sexta-feira, 23 de abril de 2010

Será que existem milagres?

The Raising of Lazarus, (c. 1410) folio 171r f...Image via Wikipedia


António Campos

Um dos pilares que mantém a estrutura da religião funcionando são os milagres. Para os crentes, os milagres são a prova de que a sua crença seria verdadeira, uma vez que eles seriam a acção de Deus no mundo, provando não só a veracidade da doutrina assim como a existência de Deus. Entretanto o fenómeno do milagre está presente nas várias religiões do mundo. Há várias contradições na natureza do milagre que para que eles fossem cientificamente aceitáveis. Primeiramente, deve considerar-se o facto de que ao realizar um milagre, Deus teria que obrigatoriamente interferir nas leis da natureza. Considerando a possibilidade da existência de Deus, ele simplesmente interferiria nas leis que ele próprio criou para mudar o curso de um sistema que ele mesmo criou.Por outras palavras, no milagre, Deus não só interferiria nas leis naturais assim como no próprio livre-arbítrio. Logo a natureza do milagre não tem lógica.

Do ponto de vista científico, não considerando o factor Deus, o milagre é metodologicamente impossível pelo facto já mencionado de alterar as leis naturais, algo cientificamente impossível. A alegação para a existência de um milagre é que a ciência não conseguiu explicar um fenómeno pelo método científico. De facto, nem todos os casos de supostos milagres a ciência conseguiu explicar. Entretanto devemos ter em consideração que a ciência é refém de um processo evolutivo de descobertas, logo o facto da ciência não encontrar uma solução para um suposto milagre, não quer dizer que isso é a prova da comprovação do milagre. Um exemplo disso é o “Santo Sudário”, que segundo a tradição, é o pano que envolveu Jesus após sua morte e que nele, milagrosamente produziu-se a imagem de Jesus momentos antes da ressurreição. Após várias polémicas, no fim da década de 80 foi confirmado que o pano teria sido feito na Idade Média. Entretanto foi alegado que o resultado foi manipulado. E que com isso seria feito um novo teste. Só que no final de 2009, cientistas italianos reproduziram perfeitamente a imagem utilizando métodos medievais. E agora? Outro facto inusitado e polémico é que na Itália, um país altamente católico, no começo do séc. XX, surgiu um frade capuchinho chamado Padre Pio que apresentava estigmas semelhantes a São Francisco. Após a sua morte, esse frade foi canonizado como sendo o “irmão espiritual de São Francisco”. Entretanto recentemente descobriu-se que ele comprava ácidos secretamente o que produzia as feridas. E de facto, se notarmos as fotos dos estigmas, as feridas têm uma conotação de queimadura e não de perfurações como vários outros estigmatizados se mostram.

Da mesma forma, voltando no tempo, até hoje Francisco de Assis é considerado um dos santos mais importantes do catolicismo, cujos relatos de milagres são inúmeros. O mais impressionante milagre são os estigmas, os mesmos que Padre Pio alegava ter. Ora, primeiramente deve-se considerar que Francisco vivia cuidando de leprosos, o que para as condições sanitárias da Idade Média era um alto risco de contaminação. Outro facto é que, assim como vários outros santos e místicos, Francisco passava vários dias e até semanas sem se alimentar em condições. Para uma pessoa que passa dias sem comer meditando sobre o Arcanjo Miguel e a crucificação de Jesus, não é impressionante que ela tenha uma visão de um serafim que lhe passe as chagas de Cristo. E ainda mais, considerando que dependendo da imunidade da pessoa, casos de lepra podem irromper da noite para o dia, não é estranho que do nada surjam feridas justamente nas mãos e nos pés, locais que estariam mais propícios a infecções. Desse modo, todas essas visões, milagres, estigmas, se colocados à luz da razão e da análise científica, passam a um simples fenómeno resultante da debilidade do organismo e/ou de uma projecção da mente do indivíduo para aquilo que ele deseja.

Desse modo, também temos outros factos a considerar como as visões do auto-intitulado apóstolo Paulo e do profeta Mohammed sobre Jesus e o anjo Gabriel respectivamente, que ao lembrarmos que tanto Paulo quanto Mohammed eram epilépticos essas visões tornam-se uma projecção da mente, consequentes do ataque, uma vez que um ouviu momentos antes por um sermão sobre a conversão a Jesus e o outro estava há dias sem comer meditando sobre revelações divinas. Outros ditos milagres como curas inexplicadas, imagens que vertem sangue, mel, leite, assim como supostas aparições no céu, nada mais são do que reflexos da actuação da mente humana segundo o seu subconsciente que cria conclusões de fenómenos que simplesmente não existem, quando não muitas vezes são comprovados como fraudes arquitectadas. Vários casos como as aparições na cidade Bósnia de Medjugórie, onde Maria supostamente teria aparecido, foram comprovados e aceites pelos próprios bispos locais como eventos naturais, entretanto as romarias ainda continuam a frequentar o local como se fosse um sítio de um autêntico milagre. Assim como outros fenómenos que ainda são considerados milagres como a famosa “dança do sol”, que nada mais é do que a refracção da luz o que faz com que o sol “ande” pelo céu.

Considerando que em quase todo lugar existe um local que é tido como sagrado, qualquer fenómeno que o ser humano não compreenda, acentuando-se a isso que a religião existe nas várias sociedades, a primeira ideia a considerar-se vai ser a de um fenómeno sobrenatural. Todos viram o que uma simples mancha na janela pode fazer no ser humano. A sua capacidade de abstracção o faz ver aquilo que ele quer, a prova disso é que o homem“vê” várias imagens nas nuvens. Logo se a forma de uma cabeça aparecer numa nuvem um cristão dirá que é Jesus, um budista dirá que é Buda, um hindu dirá que é Shiva, e por aí vai, pois o ser humano, ficou dependendo de sinais para confirmar sua fé, logo qualquer sinal que ele considerar anormal ele fará a analogia segundo a sua crença como um mecanismo de defesa da própria crença, sempre na esperança que aquele sinal confirme sua fé. E muitas vezes, mesmo que seja provado o contrário, a fé estará tão enraizada no seu subconsciente que o processo para reverter essa convicção não surtirá mais efeitos.

E considerando que geralmente essas pessoas são leigas das ciências naturais, sem falar quando nem sequer imaginam que alguém está estudando esse fenómeno, não é estranho que a pessoa aceite o fenómeno à primeira vista como verdadeiro. Até porque o impacto do primeiro encontro com o fenómeno causa uma acepção quase que automática. No caso velho “telefone sem fio”, a situação é até mais simples de se compreender. Um caso bem simples aconteceu nos EUA no início do séc. XX, quando por uma brincadeira de mau gosto foi anunciado no rádio que estava acontecendo uma invasão alienígena. Mesmo não havendo indícios físicos para tal invasão, as pessoas se desesperaram de um modo que esse episódio ficou conhecido como a “Guerra dos Mundos”. Agora invente um facto, ou atribua um facto que você não compreende a uma pessoa que você considera um santo. A história espalhar-se-á pela comunidade, e mesmo que seja provado o contrário, a história já terá sido espalhada, sendo contada pelas gerações até chegar aos dias de hoje. Quem irá duvidar dessa história? Afinal, é tradição. Assim, esse “milagre” sobrevive até aos dias de hoje. Ora isto pode aplicar-se a outros conhecidos “milagres” como Fátima ou Lurdes.

Adaptado de Shaka Kama-Hari



Reblog this post [with Zemanta]

quinta-feira, 22 de abril de 2010

A crise da imprensa é muito ética

Press Credential MontageImage by st bernard via Flickr


António Campos

Chovem os artigos na imprensa internacional sobre a crise da imprensa, enquanto crescente número de jornais fecham, despedem jornalistas, diminuem as suas tiragens. Os diagnósticos, ao serem feitos, em grande medida por pessoal ligado a essa imprensa, não conseguem sair do rame rame usual: a difusão da internet grátis, dos jornais grátis, etc., etc., seriam os responsáveis. Será?
Mas um artigo, desta vez da prestigiosa publicação norte-americana The Nation – “How to save jornalism?”, de John Nichols e Robert W. McChesney, de 25 de Janeiro deste ano – aponta para um diagnóstico um pouco diferente. Em primeiro lugar, classifica o jornalismo como um “bem público”, considerando que deveria ser considerado da mesma forma que se considera a educação, saúde pública, o transporte, a infra-estrutura.
Considerado dessa maneira, o facto de ser financiado por publicidade já desvia ou deforma esse carácter público, porque a publicidade visa interesses privados, venda de mercadorias, prestação de serviços na esfera privada. Essa concepção remeteria ao tema do financiamento público da imprensa.
Quanto ao diagnóstico que aponta para a difusão da internet, os autores recordam que a crise começou muito antes, já nos anos 1970, apontando para a busca de maximização dos lucros pelas grandes corporações, que foram tornando as médias empresas como outras quaisquer do seu imenso leque de investimentos, tendo como resultado, entre outros, a diminuição da qualidade e a banalização do jornalismo, cada vez mais longe de ser um bem público.
As propostas actuais de tentativa de superação da crise financeira apontam normalmente para o pagamento das páginas de internet, dado que a publicidade nestas representa um ganho de 10% do que se perde nas publicações impressas. No entanto, apenas um ou outro jornal que acredita na sua capacidade de manter audiência sendo pago – como o The Wall Street Journal – se arriscam nessa direcção. Ainda assim, é duvidoso que possam arrecadar uma proporção minimamente significativa do que perdem com a diminuição da tiragem e, principalmente, com a retracção da publicidade, canalizada para outros meios.
Na realidade, a crise da imprensa é a da perda de credibilidade, é uma crise ética, de sua transformação em um instrumento da publicidade, do ponto de vista económico, e da sua constituição em mentor político e ideológico do liberalismo. Os dados, publicados recentemente, demonstram como todos os grandes jornais brasileiros perdem leitores, mas sobretudo perdem influência. Embora todos os maiores jornais e quase todas as revistas semanais – à excepção da Carta Capital – sejam de férrea oposição ao governo, este mantém 83% de apoio e eles conseguem apenas 5% de rejeição do governo. Temos aí uma ideia da baixíssima produtividade desses órgãos de oposição.
Jornais progressistas como La Jornada, do México, Página 12, da Argentina, Público, da Espanha, que gozam de alta credibilidade, se consolidam e se expandem, tendo páginas abertas amplamente visitadas. O seu património é a sua ética social, as suas posições políticas democráticas, o espírito pluralista dos seus comentaristas, a originalidade das suas coberturas jornalísticas.

Emir Sader, adaptado


Reblog this post [with Zemanta]

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A gente decide

celebrate the ability to failImage by dan paluska via Flickr


António Campos

"Dentro de minhas limitações pessoais e de minha condição individual, eu faço diferença, todos fazemos"
No dia dos seus 102 anos, uma adorável matriarca está sentada junto à mesa de sua cozinha, rodeada de filhas e amigas. Ela corta os quiabos que serão preparados e servidos mais tarde aos visitantes, como de costume. Entrevistada, diz ao jornalista: "A vida, a gente é que decide. Eu escolhi a felicidade".
A aniversariante, dona Canô, mãe de Bethânia, minha irmã querida, naturalmente não quis dizer que "escolher a felicidade" é viver sem problemas, sem dramas pessoais ou as dores do mundo. Nem quer dizer ser irresponsável, eternamente infantil. Ao contrário, a entrevistada falou em "decidir" e "escolher".
Apesar de fatalidades como a doença e a morte, o desemprego, as perdas amorosas, a falta do dinheiro essencial à dignidade, podemos decidir que tudo fica como está ou vai melhorar, dentro do que podemos. Posso optar por me sentir injustiçada, ficando amarga e sombria; posso escolher acreditar no ser humano e em alguma coisa maior do que toda a nossa humana circunstância; posso buscar sempre alguma claridade, e colaborar com ela. Dentro de minhas limitações pessoais e de minha condição individual, eu faço diferença, todos fazemos.
Desse início pessoal, passo ao mais geral: leio que 40% dos nossos jovens e crianças vivem abaixo da linha de pobreza; que o desemprego é uma calamidade, a violência cresce a cada dia e o analfabetismo não diminui; que crianças continuam, aos milhares e milhares, brincando no barro feito de terra e esgoto. Leio, vejo e sei que milhares e milhares de velhos vivem em condições sub-humanas, pois sua aposentação é miserável, o serviço de saúde pública também, morre-se em corredores de hospitais ou em filas de postos de saúde, onde médicos exaustos e pessimamente pagos fazem muito mais do que podem.
Não vou recitar a ladainha de que as circunstâncias não justificam euforia nem ufanismo simplesmente porque nós não decidimos algo melhor do que isso que escrevi acima, e todo o resto que qualquer um conhece – e apesar disso continuamos deitando a cabeça no travesseiro toda noite e dormindo quem sabe até bem.
Tenho medo do ufanismo: ele pode ser burro e cego. Olimpíada no Brasil, Copa do Mundo no Brasil, tudo bem: mas eu preferia que antes disso a gente tivesse resolvido os gravíssimos e tristes problemas, tão dramáticos, de comida, saúde, educação, moradia, decência e dignidade de boa parte do povo brasileiro que agora samba e celebra porque teremos Copa, teremos Olimpíada, teremos festa.
Sei que este não é um artigo simpático. Certamente não é alegrinho. Realmente ele trata do que não decidimos, ou decidimos mal, ou decidimos não decidir, como, por exemplo, exigir líderes mais sensatos, mais presentes, mais realistas, mais dignos em todos os níveis. Podíamos decidir ser mais respeitados enquanto povo, mais olhados enquanto gente, mais seguros e mais protegidos enquanto sociedade.
Ou isso a gente não decide porque nem sabe das coisas, pois não se informa, não sabe ler, se sabe ler não costuma, nem o jornal esquecido no banco do aotocarro. Onde o povo carrega doença e dor, descrença e desalento, mas também, aqui e ali, leva um jornal para saber onde afinal vivemos, em quem afinal podemos acreditar, e o que afinal deveríamos esperar. Indagados, os mais desassistidos dirão que Deus é quem sabe, Deus decide, a quem ama Deus faz sofrer – frase de imensurável crueldade.
Ou será melhor nem saber nem aprender a ler, nem pegar a folha de jornal, nem ouvir o noticioso no rádio de pilha. Basta saber que sempre há em algum canto motivo para um breve ou longo carnaval, celebrando alguma coisa que possivelmente não vai encher nem o nosso bolso nem a barriga de nossos filhos, nem construir uma casa decente, nem botar esgoto, nem cuidar da nossa saúde, nem amparar nossos velhos, nem coisa nenhuma que seja forte, firme, boa e real. Porque, infelizmente, por aqui ainda decidimos pouco, e poucas vezes decidimos bem. Não porque Deus quis assim, mas porque a gente nem ao menos sabe por onde começar.

Lya Luft é escritora
Fonte: Revista Veja


Reblog this post [with Zemanta]

sexta-feira, 16 de abril de 2010

A China muda a geopolítica de tudo

The Great Wall of ChinaImage by Steve Webel via Flickr


António Campos

Constantemente vemos opiniões sobre as grandes mudanças que a China vem desenvolvendo no cenário internacional, principalmente sobre a óptica geopolítica que estabelece conceitos de poder e equilíbrio de atitudes e actividades sobre o conceito de condicionantes de política externa e necessidades de negócios internacionais.
Recentemente a China ficou configurada como a grande transformadora da geopolítica do petróleo no sistema internacional. Sua produção interna e suas necessidades reais de energia levam a um novo posicionamento de poder e controle. As perspectivas de comércio e inserção da China em mercados como América Latina, África e até mesmo Oriente Médio são latentes, e com três grandes finalidades, aproveitamento da capacidade fornecedora destes locais para as questões de energia, stock de alimentos e inserção de produtos chineses (de forma legal e ilegal).
Por exemplo, recentemente a Arábia Saudita investiu mais de 60 bilhões de dólares em um novo campo de extracção com capacidade de produção de 1,3 milhão de barris diários para atender especificamente a China e a Índia, considerando que boa parte fica para os nossos amigos chineses.
O governo angolano em pronunciamentos oficiais ampliou os laços diplomáticos e de negócios com a China, inclusive para consolidar o fornecimento de petróleo para Ásia e ao mesmo tempo abrir mais portas de comércio de produtos chineses em terras africanas.
Por sinal, a África de uma forma geral tem mudado sua cara, pois cada vez mais em suas cidades os chineses são mais vistos, principalmente em tarefas que os africanos ainda não tem mão-de-obra qualificada, como por exemplo construção civil. Tudo em troca e protecção do fornecimento de petróleo e manutenção dos contratos de compra de produtos chineses.
Os Estados Unidos perderam um pouco da hegemonia e do controle geopolítico, e não pela questão militar, mas sim por causa do controle geopolítico do petróleo, e como o grande estratega americano, Michael Porter dizia, eles perderam o poder de negocial com os fornecedores, e a China neste ponto avançou pesadamente. Sua capacidade de consumo sobressai qualquer aparato militar, e os novos direcionamentos do que vem a ser o novo imperialismo do futuro podem ter determinantes diferenciados, mas com o mesmo sentido, o poder sempre será estabelecido por um grande poder negocial. A China neste caso aproveita as novas mudanças geopolíticas, e aproveita para mexer com a história, ou melhor, fazer com que a mesma se repita, os grandes impérios um dia caem. E os Estados Unidos que se cuidem…

Fábio Pereira Ribeiro


Reblog this post [with Zemanta]

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A Igreja católica, os milagres e os escândalos

St Bridget's churchImage by mudpig via Flickr


António Campos

Enquanto sobram as dúvidas sobre a virtude dos seus padres, minguam as certezas sobre a intercessão divina nos milagres dos seus santos.
A pressa em canonizar João Paulo II, um papa que era crente, depara-se agora com a nódoa que atingiu em cheio João XXIII e que persegue Bento XVI – a ocultação dos casos de pedofilia que envolvem os seus padres.
Os milagres criados para fabricar beatos e santos, cada vez mais medíocres, têm sido um factor de descrédito da Igreja católica e motivo de ridículo que perturba os crentes e hilaria os incrédulos. Salva-se o milagre da Alexandrina de Balazar que, segundo afirmou o próprio Papa João Paulo II, passou mais de 13 anos sem ter comido, bebido, defecado ou urinado, alimentando-se apenas de hóstias consagradas e cuja beatificação ainda teve de passar por uma milagre criado numa conterrânea emigrada em Estrasburgo.
A cura do olho esquerdo de D. Guilhermina de Jesus, queimado com salpicos ferventes de óleo de fritar peixe, foi um milagre que transformou Nuno Álvares Pereira, de herói que era, em colírio, desonra que não mereceria o vencedor de Aljubarrota.
Na semana em que o Vaticano comemora a morte de João Paulo II e já tinha um milagre confirmado para a sua beatificação, tudo correu mal, desde a contestação da posição assumida em vida quanto aos abusos sexuais dos seus padres até à validade do milagre criado depois de morto. Depois de aprovado o milagre da cura da freira francesa, Marie Simon-Pierre, que sofria da doença de Parkinson, foi posto em causa por um prestigiado jornal que duvidou do diagnóstico e da cura.
Para além da dúvida de ter curado uma freira, depois de morto, de uma doença que não conseguiu evitar a si próprio, em vida, resta a incúria com que lidou com as inúmeras queixas de abusos sexuais que recebeu e de que se desinteressou, deixando a resolução às dioceses.
A quantidade avassaladora de milagres e a catadupa de escândalos vão transformando o Vaticano de referência ética que foi para alguns em espaço mal frequentado reconhecido por quase todos.

de Carlos Esperança



Reblog this post [with Zemanta]

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A endémica pesca ilegal afecta duramente os países mais pobres da África Ocidental.

Map indicating Northern AfricaImage via Wikipedia


António Campos

A prática prevalece na região centro-leste do Oceano Atlântico e estende-se pelas águas territoriais de cerca de 15 países africanos, de Marrocos à Mauritânia, no norte de Angola e no sul. As perdas económicas apenas para os países da África sub-saariana ronda os 1.000 milhões de dólares por ano ", disse à IPS Saskia Richartz, directora de políticas do Greenpeace grupo oceânico ambiental. "Não há" mecanismos para fazer cumprir as normas internacionais neste domínio.

A maioria das empresas e embarcações envolvidas na pesca ilegal navegando sob a bandeira de países como China, Indonésia, Panamá e na Rússia, mas também a União Europeia (UE) e de outros países industrializados, como Itália, Japão e Portugal. A pesca ilegal é um feita por navios de bandeira nacional ou estrangeira, nas águas territoriais de um Estado soberano sem a permissão das autoridades ou em violação de suas leis e regulamentos.

As águas conhecidas como zonas económicas exclusivas, são áreas em que o Estado tem direitos especiais marítimos e de exploração. Considera-se também os barcos de pesca ilegal carregando as bandeiras dos países que ratificaram os acordos internacionais, mas ao contrário de gestão e medidas de conservação mandatada pelos Tratados.

O problema-se agravou nos últimos 10 anos, de acordo com o Centro Técnico de Cooperação Agrícola e Rural (CTA), órgão da UE criada para ajudar os países de África, Caraíbas e Pacífico. Os prejuízos causados pela pesca ilegal no mundo é estimado entre 9.000 e 24.000 milhões de dólares por ano. A maioria das fontes avaliam as capturas entre 11 e 26 milhões de toneladas de peixe, o equivalente a entre 10 e 22 por cento da produção total. Além disso, os dados não levam em conta os danos ambientais causados pela pesca excessiva, que tem dizimado muitas espécies de peixes como o atum e o bacalhau.

"A captura ilegal da África Ocidental é estimado em mais de 40 por cento dos aprovados" como MRAG consultor baseado em Londres, dedicada à "promoção do uso sustentável dos recursos naturais através da gestão integrada de políticas e práticas ". Na zona económica exclusiva da Guiné, as perdas flagelo foram estimados em US $ 110 milhões em 2009, segundo um relatório do Departamento de Desenvolvimento Internacional, Grã-Bretanha.

A situação nas águas territoriais da Guiné é "o pior de África", o que significa que é o pior do mundo, de acordo com a Environmental Justice Foundation, sediada em Londres. Os países africanos perdem cerca de 34.000 toneladas de peixe por ano, incluindo a pesca indesejada lançada ao mar, segundo o Departamento para o Desenvolvimento Internacional. Na Guiné, a captura é cerca de 54.000 toneladas por ano, fazendo com que o corte ilegal represente dois terços do número registado oficialmente.

"A escala da pesca ilegal é vergonhosa e surpreendente levada a cabo pelas nações industrializadas, e os seus líderes, repetidamente, prometem só mais de 10 anos para eliminá-la", disse Richartz, do Greenpeace. Na Cimeira Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, em 2002, os líderes concordaram em implementar planos de acção urgente, nacional e regional, com a realização de uma iniciativa internacional da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que visa "prevenir, impedir e eliminar a pesca ilegal, não declarada e irregular para 2004."

"É fácil a captura ilegal e a lavagem para evitar sanções, porque os postos de fiscalização são ineficazes e inconsistente", disse ele. "Também não existem mecanismos suficientes para a localização de navios, há pouco controle sobre a pesca e os navios vão beneficiar as empresas", acrescentou. "Greenpeace observou em várias ocasiões e documentou a existência de embarcações de pesca nacionais e empresas da UE e outros países industrializados e em desenvolvimento a violar acordos internacionais, de pesca, onde o fazem com toda a impunidade", disse ele Richartz, acusando a Europa de não levar o assunto a sério.

Algumas organizações têm listas de empresas violadoras e dos navios da China, Indonésia, Panamá, Rússia e Tunísia, entre outros. Mas o Greenpeace não lista todos os anos dos dados oficiais de domínio público inclui embarcações da Itália, Japão e Portugal. Estima-se que a captura ilegal de várias empresas europeias representam entre um terço e metade do total das capturas, disse à IPS Baumueller Heike, independente do investigador do grupo de estudo Chatham House, Londres.

"Em 2020, o problema representa uma perda de mais de 15.000 milhões de dólares no sector das pescas eo desaparecimento de mais de 27.000 postos de trabalho na indústria da pesca e transformação de produtos do mar", disse ele. A Comissão Europeia, órgão executivo da UE em 2009 estima que cerca de 10 por cento das importações de frutos do mar, cerca de 1.700 milhões de euros, pode vir de fontes ilegais, de acordo com um comunicado divulgado em 27 de Outubro do ano passado.

As autoridades europeias dão abrigo a algumas empresas e dos navios que estão na lista dos criminosos. A Environmental Justice Foundation chamado o porto espanhol de Las Palmas de Gran Canaria, o "mais conveniente", pois fornece serviços para os navios piratas que operam nas águas ao largo da costa oeste da África. O porto é uma zona económica exclusiva e as empresas localizadas em Las Palmas tem vários costumes e vantagens fiscais, muitas das quais facilitar a gestão, o transporte e a venda ilegal de peixe ", disse à IPS Duncan Copeland Foundation Justiça Ambiental. Las Palmas é um ponto de entrada indulgente realmente grande para o mercado europeu para produtos do mar e um cubo principal do transporte para a pesca ilegal para outros grandes mercados do leste asiático.

Traduzido do espanhol
http://www.rebelion.org/noticia.php?id=103104



Reblog this post [with Zemanta]

sábado, 3 de abril de 2010

A Relação com o Passado e com o Futuro

Passé - Futur !Image by Romain [ apictureourselves.org ] via Flickr


António Campos

Relação com o passado

Hoje, a relação com o passado reduz-se seja ao turismo arqueológico a preços módicos, seja à erudição e ao museísmo de todo tipo. Devemos rejeitar a pseudomodernidade e pseudosubversão - a ideologia da tábua rasa -, assim como o ecletismo ("o pós-modernismo") ou a adoração ao passado. Uma nova relação com o passado supõe fazê-lo reviver como nosso e independente de nós, ou seja, significa ser capaz de entrar em discussão com ele aceitando ao mesmo tempo que ele nos questione. Antes, a relação que os atenienses no século V mantinham com o passado apresenta-se não com um modelo, mas como um germe, um índice de possibilidades realizadas. A tragédia não 'repete' os mitos; ela os reelabora e os transforma para que, saídos de um passado imemorial, eles possam investir a linguagem e as formas do mais vivo presente e, desse modo, atingir os seres humanos de todos os futuros possíveis. Esse estranho 'diálogo' com o passado, com duas vias com sentido único, disjuntas na aparência, mas não na realidade, é uma das possibilidades mais preciosas que a nossa história criou para nós. Assim como devemos reconhecer nos indivíduos, nos grupos, nas unidades étnicas ou outras a sua verdadeira alteridade, e fundar a nossa coexistência com eles nesse reconhecimento,... devemos reconhecer em nosso próprio passado uma fonte inesgotável de alteridade próxima, trampolim para nosso esforços e abrigo contra nossa loucura sempre à espreita.

Relação com o Futuro

Devemos também estabelecer uma nova relação com o futuro, deixar de vê-lo como um 'progresso' ilimitado, dando-nos sempre mais do mesmo, ou como o lugar de explosões indeterminadas. Não se poderia também onerar a nossa relação com o futuro etiquetando com o termo falacioso de 'utopia'. Além daquilo que se costuma chamar de possibilidades do presente, cuja fascinação não pode senão engendrar a repetição, devemos, sem renunciar ao julgamento, ousar querer um futuro - não um futuro qualquer, não um programa estático, mas esse desenrolar sempre imprevisível e sempre criador, de cuja conformação podemos tomar parte, pelo trabalho e pela luta, a favor e contra.


Cornélius Castodiadis
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.



Reblog this post [with Zemanta]