sexta-feira, 5 de março de 2010

Alteração das pensões e a desigualdade perante a morte

A Study of Death..Image by Compound Eye - In Business First Magazine via Flickr


António Campos

Será só em Espanha?

Quosque tandem abutere,
Catilina, patientia nostra? [1]

A deliberação do passado Conselho de Ministros de Espanha de propor a elevação da idade de reforma de 65 para 67 anos, a ampliação do período de tempo para o cálculo das pensões – com o objectivo evidente de reduzir a sua quantia – e o anúncio para o próximo dia 5 de Fevereiro dos conteúdos de uma nova reforma laboral – que indubitavelmente implicará novos cortes nos direitos laborais –, são as gotas que devem encher o copo da paciência dos trabalhadores e trabalhadoras.

Com cinco milhões de desempregados, 1.200.000 famílias com todos os seus membros desempregados, ao mesmo tempo que se volatiliza o emprego precário criado no tempo de fabulosos lucros empresariais, quando reforma após reforma se agravam os requisitos para aceder ao subsídio de desemprego ou de jubilação; agora que se transferiram centenas de milhares de milhões de euros para a banca e a indústria automobilística, que se reduzem sem parar os impostos às grandes fortunas e aos lucros empresariais, as cotizações do patronato para a segurança social; agora que se mantém a fraude fiscal ( do capital, claro) calculada em, pelo menos 130.000 milhões de euros, precisamente agora, aproveitando a paralisia catatónica que momentaneamente é a expressão generalizada do pânico da classe operária, o Governo do PSOE pretende descarregar sobre ela a totalidade do custo da crise.

Mas o mais grave não são os recursos que nos arrancam, precisamente na última etapa da nossa vida, quando o nosso corpo e a nossa mente envelheceram e se desgastaram produzindo a riqueza que nos foram expropriando e que engrossa os seus ofensivos lucros.

O cúmulo da alienação e da manipulação expressa-se quando o Governo e os seus «peritos»fazem o diagnóstico, e a partir dele o seu tratamento, no aumento da esperança de vida e, dizem eles, o correspondente aumento do tempo que medeia entre a reforma e a morte do trabalhador. O que deveria constituir, se fosse assim, um indiscutível avanço do desenvolvimento humano é um obstáculo a besta do capital continue a engordar, isto é para que funcione a prioridade absoluta que rege a sociedade e à qual se sujeita qualquer consideração que afecte as pessoas que a integram.

Mesmo que não houvesse milhares de outros exemplos, só este bastaria para definir o modelo social capitalista do século XXI como o predador mais feroz de seres humanos, precisamente quando o desenvolvimento científico e tecnológico permitiriam satisfazer as necessidades básicas de toda a humanidade.

A primeira consideração que há que fazer é que estão a manipular os dados como objectivo de confundir. A esperança de vida, como sabe qualquer aluno do primeiro ano de um curso de estatística, não mede a idade média da morte, como parece indicar o seu nome. A esperança de vida é um indicador complexo elaborado a partir de taxas de mortalidade em cada idade e que é decisivamente influenciado pela mortalidade infantil (primeiro ano de vida) e, ainda mais, pela perinatal (primeira semana de vida); isto é, o aumento da esperança de vida reflecte fundamentalmente diminuições nas taxas de mortalidade nas primeiras etapas da vida e não que se viva muito mais tempo. Utilizar este argumento é um truque indecente.

A segunda ideia essencial é ainda mais cruel, e por isso mais zelosamente escondida: as enormes e crescentes desigualdades sociais perante a morte.

Apesar dos poucos estudos não serem recentes – não é por acaso –, desde que existem estatísticas que comparam a mortalidade por classes sociais os dados reflectem o mesmo em todos os países capitalistas: as desigualdades reflectem-se directamente em diferenças de mortalidade que além do mais se expressam de forma gradual (o decréscimo em cada nível da escala social reflecte-se no correspondente aumento da mortalidade), que estão há décadas a aumentar e que exacerbam nos períodos de crise económica.

O relatório SESPAS 2000 [2] conclui rotundamente: «A mortalidade é superior entre os trabalhadores manuais em comparação com os restantes profissionais e quadros dirigentes. (…) A Razão da Mortalidade Estandardizada entre ambas as classes sociais [indicador que permite compará-las] aumentou de 1,27 em 1980-82 para 1,72 em 1988-90 e em quase todas as doenças as desigualdades se incrementaram. (…) Por outro lado, regista-se uma associação em forma de gradiente entre a privação material (desemprego, analfabetismo, classe social e condições de habitabilidade) e a mortalidade». [3]

Outro relatório elaborado sobre a mortalidade na cidade de Sevilha [4], comparando bairros diferentes (Zonas Básicas de Saúde), apesar de ser um estudo indirecto (por os territórios comparados não serem homogéneos), danos dados como estes: a mortalidade prematura multiplica-se por quatro nos homens nas zonas mais desfavorecidas, comparando-as com as zonas mais favorecidas; nas mulheres, multiplica-se por 2,6.

Isto é, a classe operária não é só a que produz a totalidade da riqueza que é usurpada por alguns, não vê apenas reduzir a capacidade aquisitiva do seu salário e deteriorarem-se as condições de vida em função da mais-valia expropriada, não só é expulsa para o desemprego como um traste imprestável quando o patronato calcula que os lucros não são suficientes. Além disso, os trabalhadores e trabalhadoras – com o seu corpo e a sua mente convertidos em autênticos campos de batalha da luta de classes – ainda pagam com a doença, e sobretudo, com a morte prematura, o seu dramático tributo ao desenvolvimento do capitalismo.

Mas tudo tem um limite e a impostura deste Governo e a de todos os que o precederam também o terá. A verdade nua e crua é que eles não são capazes de esgrimir um só argumento credível, nem sequer para os mais ingénuos, de que estas novas machadadas nos direitos laborais e sociais podem conseguir criar emprego, a começar pela insensata decisão de aumentar a idade da reforma.

O que é evidente é que depois de três décadas de genuflexões sindicais e de um baixar a cabeça «a ver se não me toca a mim», o que conseguimos foi retroceder até à lei da selva no que respeita a direitos, enquanto o capital enche os bolsos como nunca. Agora, perante uma crise descomunal, o que está claro é que, nem o Governo nem a restante classe política nem os capitalistas a quem eles representam têm qualquer alternativa que não seja o apertar da tarracha para reduzir os custos laborais, e que preferem que a locomotiva capitalista descarrile, em vez de mudar de via e de condutor.

Um novo sindicalismo deve surgir e é preciso recorrer o mais urgente possível ao encontro entre as organizações e as pessoas que fazem a democracia operária, a dignidade e a luta da sua razão de existir, para canalizar a luta operária e popular. Está na hora de decidir, e o suicídio, que aumenta dramaticamente entre os que individualmente não vêem outra saída para desespero do desemprego e da angústia, não é alternativa.

Ángeles Maestro

Notas:
[1] «Até quando Catalina abusarás da nossa paciência?» Imprecação lançada por Marco Tulio Cicero contra Catilina numa reunião do Senado romano, perante as continuas conspirações deste contra a República.
[2] Sociedade Espanhola de Saúde Pública e Administração Sanitária (SESPAS)
http://www.sespas.es/informe2000/d1_01.pdf
[3] Ibid.
[4] http://scielo.isciii.es/scielo.php?pid=S0213-91112004000100004&script=sci_arttext

http://odiario.info/articulo.php?p=1476&more=1&c=1

Inclusão original (d1_01.pdf)



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quarta-feira, 3 de março de 2010

Crise económica - aproxima-se a hora da verdade

MN: Economic Crisis on Nicollet Mall - Engagin...Image by aflcio2008 via Flickr


António Campos

O colapso populacional de 4 e 5 de Fevereiro deste ano mostrou que a crise estava a entrar numa nova fase. O Outono de 2008 tinha visto a agonia de uma crise financeira e de progresso, a sua transmissão para a economia "real". No entanto, após uma queda fenomenal em 2009 U. S. PIB de -2,4% (sem precedente real da crise do "grande"), tinha pensado que pudesse apontar para uma recuperação, rapidamente apelidado de "sair da crise".

Ilusão: a economia mundial estava em um estado de levitação, mal tocando o chão, carregado nos braços de apoio público de uma forma extraordinária. Avançando em grandes disparidades, vem em auxílio dos bancos, execução de planos de suporte, os défices públicos atingiram níveis incríveis: 10% do PIB nos Estados Unidos, 8% na França, mais de 12% no Brasil Unido. A dívida pública passou por todos os países, atingindo 85% do PIB nos Estados Unidos, ou 76% em França.

Como um jogo de rugby em que a bola é passada a queimar as mãos, tornou-se o endividamento das famílias americanas, o endividamento dos Estados. Quando um devedor não consegue cumprir os prazos, só existem duas maneiras de lidar com a dívida em suspenso - transferir ou cancelar. Cancelar as dívidas significaria entrar em uma crise financeira e económica do curso de extensão enorme, é preferível, uma vez mais, a frente de voo e a dívida privada foi convertida em dívida pública. Assim, o problema foi superado, mas apenas disfarçado e deslocado. O excesso de dívida pública é universal, mas sempre há elos fracos.

Estes são chamados de Grécia, Espanha, Portugal e Irlanda. Grécia (cuja dívida pública deve chegar a 125% do PIB em 2010) foi colocado sob tutela da Comissão Europeia. Mas outros países não são deixados para trás e as taxas correspondentes para 2010 ascendeu a 85% para Portugal, 83% para a Irlanda (44% em 2008), 66% para a Espanha (40% em 2008). Estava claro desde o início que esta situação não podia durar. O consumo privado doméstico (o investimento empresarial) deve assumir a partir do público, que lhe permite retirar-se. O grande problema é que a embraiagem do privado incide sobre o público e, a grande mudança está começando a prevalecer no estabelecimento de medos que devem perdurar por muitos meses. A ideia de que, em suma, a crise está longe de acabar, e nós não estamos em um quadro onde V, mesmo em W, mas certamente mais em L.

No entanto, os planos de recuperação das finanças públicas que foram apresentadas até agora são todos baseados no pressuposto de uma forte recuperação da economia, o que permitiria reduzir os défices mais rápido e o aumento das receitas fiscais com a redução drástica das despesas públicas. Se a recuperação esperada não aparece, e muito menos a hipótese de uma rápida subida das receitas fiscais e os governos dos países que estão na mira dos investidores são colocados perante um dilema terrível. Ou continuar a apoiar a economia e evitar o seu colapso, mas evolui um ciclo de que não é assim, continua a agravar os seus défices para que eles sejam cada vez mais caros para cobrir. Ou suporte para a queda da economia, a remoção de apoios do público, mas depois corre-se o risco de precipitar a economia nas profundezas, sem no entanto garantir uma redução do défice público. Estes países são membros da União Europeia, o que se poderia pensar que seriam elegíveis para o apoio da União, como tal, ou algum de seus componentes.

Mas se as principais potências económicas europeias decidem ajudar aqueles que lutam em águas profundas, que o risco de ser varrido e afundar sua vez, e isto especialmente porque eles também estão muito endividados. Se esses poderes não avançam, os países mais directamente ameaçadas não podem pagar suas dívidas, eles sabem que vai relançar a crise dramaticamente e eles são os próximos na fila.

"Os mercados" vão pensar, falar, sinalizar, e estes são, nessa ocasião, bastante claros. "Os investidores" estão claramente tornando-se cada vez mais convencidos de que os países em risco não podem mais sustentar suas economias por um longo tempo. Será então sair da situação "de baixo", ou seja, tentar a recuperação das finanças públicas, principalmente pela redução de custos.

Ilusões: depois de ter voado para doações em auxílio dos capitalistas, os governo vão agora pedir aos trabalhadores que fazer sacrifícios, através de aumento de impostos ou a destruição dos serviços públicos. O colapso dos mercados que acaba de ter lugar pode ser facilmente interpretado como uma forte reacção, um apelo aos governos para começar a trabalhar no menor espaço de tempo, para mostrar que são capazes de atacar a grande massa da população a poupar para uma pequena minoria. Trata-se de pedir aos trabalhadores para organizar a resistência, já que esta crise é a do capital, e não uma questão de pagar os seus preços mais elevados.

Isaac Johsua

http://www.rebelion.org/noticia.php?id=100344


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segunda-feira, 1 de março de 2010

A cultura – conceitos gerais

Singer sewing machine advertisement card, dist...Image via Wikipedia


António Campos

Em 1871, o etnólogo americano Edward Tylor definia a cultura como «aquele conjunto de elementos que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, usos e quaisquer outras capacidades e costumes adquiridos pelo homem enquanto membro de uma sociedade» (Ty1or, 1871). É esta uma das primeiras tentativas para uma definição científica de cultura, ou de elaboração de um conceito capaz de delimitar de um modo suficientemente rigoroso o âmbito dos fenómenos culturais enquanto objecto de análise das ciências sociais.

Na realidade, o termo cultura, como constataremos ao longo deste trabalho, presta-se a muitas e diversas interpretações. Em 1952, Alfred Kroeber e Clyde Kluckhohn, desenvolvendo uma análise histórico-crítica das definições de cultura propostas pelos especialistas das ciências sociais, puderam inventariar mais de cento e cinquenta. Kluckhohn tentou sintetizar na lista que se segue os diferentes tipos de definição da cultura: 1) o modo de viver de um povo na sua globalidade; 2) a hereditariedade social que um indivíduo adquire no seu grupo de pertença; 3) uma maneira de pensar, sentir, crer; 4) uma abstracção derivada do comportamento; 5) uma teoria elaborada pelo antropólogo social sobre o modo como efectivamente se comporta um grupo de pessoas; 6) a globalidade de um saber colectivamente possuído; 7) uma série de orientações generalizadas relativamente aos problemas recorrentes; 8) um comportamento aprendido; 9) um mecanismo para a regulação normativa do comportamento; 10) uma série de técnicas que permitem a adequação, quer ao ambiente circundante, quer aos outros homens; 11) um aglomerado de história, de um mapa, de uma peneira, de uma matriz (cf. Kroeber, 1952; Kroeber-Kluckhohn, 1963; Kluckhohn, 1949;
Geertz, 1973, pp. 40-41).

Como vemos, os tipos de definição variam na medida em que se coloca a tónica sobre a dimensão subjectiva da cultura ou sobre a presença do aspecto humano referente aos valores, modelos de comportamento, critérios normativos interiorizados (modos de pensar, sentir, crer; orientações estandardizadas; mecanismos de regulação do comportamento, etc.), ou ainda sobre o carácter, por assim dizer objectivo, que as formas culturais assumem enquanto memória colectiva ou tradição codificada e acumulada no tempo (hereditariedade social, depósito do saber, das técnicas, composto de história, superfície geográfica). Enfim, outras definições tendem a sublinhar que o conceito de cultura não passa de uma abstracção que permite ao cientista social orientar a sua investigação.

Os diversos elementos que surgem condensados no termo cultura fazem ressaltar, por um lado, a dimensão descritiva e cognitiva da cultura; as crenças e as representações sociais da realidade natural e social, ou as imagens do mundo e da vida, que contribuem para explicar e definir as identidades individuais, as unidades sociais, os fenómenos naturais; por outro, a dimensão prescritiva da cultura, enquanto conjunto de valores que indicam os objectivos ideais a prosseguir, e de normas (modelos de acção, definição dos papéis, regras, princípios morais, leis jurídicas, etc.), que indicam o modo segundo o qual os indivíduos e as colectividades devem comportar-se.

Ambas as dimensões, a descritivo-cognitiva e a prescritiva, encontram-se quase sempre intimamente ligadas, enquanto o elemento normativo acha uma justificação nas crenças e nas representações, porquanto estas surgem reforçadas pelos processos de construção da realidade, influenciados pelas prescrições normativas. Além disso, a cultura apresenta-se como tradição, isto é, como possibilidade de um acumular das experiências, enquanto depósito da memória colectiva.

A dificuldade de estabelecer de um modo preciso o conceito de cultura encontra-se ligada à complexidade apresentada por este mesmo fenómeno e, caso não se pretenda apresentar uma definição redutora, será necessário tomar em consideração os diversos elementos que o compõem. Um contributo decisivo neste sentido decorreu das diferentes abordagens teóricas e metodológicas a partir das quais a sociologia da cultura se tem vindo a articular.

Porém, antes de entrarmos no campo dessas diferentes interpretações, será útil recordar as origens históricas do conceito científico de cultura, e, em seguida, esclarecer algumas categorias gerais que se encontram na base da função simbólica produtora de cultura. Além disso, a fim de se compreender a função dos modelos teóricos considerados, será também necessário evidenciar o tipo de relação existente entre a dimensão teórica e a da pesquisa empírica.

In Manual de Sociologia da Cultura, de Franco Crespi (adaptado)


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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O Poder Simbólico

A segment of a social networkImage via Wikipedia


António Campos

O autor aponta para a necessidade de relativizar a proposta do texto, pois o mesmo é fruto de uma “tentativa para apresentar o balanço de um conjunto de pesquisas sobre o simbolismo numa situação escolar particular…” ele fala do cuidado que se deve ter ao aplicar ideias oriundas de um dado contexto cultural a outros, apontando para as suas implicações: riscos de ingenuidade e simplificação, além de inconvenientes. Entretanto, ele fala de algo que está em toda parte e é ignorado: o poder simbólico.”O poder simbólico é, com efeito, esse poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo o exercem.”

Bourdieu cita os neo-kantianos e o tratamento dado por eles aos diferentes universos simbólicos: mito, língua, arte, ciência. Para eles, cada um desses instrumentos constitui-se num instrumento cognoscente e de construção do mundo objectivos. Ele faz referência a Durkheim e à sua tentativa de elaborar ciência, sem empirismo e apriorismo, como o primeiro passo na inauguração de uma “sociologia das formas simbólicas.” “Nesta tradição idealista, a objectividade do sentido do mundo define-se pela concordância das subjectividade estruturantes (senso = consenso).” Segundo ele, a análise estrutural seria capaz de analisar a apreensão de cada uma das “formas simbólicas”, a partir do isolamento da estrutura imanente a cada produção simbólica, privilegiando as estruturas estruturadas. Para ilustrar, ele cita o linguista Ferdinand Saussure, fundador desta tradição, e a representação que ele faz da língua:“… sistema estruturado, a língua é fundamentalmente tratada como condição de inteligibilidade da palavra, como intermediário estruturado que se deve construir para se explicar a relação constante entre som e sentido.”

A eficácia dos sistemas só é possível, porque eles próprios são estruturados. O poder simbólico constrói a realidade e estabelece uma ordem gnosiológica.“… o sentido imediato do mundo (e, em particular, do mundo social) supõe aquilo que Durkheim chama o conformismo lógico, quer dizer, ‘uma concepção homogénea do tempo, do espaço, do número, da causa, que torna possível a concordância entre as inteligências.” Segundo Bourdieu, Durkheim afirma que a função social do simbolismo é política, não se realizando a função de comunicação. “Os símbolos são instrumentos por excelência da ‘integração social’: enquanto instrumentos do conhecimento e de comunicação (a análise durkheimiana da festa), eles tornam possível o consenso acerca do sentido do mundo social que contribui fundamentalmente para a reprodução da ordem social: a integração ‘ilógica’ é a condição da integração ‘moral’.”

Bourdieu cita a ênfase nas funções políticas que os “sistemas simbólicos têm, em detrimento da sua função gnosiológica. Os símbolos seriam produzidos para servir à classe dominante. “As ideologias, por oposição ao mito, produto coletivo e colectivamente apropriado, servem interesses particulares que tendem a apresentar como interesses universais, comuns ao conjunto do grupo (…) Este efeito ideológico, produz a cultura dominante dissimulando a função de divisão na função de comunicação: a cultura que une (intermediário da comunicação) é também a cultura que separa (instrumento de distinção) e que legitima as distinções compelindo todas as culturas (designadas como subculturas) a definirem-se pela sua distância em relação à cultura dominante.”

As relações de comunicação são, para Bourdieu, relações de poder determinadas pelo poder material ou simbólico acumulado pelos agentes envolvidos nas relações. Os “sistemas simbólicos” actuam como instrumentos estruturados e estruturantes de comunicação e conhecimento e asseguram a dominação de uma classe sobre outra a partir de instrumentos de imposição da legitimação, “domesticando” os dominados. “O campo de produção simbólica é um microcosmos da luta simbólica entre as classes: é ao servirem os seus interesses na luta interna do campo de produção (e só nesta medida) que os produtores servem aos interesses dos grupos exteriores do campo de produção.”

A luta de classes fica retratada na teoria de Bourdieu como uma luta pelo domínio do poder simbólico, que é travada nos conflitos simbólicos quotidianos. Esta luta se dá também a partir do embate travado entre os especialistas da produção simbólica legítima: “… poder de impor – e mesmo de inculcar – instrumentos de conhecimento e de expressão (taxionomias) arbitrários – embora ignorados como tais – a da realidade social.” Os “sistemas simbólicos” são produzidos e apropriados pelo próprio grupo, ou por um corpo de especialistas que conduz à retirada dos instrumentos de produção simbólica dos membros do grupo. Como exemplo, Bourdieu cita a história da transformação do mito em religião. As ideologias devem a sua estrutura e as funções mais específicas às condições sociais da sua produção e da sua circulação, quer dizer, às funções que elas cumprem, em primeiro lugar, para os especialistas em concorrência pelo monopólio da competência considerada (religiosa, artística etc) e, em segundo lugar e por acréscimo, para os não-especialistas.” As ideologias, segundo Bourdieu, são determinadas pelos interesses de classe e pelos interesses específicos daqueles que a produzem e pela lógica específica do campo de produção.

“A função propriamente ideológica do campo de produção ideológica realiza-se de uma maneira quase automática, na base da homologia de estrutura entre o campo de produção ideológica e o campo de luta de classes. A homologia entre os dois campos faz com que as lutas por aquilo que está especificamente em jogo no campo autónomo produzam automaticamente formas eufemizadas das lutas económicas e políticas entre as classes.’ O ideológico aparece então como taxionomias políticas, filosóficas, religiosas, jurídicas etc. que demonstram legitimidade “natural”, dado que não reconhecidas. O poder simbólico como poder de constituir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de transformar a visão do mundo e, deste modo, a acção sobre o mundo, portanto mundo, poder quase mágico que permite o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou económica), graças ao efeito específico de mobilização, só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário.”

“O reconhecimento do poder simbólico só se dá “na condição de se descreverem as leis de transformação que regem a transmutação das diferentes espécies de capital em capital simbólico e, em especial, o trabalho de dissimulação e de transfiguração (numa palavra, de eufemização) que garante uma verdadeira transubstanciação das relações de força fazendo ignorar-reconhecer a violência que elas encerram objectivamente e transformando-as assim em poder simbólico, capaz de produzir efeitos reais sem dispêndio aparente de energia.”


BOURDIEU, Pierre. “Sobre o poder simbólico”. In : O poder simbólico. Lisboa : DIFEL, 1989. p. 7-15. (adaptado)



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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

La crisis económica en el cine

ROME - OCTOBER 17:  Actor George Clooney (C) d...Image by Getty Images via Daylife


António Campos

Este fim de semana passado, vi dois filmes, o "Capitalismo: Uma história de amor", de Michael Moore e "Up in the Air" de Jason Reitman. Os dois são diferentes, mas têm um elo comum na confusão que está causando a actual crise económica, especialmente entre aqueles que perdem seus empregos. Além da crise, os dois filmes mostram a dureza do sistema económico que nos rege. Sem dúvida, ambos os filmes são uma boa lição de economia que excede de longe as oferecidas por muitos economistas modernos. Eu acho que é melhor o filme de Reitman, e que não põe em causa aspectos interessantes oferecidos Michel Moore.

"O capitalismo: A Love Story" é avaliado por muitos como o direito demagógico, e tentar desacreditar, como é habitual nestes casos, porque não há dúvida que abala a nossa consciência justamente dizendo tanto as consequências da situação, como o papel das pessoas são realmente a causa da crise. Em qualquer caso, se o filme é marcado como "demagógico", podemos dizer que ele realmente reflecte é a demagogia dos factos. Nada há de errado há mentira. Mas alguns parecem tão exagerados trazendo casos concretos para a categoria geral, ou talvez pintar uma caricatura, tanto quanto aqueles que podem ser responsáveis pelo desencadear da crise.

Infelizmente, os casos não são excessivamente uma minoria, e em qualquer caso, reflectem os dramas humanos, que foram muito poucos os que, embora este não seja o caso, nós somos uma das características do sistema: a sua desumanização. O crescimento, os lucros excessivos, a especulação, o consumo desenfreado, a exploração a que são submetidos muitos trabalhadores que têm poucos direitos laborais, a dignidade própria domina as vidas que estão irremediavelmente perdido seus empregos, suas casas e propriedades. Alguns grupos ou famílias lutam, não demitir-se e defender o que eles adquirem para elas é essencial, trabalho, casa ou determinados tipos de seguro de vida. Lutas de que realmente nós não temos ouvido falar de qualquer tipo. Vemos também algumas posições religiosas, incluindo algumas que um ou outro bispo, em favor dos trabalhadores.

Uma das melhores coisas do filme é quando ele descreve o comportamento dos homens de Wall Street, que impõem seus pontos de vista sobre as finanças e garantir a sua posição dominante em posições de governo na era Bush, mas também na de Obama, apesar dos elogios e expectativas colocadas sobre ele. Sem mencionar quando ele denunciou o facto de que os bancos deixaram à tona com o dinheiro dos cidadãos, que não só voltou, mas que lhes permite voltar ao seu velho truque novamente. No entanto, Michael Moore não se limita a acusar os homens da crise, mas um sistema, caso em que o capital, com suas formas manifesto do governo actual, oligárquica, e antes que se opõe à democracia: do povo, que está longe de ser alcançado.

Em suma, um filme interessante e eu recomendo ver, porque é certamente muito esclarecedor sobre o que acontece, mesmo com falhas, como tentar muitas questões de uma só vez, o que obriga a ir um pouco mais rápido, às vezes de uma forma desarticulada e que as questões que são específicas para os Estados Unidos podem ter dificuldade em ser compreendidas pelos telespectadores europeus. Isso faz com que um filme que não seja redondo, e que é a minha opinião, uma oportunidade perdida de ter investigado mais e melhor neste assunto.

Quanto ao outro filme que tem George Clooney como protagonista principal é um homem que tem uma vida bastante desagradável logo quando as empresas querem reduzir sua força de trabalho. Um homem vivendo em um avião, nos aeroportos, hotéis. Viver em luxo, mas que não têm um lar estável, sem família ou as relações pessoais. É a face mais cruel de um sistema que gera um homem que assume os riscos de vida a uma velocidade vertiginosa, cheia de cartões de crédito, que tira proveito da tecnologia e hotéis de luxo e classes superiores dos aviões, e por um lado, é dedicado à eliminação e o outro é um fracasso por não ser capaz de apreciar as pequenas coisas da vida, as relações humanas e a amizade.

O tema em si é atemporal e não há necessidade de colocá-lo na crise, mas chegou a pessoas reais, que foram demitidas no ano passado como resultado da crise. As cenas dos despedidos estão se movendo, e como salientou o director quis dar uma cara para os números. É um filme bom, muito bem feito, com bom ritmo, com um sentido de humor e do carácter representa Clooney, que, no entanto, não é desagradável, apesar de seu jeito frio de agir, mas ajuda o seu belo físico.

Em suma, com estes dois filmes não apenas apreciados, mas também aprendi, que serviram para aumentar a consciência do mundo injusto, insuportável e competitivo em que vivemos. Eles servem para mostrar o lado obscuro do sistema, e que nenhum erro quando tenta descobrir onde as responsabilidades porque tantas vítimas sofrem as consequências, quer tenham ou não criado uma situação extrema tão grave como sofrimento.

Carlos Berzosa


http://www.sinpermiso.info/textos/index.php?id=3061



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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A etnicidade nas sociedades europeias

silent prayersImage by Ali Brohi via Flickr


António Campos

Passadas cerca de três décadas, o que se verifica é que o prolongamento da estadia
não só não trouxe a esperada integração, como os problemas inicialmente colocados
foram transmitidos pelos primeiros imigrantes às gerações seguintes, já nascidas
nas sociedades receptoras. Tomou-se, assim, evidente que o que estava em causa não eram só questões provisórias de integração e de assimilação. Deixa-se de falar apenas de imigrantes e imigração e começa a utilizar-se conceitos como minorias étnicas ou etnicidade para designar um campo de análise que vai integrar os mais variados aspectos do percurso duradouro dessas pessoas e dos seus descendentes nas sociedades de acolhimento (...).

Com efeito, podemos dizer que a etnicidade é tanto mais forte quanto maiores são os
contrastes das minorias com as populações das sociedades receptoras num conjunto
de dimensões sociais e culturais. Nas primeiras podemos incluir a localização residencial, a estrutura etária e sexual, os níveis de escolaridade e a composição de classe; as segundas compreendem as diferenças no plano religioso, linguístico,
racial, matrimonial e dos modos de vida.

João Ferreira de Almeida,(adaptado)





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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Jogos políticos condicionaram escolhas Constâncio eleito para o BCE no interesse da Alemanha

Head office, Deutsche Bundesbank (German Feder...Image via Wikipedia


António Campos

A nomeação para a vice-presidência do Banco Central Europeu abre portas para que um alemão assuma a liderança da instituição.

Como previsto, Vítor Constâncio, governador do Banco de Portugal (BP), foi ontem escolhido pelos países da zona euro para vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE), uma decisão que resulta sobretudo da vontade da Alemanha de aceder à presidência da instituição.

A decisão foi tomada pelos ministros das Finanças dos 16 países da zona euro e será hoje confirmada pelos mesmos titulares da totalidade da União Europeia (UE). O processo da sua nomeação, que necessita de um parecer do Parlamento Europeu, será concluído pelos líderes dos Vinte e Sete na cimeira de 25 e 26 de Março.

Enquanto governador do BP, Constâncio tem desde 2000 assento no Conselho de Governadores do BCE, composto por todos os países membros, que define a política monetária da zona euro (sob proposta dos seis membros do comité executivo). Nas novas funções, herdará a responsabilidade pela supervisão financeira exercida pelo grego Lucas Papademos, cujo assento assumirá a 1 de Junho.

A escolha do ex-secretário-geral do PS escancara a porta para Axel Weber, governador do Bundesbank, o banco central alemão, aceder à presidência do BCE quando o mandato do actual titular, o francês Jean-Claude Trichet, terminar em Outubro de 2011.

De acordo com a imprensa alemã, a nomeação do português concretizou-se por vontade expressa de Angela Merkel, chanceler federal, de promover a candidatura de Weber. O WirtschaftsWoche afirmou mesmo que a chanceler "orquestrou" um apoio maioritário dos 16 países do euro em favor do candidato português. Afastados ficaram assim os outros dois candidatos - o governador do Banco do Luxemburgo, Yves Mersch, e o director do Banco Nacional da Bélgica, Peter Praet - que ontem ainda se mantinham na corrida.

Segundo as regras tacitamente aceites pelos países do euro, entre os seis membros do comité executivo do BCE, quatro são "cativos" para os quatro maiores países - França, Alemanha, Itália e Espanha -, sendo os outros dois exercidos pelos restantes países com base numa rotação que tem em conta o equilíbrio entre o Norte e o Sul, grandes e pequenos Estados e "pombas" e "falcões", ou seja, os defensores de uma política monetária virada para o controlo intransigente da inflação, e os mais sensíveis à promoção do crescimento económico. Constâncio é geralmente considerado uma "pomba".

Igualmente assente estava a atribuição da nova vaga a um dos países fundadores do euro que nunca tiveram assento no comité executivo. O que limitava a escolha a Portugal, Bélgica, Luxemburgo e Irlanda.

De acordo com o que afirmou em Janeiro o próprio Vítor Constâncio, a escolha não é feita "com base no mérito mas enquanto resultado de uma negociação entre os governos".

No centro da negociação estava, precisamente, a candidatura alemã à presidência do BCE, que, de acordo com a convicção generalizada, só se poderá materializar com a nomeação de Constâncio. Ao invés, se a escolha dos Dezasseis tivesse incidido sobre um dos outros dois candidatos, o respeito pretendido pelos diferentes equilíbrios excluiria Weber, abrindo a porta ao italiano Mario Draghi.

De nada serviram assim os protestos feitos durante o fim-de-semana por Jean-Claude Juncker, primeiro-ministro do Luxemburgo e presidente do Eurogrupo numa entrevista ao Süddeutsche Zeitung, contra o facto de o seu candidato ser preterido "por razões que estão no futuro".

A nomeação de Constâncio significa que durante os próximos oito anos haverá dois portugueses entre os vinte e dois membros do Conselho de Governadores do BCE - um por cada um dos dezasseis membros do euro - incluindo Portugal -, mais os seis membros do comité executivo.

Isabel Arriaga e Cunha

Publico Fev 2010



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