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sábado, 23 de abril de 2011

A estagnação pode perdurar décadas sob o regime do capital monopolista financeiro

Image representing New York Times as depicted ...Image via CrunchBase

António Campos



Embora a Grande Recessão tenha oficialmente terminado há mais de um ano (Junho de 2009) na economia dos EUA, para a maior parte do povo – especialmente os desempregados a longo prazo, minorias e juventude – os efeitos estão longe de ultrapassados. Na verdade, é uma medida do mal-estar económico nos quais os países industrializados permanecem atolados que o espectro da estagflação esteja outra vez a assombrar o discurso dominante. Como observou recentemente Paul Krugman, a economia dos EUA está a experimentar "o que parece cada vez mais como um estado permanente de estagnação e alto desemprego" afim à década de 1930 (" This is Not a Recovery ", New York Times, August 26, 2010).

Krugman não está sozinho ao destacar a estagnação económica a longo prazo. Barry Boswort, economista da Brookings Institution que actuou nas administrações Johnson e Carter, em Setembro respondeu a uma pergunta sobre o estado da economia na Bloomberg Television dizendo: "Penso que estamos a entrar num período de uma espécie de estagnação" semelhante àquele do Japão a partir da década de 1990 ("Brookings' Bosworth Interview on U.S.Economy,"Bloomberg.com, September 9, 2010). James Bullard, presidente do Federal Reserve Bank of St. Louis, emitiu um relatório ("Seven Faces of 'The Peril,'" Federal Reserve Bank of St. Louis Review, September-October 2010) indicando que há um perigo de que "os EUA e a Europa" estarão "juntos ao Japão no pântano [da estagnação]". David Wyss, economista chefe da Standard & Poor's, declarou: "Penso que há uma possibilidade realista de que os EUA estejam a deslizar para este padrão tal como o Japão o fez — 10, 20 anos de estagnação" ("U.S. Has 'Realistic Possibility' of Stagnation", Bloomberg.com, August 24, 2010). Analistas económicos estão agora a discutir abertamente a probabilidade de que todo o mundo industrializado possa ser ameaçado por uma "década perdida" ou duas. ("Industrialised World's 'Lost Decade' Risk," AFP, September 1, 2010).

Todas as indicações são no sentido de que o sofrimento da estagnação será muito pior nos Estados Unidos do que no Japão – onde, como argumenta Krugman, ela foi administrada de modo a minimizar os efeitos sobre a população (" Things Could Be Worse ," New York Times, September 9, 2010). As medidas de gasto deficitário keynesiano tomadas pela classe dirigente japonesa em reposta à crise financeira do princípio dos anos 90 foram, num certo grau, bem sucedidas. O enorme peso de dívidas incobráveis possuídas pelos bancos foi gradualmente reduzido ao longo do tempo. O que nos Estados Unidos ou na União Europeia seria encarado como "pleno emprego" foi mantido (embora reflectindo parcialmente a baixa taxa de participação no trabalho das mulheres japonesas). A infraestrutura foi renovada em todas as áreas. Portanto, juntar-se ao "pântano" japonês seria preferível sob muitos aspectos aos avanços da classe dominante sobre os gastos sociais, agora a serem pressionados na União Europeia e nos Estados Unidos, os quais poderiam fazer "o Japão parecer-se", nas palavras de Krugman", "como a terra prometida". Assim, as referências ao "pântano" japonês deveriam ser tomadas com um grão de sal. Contudo, em duas décadas o Japão foi incapaz de encontrar os meios para levantar-se da estagnação que começou com o crash financeiro-imobiliário do princípio dos anos 1990. O Japão também, deveria observar-se, está agora sujeito a uma ampliação da divisão de classe (" Luxury Gap: How Japan Turned Into a Nation of the Haves and Have-Nots ," Independent [UK], February 6, 2008).

Os leitores da MR estão conscientes que desde há muito temos destacado a estagnação como uma tendência permanente nas economias capitalistas avançadas, enraizada no aumento da desigualdade do rendimento e da riqueza, monopolização crescente e maturidade industrial. Esta tendência de estagnação com raízes profundas foi parcialmente contrabalançada no passado pelos gastos militares, défices governamentais e, no último quarto de século, por uma mudança estrutural da produção para a finança (caracterizada pelo crescimento explosivo de dívida pública e privada). Tais estimulantes artificiais potenciam o crescimento económico no curto prazo, mas são incapazes de ultrapassar o problema estrutural a longo prazo. O resultado é que a estagnação reafirma-se como uma força de gravidade, como foi mostrado pelos recentes crashes financeiros em 2000 e 2007-09. Apesar das expansões tardias das décadas de 1980 e 1990, a taxa de crescimento económico real dos Estados Unidos (e aquelas das maior parte dos outros países industrializados ricos) tem estado a afundar década após década desde os anos 1970.

Haverá uma alternativa à actual armadilha da estagnação-financiarização? Em abstracto, a resposta é sim, mas efectuar as mudanças necessárias exige acções radicais e aí é que são elas. As mais prementes necessidades materiais nos Estados Unidos (e em todos os outros países afectados, incluindo o Japão) são por melhores condições de saúde, educação, habitação, transporte público, distribuição alimentar equitativa e protecção do ambiente. O pleno emprego poderia ser promovido através do atendimento destas necessidades urgentes. Os gastos deficitários do governo não seriam um problema sob as actuais condições de alto desemprego e capacidade produtiva subutilizada. Na Segunda Guerra Mundial, novas tomadas de empréstimo pelo governo dos EUA foram muito além dos níveis de hoje em relação ao PIB. Na medida em que o novo gasto serviu para colocar pessoas de volta no trabalho, toda a sociedade (com excepção dos ricos) acabaria numa situação melhor. Nem seria um problema financeiro tal programa em parte considerável pela comutação do fardo fiscal total em direcção aos ricos, cuja fatia relativa do rendimento e da riqueza tem estado a privar o resto de nós. Novos recursos podiam ser ganhos através do redireccionamento das despesas do governo par longe de gastos militares/imperiais e rumo a áreas que proporcionassem benefícios reais para a sociedade. Em suma, um novo New Deal radical para século XXI podia – ou assim se pode argumentar – ser executado.

Mas para cumprir isto politicamente através de iniciativas no topo, digamos que pelo governo federal sob liderança esclarecida, significaria mobilizar a massa da população na reconstrução radical da sociedade estado-unidense. Isto geraria um conflito claro com a classe dominante, a qual nenhum dos principais políticos de hoje, certamente não o presidente Obama e a sua clique de amigos corporativos, estão desejosos de considerar por enquanto. Nada que remotamente se parecesse a um novo New Deal seria apoiado pela elite do poder tanto nos Estados Unidos como na União Europeia sob o regime actual do capital monopolista-financeiro. Esta porta está fechada.

STATUS QUO CADA VEZ MAIS BÁRBARO 

Nossa conclusão: a esperança real repousa na massa da população, tanto à escala nacional como global, tomar directamente a história nas suas próprias mãos, a fim de criar um novo sistema para além do capitalismo que genuinamente sirva necessidades humanas. O que é preciso é uma maciça revolta de classe/social dos de baixo, verificando-se ao longo de meses, anos e mesmo décadas e não parando à beira da transformação social real. Será que isto acontecerá? E se acontecer, terá êxito? Ninguém sabe. Mas na ausência de certezas, não seria melhor trabalhar rumo a este objectivo ao invés de nos resignarmos ao status quo cada vez mais bárbaro?

O capitalismo é um sistema mundial imperialista. Os priores sofrimentos invariavelmente caem sobre os países da periferia, dos quais a liderança na luta contra este sistema tem-se originado durante pelo menos um século. Uma organização vital neste conflito mundial é o World Forum for Alternatives (WFA), uma rede internacional de centros de investigação e militantes intelectuais do Sul e do Norte. Criado em 1997, com Samir Amin, colaborador da MR, como seu presidente, o WFA organizou um certo número de actividades/eventos internacionais e em 2006 apresentou o famoso Apelo de Bamako (reimpresso em Samir Amin, The World We Wish to See [Monthly Review Press, 2008]). O corpo executivo da WFA consiste de, alem de Amin, do seu secretário-executivo Rémy Herrera (França) e vice-presidentes da América Latina, Ásia, África, mundo árabe, Europa e agora América do Norte. Satisfaz-nos anunciar que em Setembro o editor da MR, John Bellamy Foster, concordou em servir como o vice-presidente da WFA dos Estados Unidos. Aqueles que quiserem mais informação, visitem o sítio web do World Forum for Alternatives . 


Monthly Review

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 Nov.2010

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sexta-feira, 8 de abril de 2011

A grande ofensiva do capitalismo financeiro global 3

LONDON, ENGLAND - JANUARY 21:  A protester wea...Image by Getty Images via @daylife



António Campos


Na esfera política, assiste-se à emergência progressiva de elementos neoliberais nos partidos socialistas europeus, sustentados nas teorias de Giddens (o ideólogo da “terceira via”), dos quais Tony Blair será o mais marcante. Entre a fidelidade aos princípios e o acesso fácil ao poder escolhem o segundo. A partir daí, deixa de haver diferenças significativas entre estes e os partidos de centro-direita em questões económicas, pelo que, nas eleições, já não se jogam alternativas, sobrando a alternância. Por sua vez, o poder político (tanto a nível nacional como europeu) é “canibalizado” pelo poder económico e financeiro. A promiscuidade entre ambos é cada vez mais frequente: começa a não espantar a facilidade como ex-governantes acabam em gestores de grandes empresas e vice-versa. Consequentemente, a corrupção alastra.

A democracia vai sendo, progressivamente, esvaziada de conteúdo e os políticos do “centrão”, reféns do capital, não têm resposta para os problemas das populações e vão caindo no descrédito. É um terreno fértil para a demagogia populista, que atiça os piores sentimentos dos desfavorecidos contra os diferentes (como outras etnias e/ou religiões, os homossexuais) ou os ainda mais desfavorecidos (imigrantes e ciganos, por exemplo). A exploração dos medos (em especial, a sobrevalorização das ameaças terroristas) é outra forma de aceitar a supressão de direitos em nome de uma suposta segurança.

Face à gravidade da situação, é urgente darmos uma resposta a esta ofensiva. Porém, como estamos em presença de uma realidade nova, as respostas clássicas não servem. Temos de inventar novas formas de luta. Como princípio, destaco dois aspectos que me parecem fundamentais: a transnacionalização do combate e a saída para fora da classe docente. Um novo movimento cívico, capaz de incluir pessoas nas situações mais diversas (incluindo trabalhadores precários e desempregados), pode ser o início de um novo caminho, embora saibamos que não será fácil de trilhar.

 Entretanto, aproveito para lançar uma ideia: o capital procura aproveitar as contradições no seio dos trabalhadores para criar divisões (por ex., entre trabalhadores do sector público e do sector privado). Não seria de utilizarmos as contradições no seio do capital (por ex., entre capital produtivo e capital financeiro) para o mesmo fim?

Final desta série.

Jorge Martins
Nov.2010

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sexta-feira, 1 de abril de 2011

A grande ofensiva do capitalismo financeiro global 2

DSC01971Image via Wikipedia



António Campos


Entretanto, tudo isto é acompanhado de uma forte doutrinação ideológica: procura mostrar a globalização económica e financeira como uma inevitabilidade decorrente da globalização tecnológica; equipara as economias nacionais às domésticas, alertando contra os défices orçamentais (que seriam resultado dos elevados custos dos benefícios sociais); procura desacreditar os serviços públicos e a função pública (descrita como parasitária e privilegiada), ao mesmo tempo que exalta a gestão empresarial privada. Por seu turno, na esfera dos valores, glorifica o individualismo e, pior que tudo, desacredita o idealismo, promovendo o pragmatismo sem princípios, o oportunismo sem escrúpulos e o mais despudorado cinismo. Também aqui a inevitabilidade surge como “pedra de toque”, expressa na recuperação da ideia de que existe uma “natureza humana” imutável e perversa. No fundo, o que é importante é ser bem sucedido, seja lá como for. Ao mesmo tempo, o espaço público vai sendo ocupado por economistas da escola neoliberal, que são apresentados como técnicos de uma ciência positiva. Querem criar a ideia da economia como uma ciência exacta, independente das ideologias e escolhas políticas, e dos economistas como simples tecnocratas, que se limitam a interpretar os dados económicos e a fazer previsões a partir daí. Entretanto, ao nível da gestão, a eficiência e a eficácia são apresentadas como valores absolutos em detrimento da democracia e da participação dos trabalhadores e das suas organizações, vistas como inimigas das primeiras.

Por outro lado, para conter o descontentamento dos trabalhadores pela contenção salarial e pela perda de regalias, promove-se o consumismo desenfreado (com recurso a crédito barato).

Simultaneamente, globaliza-se o “circo”, cobrindo exaustivamente grandes acontecimentos globais (sejam Jogos Olímpicos, Mundiais de futebol, concertos de música “pop”) ou, mesmo, explorando globalmente tragédias (como o funeral da princesa Diana ou a saga dos mineiros chilenos). Generalizam-se as telenovelas “de cordel”, pululam as revistas de mexericos e, com elas, as “celebridades” da treta, numa espécie de “star sistem” rasca. Surgem programas de entretenimento que estimulam o “voyeurismo” e promovem a estupidificação das massas. A juventude é particularmente visada: não é por acaso que se incentivam as praxes, as “queimas da fitas”, os festivais de música ou os jogos de vídeo.

Jorge Martins
Nov.2010

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sexta-feira, 25 de março de 2011

A grande ofensiva do capitalismo financeiro global (1)

Ronald Reagan and Nancy Reagan greet Prime Min...Image via Wikipedia



António Campos


Desde o início dos anos 80 que se assiste a um fortíssimo ataque do grande capital financeiro contra o trabalho. Nos últimos 20 anos, a expansão do crédito conseguiu disfarçar os seus efeitos, mas originou diversas “bolhas”, cujo rebentamento está no cerne da actual crise. Como nem tudo é mau, esta teve, pelo menos, o condão de colocar a nu essa ofensiva, cujos efeitos começamos a sentir na pele. Como chegámos até aqui?

A ruptura do consenso keynesiano do pós-guerra e a sua substituição pelo consenso de Washington, pedra angular da globalização neoliberal, marca esse ataque do capital contra o trabalho a partir da década de 80. Os choques petrolíferos da década anterior deixaram de permitir que o grande capital ocidental mantivesse as margens de lucro que conseguia obter até então e que lhe permitiam a “magnanimidade” de aceitar a redistribuição de alguma riqueza pelo trabalho, com a vantagem de contribuir, igualmente, para a manutenção da paz social e retirar base de apoio aos partidos comunistas e a outros grupos de esquerda. Ao mesmo tempo, a incapacidade de responder aos anseios de liberdade dos seus povos e à mudança do paradigma tecnológico prenunciava a queda do bloco “comunista”. A democracia política e as liberdades cívicas (por oposição ao totalitarismo do “outro lado”) e o Estado-providência (que possibilitou uma vida digna à esmagadora maioria da população) foram, em minha opinião, os grandes responsáveis pelo triunfo do bloco capitalista na “guerra fria”.

Porém, com o sistema alternativo derrubado e desacreditado, aqueles passam a ser vistos como empecilhos pelo capital internacional, que acelera o seu plano de recuperar as margens de lucro anteriores, através da contenção salarial e da retirada de direitos aos trabalhadores. A ideia é generalizar os modelos que Reagan e Thatcher aplicaram nos seus países no início dos anos 80. Para tornar possível esse objectivo, convence os governos a assinar os acordos do GATT/OMC, que liberalizam não apenas grande parte do comércio mundial mas também os movimentos de capitais. Isso representou um golpe terrível no poder dos Estados nacionais (e mesmo de organizações regionais como a UE), pois, enquanto a sua soberania se restringe aos seus territórios, o grande capital (em especial, o financeiro) passou a poder movimentar-se livremente por todo o mundo, ou seja, desterritorializou-se e tornou-se global. Consequentemente, operou-se uma financeirização da economia mundial, com vastos movimentos de capitais de carácter especulativo sem tradução na economia real. Ao mesmo tempo, verificam-se as megafusões de empresas e participações cruzadas entre estas, igualmente com forte presença do sector financeiro. Esta transnacionalização do capital vai minar um dos fundamentos do Estado-providência europeu: a redistribuição por via fiscal, grande fonte do seu financiamento. Por sua vez, vai facilitar a deslocalização de empresas para países com custos salariais, fiscais e ambientais mais baixos.

A adesão da China à OMC constitui a “cereja no bolo”. Detendo um quinto da Humanidade e dirigida com “mão-de-ferro” pelo partido comunista, mas desejosa de se integrar na economia mundial, não só representa um dos mercados com maior margem de progressão mas também dispõe de uma mão-de-obra abundante, barata e sem quaisquer direitos políticos e/ou laborais. Além disso, possui uma legislação ambiental e de segurança extremamente permissiva. Ironicamente, a China “comunista” torna-se o paraíso, não dos trabalhadores, mas do capital. A maioria das grandes empresas deslocaliza para lá as fases menos nobres da produção, acelerando o desemprego no mundo desenvolvido. Estão, assim, criadas as condições para a ruptura do contrato social do pós-guerra: no ocidente, os trabalhadores, ou aceitam reduzir salários e perder regalias, ou vão para o desemprego.

Jorge Martins
Nov.2010

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