano manifesta-se como um campo de ritualidades. A rotina é, aliás, um elemento básico das actividades sociais do dia a dia. No «conhecimento prático» ou «quotidiano» a rotina aparece como uma espécie de «cunha» entre as acções «inconscientes» (tomada a expressão no seu corrente sentido psicológico) e aquelas que são levadas a cabo de uma forma deliberadamente consciente.(…). No entanto, as raízes etimológicas de rotina apontam para outro campo semântico, associado à ideia de rota (caminho), do latim via, rupta, donde derivam as expressões «rotura» ou «ruptura»: acto ou efeito de romper ou interromper; corte, rompimento, fractura.

Ora é nestas rotas - caminhos de encruzilhada entre a rotina e a ruptura - que se passeia a sociologia do quotidiano, passando a paisagem social a pente fino, procurando os significantes mais do que os significados, juntando-os como quem junta pequenas peças de sentido num sentido mais amplo: como se fosse uma sociologia passeante, que se vagueia descomprometidamente pelos aspectos anódinos da vida social, percorrendo-os sem contudo neles se esgotar, aberta ao que se passa, mesmo ao que se passa quando «nada se passa». Daí as maledicências e apodos que por vezes se dirigem a uma tal perspectiva analítica e metodológica.

O paralelismo com o que aconteceu com a pintura de Caravaggio e Velázquez parece evidente. Do mesmo modo que as cenas banais da vida quotidiana foram consideradas um tema de pinturas de «género inferior» (os incómodos plebeus das tabernas...), também a sociologia do quotidiano é vista como uma sociologia «superficial» (facilmente seduzida pelo anódino, anedótico, inessencial) ou «indiscreta» (tentada pelo proibido, oculto, subterrâneo). Na pintura, como na produção científica, as inovações de estilo sempre afrontaram os padrões convencionais de observação…

Sociologia da vida quotidiana, José Machado Pais , 2007(adaptado)
(continua)


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quarta-feira, 5 de maio de 2010

A tragédia grega

A ruined temple, GreeceImage by National Media Museum via Flickr


António Campos

A crise na Grécia não é uma simples emergência passageira. É a prova de que a economia mundial permanecerá uma longa temporada, talvez mais de dez anos, submergida num letargo profundo. Transporta nas suas entranhas o anúncio de eventos nefastos. Em comparação com o terramoto grego, a queda do Lehman Brothers em 2008 poderia parecer um jogo de crianças. Não restam dúvidas, a ideia de que já entrámos numa fase de recuperação é brutalmente desmentida com o colapso da economia grega.

É agora bem sabido que para ingressar na zona euro em 2001, o governo grego ocultou a real magnitude do deficit público e de endividamento, para cumprir com os requisitos do Tratado de Maastricht (deficit fiscal e endividamento inferiores a 3 e 60 por cento do PIB, respectivamente). Em 2004, o Eurostat descobriu os truques contabilísticos e nesse ano o deficit foi recalculado, passando de 1,7 para 4,6 por cento. Em 2009 esse deficit atingiu 12,7 por cento do PIB. Por sua vez, o Goldman Sachs e o gigante em bancarrota AIG ajudaram a disfarçar o montante da dívida através de operações pouco transparentes nos mercados de derivados.

Quando ingressou na esfera do euro, a Grécia fê-lo com um tipo de câmbio sobrevalorizado, o que deu aos consumidores uma ilusão de prosperidade e o acesso a bens e serviços que antes estavam fora do seu alcance. A deterioração das contas externas gregas não demorou, e hoje o deficit comercial atinge 12,8 por cento do PIB.

Além disso, com as menores taxas de juros, tanto o sector privado como o governo aumentaram os seus níveis de endividamento. A dívida externa da Grécia ascende hoje a 260 mil milhões de euros e os vencimentos a curto prazo constituem uma séria ameaça: 30 mmde euros em Abril e Março (64 mmde euros ao longo do ano). O país não tem com que enfrentar esses vencimentos e a ameaça de uma moratória é real. As consequências para a Europa seriam graves.

A crise mundial apanhou a Grécia numa má conjuntura. A sua balança de pagamentos apresenta grande debilidade e as suas finanças públicas estão doentes.

Normalmente, um país nessas condições poderia recorrer a uma desvalorização. Mas por pertencer à esfera do euro, Atenas não controla a sua política cambial. Tanto a Grécia como a União Europeia enfrentam um perigoso dilema: uma saída grega da zona euro implica graves danos para o euro, mas permanecer nela aplicando um programa de austeridade implica uma recessão prolongada e difícil para a Grécia.

Os líderes da União Europeia insistiram em que não deixarão cair a economia grega, mas há muitas reticências. Na Holanda foi votada uma lei que proíbe usar recursos fiscais holandeses num eventual resgate dos gregos. Na Alemanha o sentimento é parecido. De qualquer forma, se se conseguir montar um pacote de salvamento para Atenas, o mais seguro é que virá acompanhado de terríveis condições de austeridade. Qualquer um que recorde os pacotes de austeridade pro-cíclicos impostos pelo FMI nas últimas décadas sabe muito bem o que isso significa.

Poder-se-ia pensar que se se mantivesse o deficit constante, o crescimento da economia grega poderia levar a cumprir a meta macroeconómica da sua redução. Mas no contexto de uma recessão mundial isso não sucederá. Parece que o sacrifício que a UE exigirá para ir ao resgate será descomunal: cortes fiscais a todo o tipo de prestações e na despesa social, além de uma avalanche de aumentos de impostos. Essas medidas de austeridade aprofundarão a recessão e reduzirão ainda mais a recolha fiscal, alongando a duração da emergência. Em todo este processo, o serviço da dívida passará por um colossal desvio de recursos da economia real para a esfera financeira.

Paradoxalmente, os embustes dos governos gregos poderiam apontar para uma porta de saída: o corte da despesa militar. Em 1991, quando as autoridades gregas mentiram sobre a magnitude do deficit público, parte do engano versou precisamente sobre a aquisição de elevadíssimos aviões militares. Em 2005, a despesa militar nesse país atingiu 4,3 por cento do PIB (dados de SIPRI). É evidente que esse deveria ser o primeiro filão para um programa de saneamento das finanças públicas. Na verdade, o montante preciso da despesa militar poderia ser maior. De qualquer forma, mesmo o corte na despesa militar não é suficiente para evitar o ajuste brutal que se imporá sobre o povo grego.

Como numa tragédia clássica, a Grécia tem frente a si opções que oscilam entre o terrível e o desastroso. Se aceitar um resgate condicional, sacrificar-se-á no altar da austeridade e sofrerá uma longa e brutal recessão. Se declarar a moratória, ficará isolada e os efeitos sobre os bancos da União Europeia serão desastrosos. O exílio poderia ser outra opção: a Grécia poderia abandonar o euro, o que se repercutiria negativamente sobre a credibilidade da união monetária e sobre a economia mundial. No género da tragédia, todos os caminhos conduzem à desgraça.

Alejandro Nadal



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segunda-feira, 3 de maio de 2010

A pedofilia é endémica à Igreja Católica?

Nativity of the Blessed Virgin Mary Catholic C...Image by sarowen via Flickr


António Campos

O flagelo da pedofilia tornou-se uma verdadeira doença orgânica da Igreja Católica. Nas condições actuais não pode ser derrotada pela acção hipócrita de censura, reprovação e condenação do Vaticano. Aliás basta olhar para o que fez a Igreja a todos os padres e bispos pedófilos americanos para perceber como, de facto, não reconhece a pedofilia como um crime e um comportamento inaceitável e classifica-a apenas como mais um "pecado" a ser excluído com a confissão.

No catecismo recentemente actualizado a pedofilia não é sequer mencionada no rol dos pecados. Em qualquer caso, a pena máxima prevista é pedir perdão e se arrepender. Como se o perdão e o arrependimento pudessem curar o dano quase permanente que marca as vidas das crianças abusadas para sempre. Até agora, a Igreja preocupou-se apenas em ocultar ao mundo as suas culpas, sem, na verdade, as reprimir.

Porque, entre as muitas religiões que existem no mundo, apenas a Igreja Católica está fortemente afectada de forma maciça pela doença da pedofilia?

Em primeiro lugar pela satanização da mulher, do sexo e do corpo. A mulher, apesar do culto da Virgem Maria e tantas santas, é concebida como instrumento do Maligno para corromper o homem corrupto.

Em segundo lugar pelo o celibato obrigatório. Se os padres pudessem casar-se e constituir família, poderiam ter uma vida sexual regular com a mulher que amariam, e certamente se criaria um ambiente mais normal dentro da rígida hierarquia da Igreja. Dentro de um par de gerações, o fenómeno da pedofilia poderia reentrar na normalidade fisiológica do mundo secular.

Em terceiro lugar pela monossexualidade da estrutura da Igreja. Do Papa ao padre da igreja de bairro a Igreja é gerida apenas por homens. Se as mulheres fossem admitidas ao sacerdócio em todos os seus graus até ao papado, se houvesse uma verdadeira igualdade entre homens e mulheres dentro da igreja, certamente tudo iria mudar para melhor. Mas isso não é possível e na fantasia da Igreja a figura de uma Papisa é vista como demoníaca. Lembramo-nos da história-lenda da papisa Joana assassinada por uma turba na alta Idade Média, por iniciativa dos cardeais do Idade Média.

Finalmente, devemos considerar que a Igreja vê a vida humana como processo de expiação e de redenção para a vida eterna. Uma espécie de antecâmara, como premissa, que deverá sofrer, sofrer tanta dor para ganhar o céu. Este ponto de vista distorce todos os valores em função de uma almejada vida eterna. Nesta distorção, a concepção demoníaca da carne em oposição ao "espírito", insinua-se a patologia pedófila.

Em conclusão: sacerdócio para as mulheres e o pleno reconhecimento da igualdade de género, fim do celibato, reabilitação do corpo humano sobre o chamado "espírito", pode curar a Igreja de pedofilia. Mas é difícil imaginar uma reviravolta humanista e secular de um poder que vive e prospera graças a proibições que impõe ao sexo e é incapaz de encontrar no Evangelho a sua motivação profunda da verdade.

por:Thynus Autor : Pietro Ancona




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sexta-feira, 30 de abril de 2010

A humildade

NYC - Metropolitan Museum of Art - Death of So...Image by wallyg via Flickr


António Campos

Uma lição de sabedoria com o pensador que tinha consciência de sua própria ignorância.

O filósofo grego Sócrates foi um dos poucos personagens históricos que mudaram os rumos do pensamento humano sem ter deixado uma única linha por escrito. Outros membros desse seleto clube são Buda e Jesus Cristo; ao contrário deles, Sócrates não fundou religião alguma, mas sua vida e personalidade estão até hoje cercadas por uma aura de mistério muito próxima à dos místicos e dos santos (no Islão medieval, aliás, ele era conhecido como o “profeta da Grécia antiga”). Considerado por alguns historiadores como o fundador da filosofia ocidental, ele é até hoje uma das figuras mais controversas e obscuras na história das ideias: tudo o que sabemos sobre ele é um punhado de fatos esparsos, relatados nas obras nada imparciais de seus fervorosos discípulos e seus igualmente entusiasmados detratores. O amor e o ódio a Sócrates, por sinal, são dois vetores constantes na história da filosofia: um jogo de veneração e repulsa que já rendeu muito polémica metafísica.

Grande parte do que sabemos sobre Sócrates está contido na obra de seu discípulo mais famoso, Platão – nos textos conhecidos como Diálogos, ele retratou as incansáveis discussões filosóficas entabuladas pelo mestre. Uma das questões mais espinhosas na história da filosofia é, precisamente, fazer a distinção entre o pensamento de Sócrates e o de seu discípulo-biógrafo. Contudo, por mais difícil que seja determinar o teor exato das ideias socráticas, o que ninguém nega é a importância descomunal do método de filosofar empregado por ele: a dialética ou, tirando em miúdos, a arte do diálogo. Para compreendê-la, é preciso dar uma olhadela no fascinante mundo em que Sócrates viveu e filosofou – a Grécia do século 5 a.C.

Quando Sócrates nasceu, por volta de 469 a.C., os gregos haviam acabado de derrotar a Pérsia – a superpotência expansionista da época – nas chamadas Guerras Médicas. O triunfo militar abriu as portas para um dos períodos mais férteis da civilização ocidental. Atenas tornou-se senhora de um vasto império marítimo e centro de uma cultura efervescente. Por meio de uma série de reformas políticas, os atenienses aperfeiçoaram o sistema de governo que haviam adoptado no século 6 a.C.: a democracia. A cada mês, os cidadãos com mais de 30 anos se reuniam em uma grande Assembleia para debater leis e escolher magistrados. Cada um tinha o direito de defender suas ideias em discursos públicos. Por isso, a arte de falar bem – para convencer, para dissuadir ou mesmo para enganar – tornou-se uma das ocupações favoritas entre os atenienses de todas as classes.

A arte do diálogo - é nesse contexto que surgem os sofistas – trupe de intelectuais itinerantes que, em troca de remunerações graúdas, ensinavam as manhas da retórica aos jovens atenienses com ambições políticas. Até então, a filosofia grega ocupava-se principalmente de assuntos cosmológicos, como a natureza dos astros e a origem do universo. Os sofistas mudaram essa equação: para eles, o objeto da reflexão filosófica era o próprio homem. Foi um sofista chamado Protágoras quem cunhou uma das frases hoje utilizadas para descrever o espírito daquela época: “O homem é a medida de todas as coisas”. Outra grande inovação introduzida por eles foi o uso do diálogo como método de reflexão e persuasão. Até então, pensadores e políticos costumavam deslindar suas ideias em longos monólogos, emitidos do alto de tribunas, para audiências que podiam interferir apenas com aplausos ou apupos. Já os sofistas preferiam exibir suas habilidades lógicas e seus floreios argumentativos em debates cara a cara, em que dois ou mais interlocutores se digladiavam na defesa de ideias opostas. Esse método dinâmico e vivaz fez grande sucesso em meio à juventude ateniense, que acorria em pencas para assistir aos animados duelos de eloquência protagonizados por Protágoras e sua turma.

Em meio às entusiasmadas audiências dos diálogos sofistas, havia um sujeito pobretão, excêntrico e dono de uma feiura proverbial. Antes de ganhar celebridade como filósofo, Sócrates já era famoso como o maior esquisitão de Atenas. Filho de um escultor e de uma parteira, ele se dedicou por alguns anos ao ofício do pai. Mas, ao que tudo indica, o patrono da filosofia ocidental não era, digamos, um sujeito muito trabalhador. Sua principal ocupação era sondar a alma humana, e pouco tempo lhe restava para questões rotineiras, como ganhar a vida. Costumava andar pelas ruas de Atenas metido em roupas puídas, com as grandes barbas descabeladas e sempre perdido em reflexões. Às vezes, tinha acessos de abstração que pareciam loucura: em determinada ocasião, passou mais de 24 horas parado ao relento, entregue a alguma complexa ponderação metafísica. Também afirmava ouvir uma voz misteriosa que lhe ditava regras de conduta – entre outras coisas, esse estranho anjo da guarda teria proibido Sócrates de se envolver em política (para o filósofo, nenhum homem justo pode enveredar por esse escuro pantanal da atividade humana sem perder a alma ou a vida).

Sócrates aprendeu a filosofar assistindo às preleções dos sofistas, mas logo acabou afastando-se dos antigos mestres. Com o tempo, o desgrenhado pensador compreendeu que o excesso de truques retóricos de seus concidadãos servia muitas vezes para ornamentar mentes vazias (qualquer semelhança com o universo académico de hoje não é mera coincidência). Cheia de intelectuais falastrões e de políticos oportunistas, Atenas havia se tornado uma cidade excessivamente satisfeita consigo mesma – e Sócrates decidiu que caberia a ele fustigar a soberba de seus contemporâneos. Mas, para abraçar plenamente sua vocação à insolência, ele precisou de um empurrãozinho divino.

Quando confrontados pelos aspectos mais obscuros ou espinhosos da existência, os antigos gregos costumavam consultar os deuses (naquela época, não havia psicanalistas). Para isso, existiam os oráculos – locais sagrados onde os seres imortais se manifestavam, devidamente encarnados em suas sacerdotisas. Certa vez, talvez por brincadeira, um ateniense perguntou ao conceituado oráculo de Delfos se haveria na Grécia alguém mais sábio que o esquisitão Sócrates. A resposta foi sumária: “Não”.

Saber e não saber – o inesperado elogio divino chegou aos ouvidos de Sócrates, causando-lhe uma profunda sensação de estranheza. Afinal de contas, ele jamais havia se considerado um grande sábio. Pelo contrário: considerava-se tão ignorante quanto o resto da humanidade. Após muito meditar sobre as palavras do oráculo, Sócrates chegou à conclusão de que mudaria sua vida (e a história do pensamento). Se ele era o homem mais sábio da Grécia, então o verdadeiro sábio é aquele que tem consciência da própria ignorância. Para colocar à prova sua descoberta, ele foi ter com um dos figurões intelectuais da época. Após algumas horas de conversa, percebeu que a autoproclamada sabedoria do sujeito era uma casca vazia. E concluiu: “Mais sábio que esse homem eu sou. É provável que nenhum de nós saiba nada de bom, mas ele supõe saber alguma coisa e não sabe, enquanto eu, se não sei, tampouco suponho saber. Parece que sou um tanto mais sábio que ele exatamente por não supor saber o que não sei”. A partir daí, Sócrates começou uma cruzada pessoal contra a falsa sabedoria humana – e não havia melhor palco para essa empreitada que a vaidosíssima Atenas. Em suas próprias palavras, ele se tornou um “vagabundo loquaz” – uma usina ambulante de insolência iluminadora, movida pelo célebre bordão que Sócrates legou à posteridade: “Só sei que nada sei”.

Para sua tarefa audaz, Sócrates empregou o método aprendido com os professores sofistas. Mas havia grandes diferenças entre a dialética de Sócrates e a de seus antigos mestres. Em primeiro lugar, Sócrates não cobrava dinheiro por suas “lições” – aceitava conversar com qualquer pessoa, desde escravos até políticos poderosos, sem ganhar um tostão. Além disso, os diálogos de Sócrates não serviam para defender essa ou aquela posição ideológica, mas para questionar a tudo e a todos sem distinção. Ele geralmente começava seus debates com perguntas diretas sobre temas elementares: “O que é o Amor?” “O que é a Virtude?” “O que é a Mentira?” Em seguida, destrinçava as respostas que lhe eram dadas, questionando o significado de cada palavra. E continuava fazendo perguntas em cima de perguntas, até levar os exaustos interlocutores a conclusões opostas às que haviam dado inicialmente – e tudo isso num tom perfeitamente amigável. Assim, o pensador demonstrava uma verdade que até hoje continua universal: na maior parte do tempo, a grande maioria das pessoas (especialmente as que se consideram mais sabichonas) não sabe do que está falando.

Para muitos ouvintes, o efeito do diálogo socrático era a catarse – uma experiência de purificação espiritual em que as portas do autoconhecimento se escancaram.
Deixando de lado a casca das ideias preconcebidas e os clichês, o discípulo estava pronto para a perigosa aventura de pensar por si mesmo. Às vezes, os argumentos desse conversador incansável eram tão azucrinantes que alguns ouvintes o atacavam no meio da rua, com chutes e pontapés. Perante tais indignidades, ele se limitava a responder com invulnerável ironia: “Não se costuma revidar contra os jumentos que nos escoiceiam”.

Tamanha independência de espírito pode ser algo bem arriscado – tanto na Antiguidade quanto hoje em dia. As patotas políticas não sabiam como lidar com aquele homem que questionava e irritava a todos com o mesmo sorriso de implacável gentileza, sem se deixar aliciar por ninguém. Em 399 a.C., seus desafetos conseguiram levá-lo a julgamento. O filósofo foi acusado de desrespeitar os deuses oficiais da cidade e de “corromper a juventude”: na prática, o que estava sob ataque era sua mania de fustigar a tudo e a todos sem pruridos. Ameaçado com a pena de morte, ele retrucou: “Ninguém sabe o que é a morte. Talvez seja, para o homem, o maior dos bens. Mas todos fogem dela como se fosse o maior dos males. Haverá ignorância maior do que essa – a de pensar saber-se o que não se sabe?” Com sua recusa a retratar-se perante a assembleia, o filósofo foi condenado a morrer por envenenamento. No dia de sua execução, reuniu- se com os amigos, trocou pilhérias e, naturalmente, entregou-se a discussões filosóficas. O carcereiro, ao lhe trazer a taça com cicuta, estava chorando. Mas Sócrates tinha os olhos secos. Bebeu o veneno como quem toma um remédio, despediu-se dos amigos com cavalheiresca tranquilidade e deitou-se na cama, como se fosse dormir. E só então seu génio insolente se calou.

O “vagabundo loquaz” de Atenas foi a primeira figura célebre na história do pensamento a morrer por suas ideias – e sua execução é um dos mitos fundadores da filosofia ocidental. A relevância de Sócrates, contudo, transcende o universo dos filósofos especializados ele se tornou, em grande medida, um modelo de conduta humana. Sua modéstia, numa época de vaidade intelectual, é um aviso aos navegantes de todos os séculos: por mais poder e desenvolvimento que uma civilização tenha atingido, o fato é que, no fundo, continuamos todos humanamente estúpidos. E a negação de nossa própria estupidez pode transformar-nos em monstros. Escapar à ignorância congénita da espécie é possível, sim – mas essa é uma tarefa que não se realiza sozinho. A verdade (se é que ela existe) só pode surgir pelo confronto direto e implacável (mas sempre amigável) entre duas ou mais criaturas racionais. Pensar por si mesmo e a si mesmo, olhando no espelho do outro: eis a lição aparentemente simples, mas hoje tão esquecida, legada por uma das figuras mais intrigantes na história da humanidade.

José Francisco Botelho
Sócrates
Um dos fundadores da filosofia ocidental, o pensador morreu em 399 a.C. Como Buda e Cristo, que não deixaram escritos, Sócrates é conhecido hoje pelos textos de seus discípulos. A trajetória de Sócrates é uma cruzada contra a falsa sabedoria. Sempre amigável, o filósofo demonstrava o quanto ainda sabemos tão pouco dos mistérios da vida.

PARA SABER MAIS
O Julgamento de Sócrates, I.F. Stone, Companhia de Bolso Apologia de Sócrates, Platão, L&PM Pocket
Fonte: Revista Vida Simples




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quarta-feira, 28 de abril de 2010

Europa em transição

European Union Parliament, StrasbourgImage by BlatantNews.com via Flickr


António Campos

Ao contrário do que acontece na América Latina, onde a crise tem levado à coordenação e à integração dos governos dos principais países da região (como tem demonstrado em vários momentos no Mercosul, Unasul, Alba, o Urupabol, a recente conferência de Cancun), a mesma crise na Europa está contribuindo para a sua desintegração. Na verdade, os mais países fortes (Alemanha, França), estão descarregando sobre os outros o peso da crise para tentar manter a estabilidade política e social que estão comprometidos de qualquer maneira. Em contraste, os países médios como a Espanha ou Itália, sofrem com a crise pois é o acumular dos problemas não resolvidos em anos anteriores. E os pequenos países, como a Grécia ou Portugal, ou outros mais distantes (Letónia, Lituânia, Estónia, Islândia, por exemplo) estão-se afundando sob o peso do desemprego, o crescimento da emigração, as dívidas impagáveis (mas brutalmente reivindicados pelo financeiros alemães e holandeses, os ingleses são os principais beneficiários das datas de empréstimos a governos e indivíduos).

A base do problema é que a união da União Europeia começou por ser uma capital europeia e de Governo e de uma moeda imposta, e é uma federação democrática de nações. O mesmo problema foi agravado quando o capital financeiro imposto sobre os recém-chegados à União Europeia ou países candidatos à adesão absurda e brutal das políticas neo-liberais que tinham que aplicar uma força, mesmo à custa de tornear os números e empurrar o resultado para frente, como fez o grego, usurários de direito do banco Goldman Sachs. E formou um núcleo duro da União Europeia (Franco) e do grupo de Inglês chamado depreciativamente de suínos (pige)(porcos, pois as iniciais de Portugal, Itália, Grécia e Espanha), que acrescenta a multidão de candidatos que serão expulsos da UE (como proposto pelo primeiro-ministro alemão, Angela Merkel), por não serem capazes de reduzir a sua dívida pública, inferior a três por cento ou incapazes de pagar suas dívidas.

Além disso, muitos países, incluindo Espanha, Bélgica, Ucrânia, Países Bálticos e Itália, têm grandes minorias nacionais e são, na realidade multilingues e estados multinacionais. A crise nas articulações põe em causa a estrutura nacional do Estado, que normalmente é centralizada, enquanto o capital financeiro e, politicamente, as instituições da UE, em Bruxelas, exercem um forte poder de atracção para as nações mais ricas, sobre as capitais do Estado-nação em crise. Assim, a crise económica e social que coloca os trabalhadores contra o capital, adiciona uma crise nacional onde há ainda espaço para o racismo e a xenofobia. Isso constata-se entre valões e flamengos na Bélgica, o norte da Itália é racista e anti-centralista virada a sul, a maioria dos italianos e os espanhóis estão a cair nas garras do ódio aos estrangeiros e imigrantes, Le Pen em França, as forças de reconquista, com base em racismo e localismo, parte dos ucranianos (do Ocidente) é contra a outra vai (a Russified oriental) no mesmo sentido nos países bálticos.

A questão das nacionalidades deformadas distorce a luta social e dá uma base muito perigosa para movimentos de massa reaccionários e fascistas.Felizmente, até agora, são por sua própria natureza, relutantes em se apresentar como a grandeza do objectivo lendário de uma nação unida sob o ataque da plutocracia internacional como o fizeram na década de 30, o Mikado, o fascismo e o nazismo, mas são um factor poderoso, contra a unidade das vítimas do sistema e na busca de uma solução anticapitalista. As soluções europeias propostas e até os sindicatos e a social-democracia são a aceitação por parte da esquerda tradicional dos critérios de Maastricht impostas pelas grandes empresas e a falta de forças socialistas anti-capitalistas com uma envergadura que permite a disputa da hegemonia cultural política e do capitalismo, também estão actuando na mesma direcção.
A Europa está como um pântano, o que é uma zona de transição entre o continente da dominação total do passado e do actual capital financeiro do outro lado, cuja forma e proximidade não sequer são vislumbradas.

Há bases para o protesto popular crescer e superar o desespero, a desmoralização e a apatia que actualmente caracterizam a situação na maioria das regiões da Europa, onde ninguém quer ou pode manter sua vida anterior, mas ninguém vê como superar a crise . Na Islândia, formando assembleias e comités populares e impondo um referendo popular, o povo decidiu não pagar as dívidas dos bancos suportados pelos ricos e os especuladores, mas que os leva a ser excluídos da UE. Na Grécia, as manifestações e greves ocorrem gritando para não pagar a plutocracia. Ou seja, há potencial para a massa de auto-organização e à execução de uma alternativa política ao capitalismo. É possível confrontar as partes, as instituições, a repressão do estado, começar a organizar uma frente unida de oposição às exigências do capital financeiro, uma força democrática. Mas é também a possibilidade de uma revolução conservadora, racista, fascista. As eleições francesas mostram que os eleitores da direita clássica ou vão para a extrema-direita, ou abster-se, mas também onde o novo partido ao lado do anti-capitalista Frente de Esquerda, ambos foram reforçados enquanto isolamento sectário que enfraquece toda a esquerda da social-democracia para que esta possa ser a espinha dorsal da oposição.

Guillermo Almeyra
http://www.rebelion.org/noticia.php?id=102710
Traduzido e adptado do espanhol


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segunda-feira, 26 de abril de 2010

O 25 de Abril 36 anos depois

Portuguese Government poster from the mid-70s ...Image via Wikipedia


António Campos

Euforicamente desde o início, por parte da classe política coadjuvada pelos meios de comunicação social de dimensão nacional à evocação, sublime, por parte de quem materialmente lucrou com a Revolução, os trinta e seis anos do 25 de abril, trouxeram aspectos positivos mas também negativos. Façamos nós, também, um balanço daquilo que foi, paradoxalmente falando, a revolução feita com cravos.

O golpe militar de à trinta e seis anos, porque foi disso que se tratou, foi desejado por diferentes sectores políticos e pela burguesia ansiosa pela integração do país no capitalismo ocidental. Apesar de tudo o que se seguiu, o golpe teve origem no descontentamento dos capitães do exército por razões de salários, de promoções e pela situação já insustentável da greve colonial.

Na manhã do 25 de Abril, os militares avisaram a população para ficar em casa a aguardar os acontecimentos. Porém a população, sai espontaneamente para a rua e manifesta-se contra o regime derrubado. A Pide foi desmantelada, os seus elementos presos e foram soltos os presos políticos. Estes foram, sem dúvida, os momentos mais importantes em termos efectivos de mudança social, juntamente com a ocupação de terras e de fábricas, uma parte delas abandonadas pelos capitalistas que entretanto tinham fugido do país financeiramente acompanhados. Estas mudanças foram curtas no tempo tendo em conta que os responsáveis políticos juntamente com os pides nunca foram julgados e foram libertos pouco tempo depois, do mesmo modo que o movimento espontâneo nas fábricas e no mundo rural foi de curta duração, a partir do momento em que foi enquadrado pelo Partido Comunista. Posteriormente os capitalistas voltaram, recuperaram as terras e as fábricas e a sua vingança faz-se ainda hoje sentir...

Trinta e seis anos volvidos e tentando ser sociológica e históricamente objectivos, o que é que cada um e todos nós - estamos a falar do cidadão comum - ganhamos, em todos os sentidos da palavra, com a queda do "ancien régime"? Em todas as respostas possíveis a palavra liberdade, duma ou doutra maneira, estará presente. Mas dizer só isto é confundir toda a realidade social, pois esta liberdade é unicamente no plano político. Social e economicamente continuamos tão dependentes como antes...Relembramos a este propósito um texto de Proudhon: "Sob o ponto de vista bárbaro, liberdade é sinónimo de isolamento; é-se tanto mais livre quanto menos a acção for limitada pela acção dos outros... Sob o ponto de vista social, liberdade e solidariedade são termos idênticos: encontrando a liberdade de cada um na liberdade de outrém, não um limite... mas um auxiliar, o homem mais livre é aquele que tiver mais relações com os seus semelhantes."

Se fizermos um apanhado dos grandes problemas actuais da sociedade portuguesa, vemos bem como fede, como tresanda a pus, derivado do cancro social que é o capitalismo selvagem, grande vencedor do 25 de Abril: desemprego, inflacção, concorrência desenfreada, sistema de saúde nas lonas, previdência social a dar o berro, corrupção política e económica, miragem europeia, proliferação de igrejas e profetas, falência da agricultura, a coesão social que conduz ao aumento da taxa de suicídio, crimes, delinquência juvenil e ao maior número de desamparados e pedintes.

Escusado será continuar nesta enumeração. Daí que tenhamos de concluir que as iniciativas de "solidariedade social" que por aí abundam, por bem intencionadas que uma pequena parte delas seja, não pode deixar de revoltar as nossas consciências, mesmo que não nos consideremos como tal. "Só serei verdadeiramente livre - já dizia Bakunine - quando todos os seres humanos que me cercam, homens e mulheres, forem igualmente livres... de modo que quanto mais numerosos forem os homens livres que me rodeiam e quanto mais profunda e maior for a sua liberdade, mais profunda e maior será a minha liberdade... eu só posso considerar-me completamente livre quando a minha liberdade ou, o que é a mesma coisa quando a minha dignidade de homem, o meu direito humano... reflectidos pela consciência igualmente livre de todos, me forem confirmados pelo assentimento de toda a gente. A minha liberdade pessoal, assim confirmada pela liberdade de todos, estende-se até ao infinito."


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