segunda-feira, 14 de junho de 2010

A Força e a Mente-Colmeia

All in the MindImage via Wikipedia


António Campos




Gostaria de fazer uma pequena introdução sobre uma questão muito debatida não só no mundo Star Wars, mas actualmente no campo científico: O poder da mente. Quando falo nisso me refiro tanto à questão da capacidade supra-natural (isto é, a superação da actual utilização da mente pelos seres humanos) da mente actuar no corpo, e também fora dele, e também o facto de toda a sabedoria dos antigos voltar-se para uma abordagem filosófico-psicológica sobre o “poder de criação” da mente.

O último livro de Dan Brown, “O Símbolo Perdido”, aborda a questão do poder da mente e uma “nova ciência” que explora a capacidade de actuação da mente humana, comprovando ou não questões metafísicas como a vida após a morte, a conexão entre os seres vivos e a existência ou não de uma força maior que muitos chamam de Deus. Este ramo da ciência chamado Ciência Noética é muito explorada no livro, onde uma das teorias que aparecem é a da “Mente-Colmeia”. Para essa teoria, as mentes dos homens estão conectadas as demais, assim como há uma ligação entre a vida dos humanos e dos demais seres vivos formando uma espécie de Simbiose.

Em Star Wars – Episódio I, temos o Mestre Qui-Gon Jinn explicando ao jovem Anakin sobre a natureza dos seres vivos, pois todos possuem uma ligação que mantém todos unidos. No mesmo filme, Obi-Wan fala ao líder Nass, dos Gungas, sobre o ciclo simbiótico que liga eles aos Naboo. No mundo Star Wars, todos os seres vivos estão unidos a partir dos seus Midichlorians, microelementos que vivem dentro dos seres vivos formando uma sinapse entre eles, de modo que não só conectam uns aos outros, mas também à Força. Mas o que é a Força?

Tradicionalmente a Força é descrita por Obi-Wan em Star Wars – Episódio VI, como sendo “É um campo de energia criado por todas as coisas vivas, ela nos cerca e penetra. Ela mantém a Galáxia unida". É interessante notarmos que a Força emana de todos os seres vivos. Sem eles, Ela não existia. É uma energia vital, que dá vida ao Universo. Vida, no sentido de harmonia, pois sem ela, não haveria ordem no Universo, e o mesmo se destruiria a partir desse caos. Logo chegamos a duas conclusões: A Força não é um ser como muitos pensam, ela simplesmente emana dos seres vivos. Ela também não é criada, é como se ela sempre existisse, embora estivesse esperando o momento para manifestar-se. No caso de Star Wars, Obi-Wan nos revela que Ela “é o que dá poder a um Jedi”.

Considerando a manifestação da Força como literal, voltemos ao livro de Dan Brown. A Ciência Noética a partir da ideia da simbiose das mentes estuda se é possível a atuação da mente fora do corpo, como se ela detivesse um poder secreto. Nas tradições espirituais do mundo, nós temos relatos de diversos feitos de vários humanos utilizando-se de um “poder”, algo que emanava deles, não por méritos ou busca desse poder, mas porque ele já existia neles. Vários místicos religiosos eram descritos como homens de milagres que atuavam no mundo utilizando-se de seus “poderes” para fazer o bem. Ora, em Star Wars, a Força não é algo que se desenvolve, mas que já está dentro de todos os seres vivos, eles já nascem com Ela. A partir do treino, isto é, da busca pelo “seu interior” é que descobrem o quanto eles são capazes de fazer. A Força ou o poder dos místicos não é um dom, eles apenas “descobrem”, “revelam” a si mesmos e ao mundo sua capacidade de agir neste mundo e no outro.

Chegamos a duas conclusões onde tanto a Força quanto o poder desses místicos são advindos deles próprios quando “ativam” sua mente. De Sócrates à Buda, temos os ensinamentos para que possamos nos “conhecer a nós mesmos” e com isso “conhecermos os Deuses”.

Jesus fala de “quem conhece a mim conhece ao Pai” e com isso “poderá fazer obras maiores que eu”. O “Pai” é “Deus”, mas o que seria “Deus”? Muitos dizem que a Força é Deus. Isso não é certo, mas também não é errado. Não é certo a partir do momento que você considera Deus como uma entidade criadora, um ser, algo que está além do homem no sentido de separado do mesmo. Mas e se considerássemos Deus algo vindo do próprio homem? Em “O Símbolo Perdido”, as pesquisas da Ciência Noética, revelam que “Deus é um em muitos” como dizia Pitágoras. A ideia de um “Deus plural” se revela na palavra hebraica “Elohim”, definidora de “Deus” na Bíblia, onde seu sentido etimológico remete a ideia de Deus como sendo algo plural.

Essa ideia de pluralidade nos confirmaria o fato de que Deus não seria um ente, mas a emanação das mentes dos seres vivos, assim como a Força é formada pela emanação da “energia” dos seres vivos da Galáxia. A ideia da “mente do mundo” de Platão mostra-nos como literalmente os seres humanos estariam unidos numa simbiose claramente descrita por Qui-Gon em Star Wars. Desse modo, a ideia da Força como sendo Deus não é descartada, revelando que Deus poderia ser sim uma emanação dos seres vivos, desse modo sendo “eterno”, ou “atemporal”, pois ele não seria criado, e sim “emanado”. Essa “Força” a quem chamamos de Deus estaria o tempo todo dentro de nós “penetrando-nos e tornando o Universo unido”. O modo como “Deus” se revelaria no mundo material, seria através de nós mesmos, sejam em “actos ou palavras, pensamentos ou omissões”. Por isso a Bíblia fala “não sabeis que sois deuses?”.

A grosso modo, a ideia da Força enquanto Deus, e este sendo uma emanação dos seres vivos torna-se tão lógico quanto os ensinamentos dos antigos ou a explicação da metafísica em Star Wars pelos Mestres Jedi. De facto, o Universo possui muitos mistérios que a mente humana (esta, de facto, limitada) não consegue compreender.

É como se nossa capacidade estivesse adormecida dentro de nós esperando ser manifestada, por nós mesmos, nos tornando “unos” com nós mesmos e com os outros. Sentir a Força, é realizar esta união, que só poderá ser feita se cumprirmos a máxima da auto-realização da mente humana tão pregada pelos Mestres desse mundo: “Conhece-te a ti mesmo, e conhecerás o Universo e os deuses”. Deuses, ou Jedi, nós ainda estamos longe de nos descobrirmos, mas até lá, ainda teremos muito caminho pela frente para compreendermos a real natureza de Deus, ou de nós mesmos, ou da Força.

Que a Força esteja conosco.

de Shaka Kama-Hari



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sexta-feira, 11 de junho de 2010

A crítica ao Papa, a crise de abuso sexual são o resultado de fortes lutas internas dentro da Igreja?

Bishop Pates' Ordination.Image via Wikipedia


António Campos


Os sofrimentos de Bento XVI


Há mais de um ano temos vindo a advertir, em nossas colaborações, uma crescente deterioração na condução da política pontifical contando episódios sucessivos que foram corroendo o poder do papa.


A gestão de Bento XVI, apenas cinco anos após o seu início, sofre o pior momento, na história moderna do Vaticano. A imensidão de acusações duras não parece cessar. O aumento nas denúncias de violência sexual tornou-se um tsunami dos media que põem em causa todo a estrutura do discurso da Igreja sobre os valores e práticas da sociedade contemporânea, especialmente do sexo.


Alguns argumentos de defesa do clero de abuso sexual, tentando minimizar os danos do ponto de vista quantitativo, tem mostrado ser uma estratégia errada, o que levou a uma grande indignação, especialmente entre as vítimas. Também tem sido utilizada para planear o desgastado argumento de conspirações judaicas internacionais dos maçons de Nova Iorque e de Washington, onde as explicações não são convincentes para a compreensão, e alcance global da alta traição causada por predadores sexuais do clero.


Também tem provocado a indignação de protecção sistemática de patologias que a estrutura da igreja continua a defender desde há alguns anos atrás. Acima de tudo, esta atitude desesperada para minimizar, silenciar e intimidar as vítimas. As recriminações começaram a bater à porta do próprio papa. Os documentos publicados pelo New York Times mostram que a Congregação para a Doutrina da Fé, Ratzinger enviou uma poderosa missão antes de ser eleito papa, em 1996 e não reagiu com a velocidade nem o poder para iniciar um julgamento eclesiástico contra um padre em flagrante delito criminal.


Em nosso meio, pelo testemunho directo e do falecido bispo Carlos Alberto Athie Talavera sabia que, a partir da década de 90 do século passado, Joseph Ratzinger considerou a denúncia contra o fundador dos Legionários de Cristo, dizendo que "infelizmente, o processo Marcial Maciel não pode ser aberto ", depois de ler a carta Athie," porque ele era muito querido do Papa João Paulo II e também tem feito muito bem para a Igreja. Desculpe, não é possível "( La Jornada , 9/10/97).


O Papa Bento XVI acusou o seu bispo, e antes como cardeal, tinha conhecido as alegações de abuso e de ter feito muito pouco, o cardeal austríaco Christoph Schoenborn, disse à BBC que foi João Paulo II, que interrompeu uma investigação de Ratzinger na década de 90, para evitar escândalos, nos casos de abuso de crianças dentro da Igreja Católica como tornou evidente o então cardeal de Viena, Hans Hermann Groer. Sem dúvida, uma pessoa com o poder e as posições detidas por Ratzinger, o lugar indiscutível e a responsabilidade de partilhar, independentemente do conhecimento e da variedade de autoridade que tenha sido, não está isento da cadeia sinistra de procedimentos com os quais a Igreja lidou com estes casos. As alegações contra Bento XVI agitam fortemente o seu pontificado, porque elas vêm num momento especial de vulnerabilidade, embora insuficiente sobre a questão no caso da Irlanda. A questão é dramaticamente condensada no seguinte: Fazer parte do problema, Ratzinger pode ser a solução dele? Contra adversários que pensam que estão fora e estão manipulando os media, acho que o mais perigoso inimigo está em Bento XVI, a Igreja em si.


Nestes cinco anos, o Papa Bento XVI abriu várias frentes de confronto e recebeu forte pressão de sectores fundamentalistas do Vaticano para acelerar os movimentos de relativização, continuar as suas realizações no Concílio Vaticano II e incentivar ainda mais as acções e as associações de grupos católicos ultraconservadores. No entanto, o perdão para Lefebvrians teve que enfrentar a oposição dos poderosos bispados e o desconforto, tais como alemães, austríacos e franceses. Boffo o caso, o afastamento do pontífice após loucas aventuras sexuais do primeiro-ministro italiano, mostrou um preocupante distanciamento do Secretário de Estado, sectores influentes dos bispos italianos, liderados pelo Cardeal Ruin, relacionados com a política conservadora de Silvio Berlusconi, ter esticado a sua relação com o pontífice alemão.


Um ano atrás, em 10 de março de 2009, numa carta incomum para os bispos da Igreja sobre a transferência da excomunhão do bispo Lefebvrians, provocou as posições conflituantes e uma crise interna, Bento XVI reconheceu que a Igreja vive tempos turbulentos com cristãos (...) e foi desencadeada uma avalanche de protestos, cuja amargura aumenta mais as feridas mais profundas que as nuas do momento."


Victor Messori, um mimado especialistas do Vaticano, disse que a pedofilia, apontando o dedo a Bento XVI, recorda a Igreja mas apenas em relação a seus filhos que traíram, levando ao desconforto e dá como exemplo o caso dos legionários, de condenação ao final de ressentimentos: Tanto que entre os legionários são aqueles que suspeitam que o Papa Ratzinger está mal aconselhado, ou faz mesmo parte de uma conspiração contra a poderosa Congregação.


Parece que o Papa poderia estar no meio de lutas palacianas, vinganças e guerras de posição, como se a aliança dentro da Igreja que levou ao trono foi quebrada ou está sendo renovada. Bento XVI declarou que a política será mantida, apesar das críticas em torno do Vaticano, mas a questão é: Como tanta pressão como se pode continuar a apoiar e acreditar na Igreja?


http://www.jornada.unam.mx/2010/03/31/index.php?section=opinion&article=016a1pol
Escrito por Eduardo Aquevedo
Traduzido do Espanhol
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quarta-feira, 9 de junho de 2010

Exército de Israel é cada vez mais controlado pela direita religiosa

Structure of the Israel Defense ForcesImage via Wikipedia

António Campos


Para compreendermos um pouco melhor a vergonhosa acção militar israelita tenhamos em atenção também o seguinte: O IDF está nas mãos dos religiosos. O exército não atrai leigos jovens de classe média, mas sim os pobres dos círculos mais conservadores. No entanto, alguns temem que a sua lealdade ao Estado em caso de evacuação dos colonatos, não seja total.


Se a esquerda perdeu a oportunidade de alcançar um acordo permanente com os palestinianos, eles também têm alguma responsabilidade por este fracasso. Mas durante aqueles anos perdidos, os de [Oslo 1993-2000], o exército israelita sofreu uma mudança profunda. Ela terá um papel crucial em qualquer futuro acordo, a organização no terreno, a retirada territorial e de evacuação dos colonatos. Mas o Exército de 2010 é mais do que em 1993 e a composição do corpo de oficiais de infantaria, para liderar as unidades de combate, foi completamente alterada. Em 1990, 2% dos cadetes eram religiosos, e agora são 30%. Seis dos sete coronéis da Brigada Golani são religiosos e, no verão de 2010, seu comandante irá ser religioso, quando três dos sete tenentes-coronéis Kfir Brigada de Infantaria de terrorismo [na Cisjordânia] usar o [gancho ] nacional-religioso. Da mesma forma, dois coronéis e seis na Brigada Golani e pára-quedistas também são nacional-religioso. Finalmente, em algumas brigadas de infantaria, mais de 50% dos comandantes locais são nacional-religioso, ou mais de três vezes a proporção da população nacional-religioso.


Não se está aqui a questionar o compromisso dos agentes da IDF e do Estado, mas permanece o facto de que eles são agora de proveniências muito diferentes do que as gerações anteriores. Vinte anos atrás, os policias e militares foram em grande parte do Gush Dan [Grande Tel Aviv] e claro Sharon [costeira entre Haifa e Tel Aviv]. Actualmente, a proporção de funcionários do IDEF nessas áreas agora é insignificante, e mesmo alguns oficiais de Tel Aviv são realmente dos distritos do sul pobre [e] conservadores. Em termos de números, uma tendência tem surgido desde o final dos anos 1990, na sequência da Guerra do Líbano [1982-1984] e a primeira Intifada [1988-1992], o número de israelitas da esquerda [Partido Trabalhista] e os membros do kibutz matriculados na Ecole Militaire nº. 1 [que treina oficiais do exército] tem diminuído. Agora, esse segmento da população [implícita: Ashkenazi e Trabalho] é mais presente do que nas fileiras da Aman, inteligência militar, o exército e as unidades de reconhecimento aéreo. Este desinteresse está agora começando a ser sentido no perfil dos oficiais superiores que se aplicam no topo do exército, e este fenómeno vai continuar a aumentar durante os próximos quinze anos.


O IDF continua a enganar os Territórios Palestinianos, prestando assistência discreta aos postos avançados ilegais. Mas a esquerda secular tem a responsabilidade de, abandonando as filiais regionais e locais do exército para se concentrar na aviação e Estado Maior General, criando um vácuo em grande parte da organização militar, vazio que foi preenchido por outras pessoas. Muitas pessoas de nível superior da hierarquia, consideram que não haverá outra alternativa senão realizar uma evacuação em massa dos colonatos. Mas eles sabem muito bem que a próxima saída será muito mais difícil do que a de Gush Katif [bloco de ocupações na Faixa de Gaza evacuados em agosto de 2005]. Em caso de desistência, muitos comandantes locais, provavelmente, vão obedecer as ordens de seus superiores. Mas é difícil imaginar que os funcionários dos estabelecimentos, como Kfar Tapuah ou Kedumim ultranacionalista [em torno de Nablus run] sem se queixar sobre um resgate dos judeus de suas casas. Não é de surpreender que o mais alto da hierarquia militar tem medo desse cenário. Quando se aproximar a hora da próxima saída, talvez o Governo escolha enviar recrutas para fortalecer a equipa de guardas de fronteira [polícias], porque agora parece imprudente confiar unicamente nos oficiais de carreira do exército regular.


1 de Junho de 2010 | Escrito por Eduardo Dias Costa
Traduzido do francês


http://www.courrierinternational.com/article/2010/05/26/tsahal-aux-mains-des-religieux




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segunda-feira, 7 de junho de 2010

Velhice e relações familiares

old peopleImage by davelocity via Flickr

António Campos


Um dos aspectos fundamentais da família conjugal contemporânea, que gradualmente se foi transformando numa instância privilegiada da intimidade e do privado, é o facto de ela ser essencialmente relacional, ou seja, de ter aumentado a importância que os seus membros atribuem à afectividade. Ao mesmo tempo, estes passaram a gozar também de uma maior independência face a esta família e aos círculos mais amplos do parentesco tendo, entretanto, adquirido maior dependência face ao Estado.


A desvalorização dos laços de dependência entre os elementos, não só no interior do grupo doméstico, como entre os vários círculos familiares, cria uma certa distância entre eles, facto que permite negociar a manutenção das boas relações e a criação de espaços comuns onde se identificam os membros de uma mesma família. São as relações entre homens e mulheres, pais e filhos, avós e netos, tios e sobrinhos que dão vida e sentido à essência da família.


Segundo Philippe Ariés, que estudou a criança e a família durante o Antigo Regime, a passagem da família antiga à família moderna opera-se, fundamentalmente, através de uma mudança interna de relação com a criança. É uma mudança gradual que é marcada pela importância que adquire a educação, de início praticada particularmente - aprendia-se em casa de outra família as boas maneiras, ou uma profissão, ou a ler, escrever e contar - e posteriormente através da escola.


A evolução da família moderna contemporânea assenta numa ideia da família centrada sobre as pessoas e não sobre as coisas e completa-se num papel decisivo desempenhado pela escola.


Contudo, tanto a família tradicional do Antigo Regime como a família moderna contemporânea prosseguem objectivos comuns: contribuir para a reprodução biológica e social procurando, de uma geração a outra, melhorar ou apenas manter a posição que ocupa no espaço social. As divergências entre os dois tipos de família não são quanto à sua essência, mas quanto aos meios que utilizam. A função de reprodução social desempenhada pela família persiste, mas é, de certa forma, ocultada por transformações ocorridas nos modos de transmissão. A mudança fundamental é a importância atribuída à escola e ao capital escolar adquirido através dela, na determinação da posição social. A família vê-se obrigada a mudar de estratégia, neste caso a recorrer à estratégia educativa(…).


Segundo Remi Lenoir, vários factores concorreram para modificar a posição da família no "sistema das instâncias que concorrem para a reprodução da estrutura social". Entre eles o alargamento do espaço económico e o consequente desenvolvimento de mecanismos objectivos e institucionalizados que produzem e garantem a distribuição de títulos escolares ou profissionais e mesmo nobiliárquicos, monetários ou financeiros, assim como as condições de formação e de gestão da mão-de-obra e da produção e circulação de bens económicos. O declínio numérico e social das empresas familiares indica o desaparecimento de uma concepção inseparavelmente económica e moral da família. Esta representação social da família tende, se não a desaparecer, pelo menos a dar lugar a novas representações e a novos usos da família que correspondem à transformação da empresa doméstica e da empresa industrial e comercial levada a cabo pelas modificações do campo económico.


Este processo de transformações, que consiste no desmoronamento das bases sociais em que assenta o familismo tradicional, é designado, pelo autor, por desfamilização.


Um dos factores que está na origem do fenómeno é o acesso quase generalizado das mulheres às instituições e aos instrumentos que concorrem para a reprodução da estrutura social, especialmente o sistema escolar e o trabalho assalariado fora da agricultura. A divisão do trabalho dentro do grupo doméstico reparte-se pelo trabalho doméstico propriamente dito e pelas tarefas quotidianas decorrentes das funções maternais. Estas, pelas características intrínsecas de envolvimento presencial, são as que mais profundamente são afectadas pela continuidade e racionalidade que caracterizam a actividade profissional.


Segundo Lenoir, o que está em jogo, nestas circunstâncias, são as condições, quer da reprodução biológica, uma vez que a fecundidade pode variar consoante o exercício de uma actividade profissional pela mulher, quer da reprodução social, uma vez que se transformou a ordem familiar delegando a instituições especializadas as tarefas de socialização e educação das crianças.


Assim, a quase generalização do trabalho das mulheres inscreve-se na transformação mais geral do regime demográfico caracterizado pela elevação da idade de casamento e do nascimento do primeiro filho, pela redução do número de filhos e consecutivamente pelo abaixamento da idade de vinda do último filho e do período dedicado à maternidade.


De modo geral, ainda segundo Remi Lenoir, a formação do património das famílias depende cada vez menos directamente da herança. Estas transformações na constituição do património das famílias envolvem outros elementos até aqui inexistentes como sejam a participação em formas de poupança colectivas, indolores e em alguns casos obrigatórias, tais como os descontos para a reforma ou assistência na doença e que substituem modos individuais de poupança e protecção. O recurso ao crédito, facilitado por novas formas institucionalizadas de remuneração dos lucros, ligado ao desenvolvimento do salariado, permite acumular património com menos esforço.


O processo de desfamilização das relações familiares é acompanhado de todo um trabalho colectivo de gestão material e simbólica da família que enforma numa codificação das práticas de puericultura, medico-pedagógicas e das condições de trabalho das mulheres e das crianças, Mas, sobretudo a criação dos seguros sociais que tendem, por um lado, a fazer sair da esfera familiar privada o encargo económico dos pais idosos que se tornam então pessoas idosas sustentadas por sistemas de reforma obrigatória e, por outro, visam compensar os custos que representam a educação das crianças, o crescimento considerável da protecção maternal e infantil e a extensão e a profissionalização dos serviços sociais, ou ainda a evolução e o desenvolvimento do direito da família.


As disposições do direito da família, que são comandadas pela gestão e transmissão do património, determinam os sentimentos respectivos dos pais e dos filhos, fazendo passar estas relações do domínio privado para o público, dando-lhes legitimidade, constituem uma parte da realidade das trocas familiares.


Os efeitos da gestão colectiva da família são pouco visíveis, especialmente se se trata de organismos burocráticos ou burocratizados equipados com agentes especializados que funcionam com regras estandardizadas. Podem, contudo, ser observados através das normas que constituem o direito social da família e que fazem sair do âmbito familiar o que pertencia directamente às relações de parentesco fazendo com que passem para organismos que, como as caixas de previdência e reforma, gerem as relações entre as gerações(…).


In, Velhice e Sociedade, Ana Alexandra Fernandes, 1997 (adaptado)




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sexta-feira, 4 de junho de 2010

A censura é o próprio poder

No More Censorship coverImage via Wikipedia

António Campos


Você mostra em seus ensaios que a principal função dos meios de comunicação de massa da imprensa, rádio, televisão e da Internet é "convencer todas as pessoas da sua adesão às ideias das classes dominantes". Como eles conseguem chegar a um consenso por parte do público?


Para isso, os média usam várias técnicas que dependem de cada caso concreto e o perfil social dos receptores. Mas onde eles são mais bem sucedidos é, de facto, para nos convencer de que o conteúdo de suas informações é neutro, objectivo e imparcial ... o público acredita que tem algo a ser asséptico. O segredo é conseguir uma intencionalidade "informativa" para que os cidadãos não percebam isso. O momento em que foram feitas para engolir discursos intermináveis e artigos de opinião sedutores e rosa. Em outras circunstâncias, os média apresentam como a opinião da maioria dos cidadãos apenas a opinião editorial dos meios de comunicação respectivos. Da mesma forma, a linguagem é manipulada para servir aos interesses das classes dominantes. Palavras e conceitos que devem deixar de existir no imaginário coletivo, como o de "classes sociais"e até mesmo desaparecer.


Geralmente pensamos que as ditaduras só censuram os média. Mas há novas formas de utilizar métodos de censura muito mais subtis. Quais são os principais mecanismos?


A censura tradicional era proibir transmitir informações ou opiniões que não agradassem ao governo. Hoje, em nome da liberdade de expressão, divulga-se mentiras e falsificações com total impunidade. Neste caminho, a verdade termina e fica escondida entre trivialidades, o resultado é o mesmo que censura. Outras vezes, não são os elementos do contexto ou background necessário para entender um caso polémico, que censura o evento em toda a sua complexidade.


Em 26 de março, Wikileaks (investigação site militante. Nota do GS) criticou o plano da CIA para lançar uma campanha na Europa, principalmente França e Alemanha, com o objectivo de influenciar a opinião pública em favor a guerra no Afeganistão. Esta informação foi ignorada por todos os grandes meios de comunicação de ambos os países. Quem filtra as informações ?


Os principais meios de comunicação são apenas as transportadoras de poderosos grupos económicos. Os interesses, valores e princípios destes grupos irão utilizar filtros para seleccionar o que é publicado ou não. Outros lobbies necessários, que não são necessariamente accionistas também irão influenciar. Por exemplo: os anunciantes, as empresas que trabalham com os média, governos amigos, etc. ...


Escondendo o facto de que o governo venezuelano tem tomado medidas para proteger a sua população de especulação por parte dos contratantes, a agência estadual de Alemanha Trade & Invest escreveu em um relatório no final de janeiro de 2010: "A desvantagem para os empresários é o facto de que eles são removidos através do supra-facturamento. Essas desvantagens "seriam a causa da guerra desencadeada pelos média do país neoliberal contra o presidente Hugo Chávez?


Os governos progressistas da América Latina são um desafio para o modelo neoliberal dos países ricos. Eles demonstraram que têm o apoio das massas, que ganham as eleições para além dos grandes, que defende o povo para além das urnas os governos com uma paixão impressionante, conseguiram inimagináveis melhorias sociais maiores do que sob os regimes neoliberais dos anos 90, o Estado pode (e deve) desempenhar um papel importante na economia e em sectores estratégicos, recursos naturais e deve ser público e nacional. Tudo isto implica uma perda de terreno para a disseminação do neoliberalismo e pode provocar uma reacção agressiva dos poderes económicos globais. É através dos meios de comunicação - hoje os domínios prioritários de batalha - que é obtida a adesão da opinião pública, condição sine qua non para a imposição de ataques futuros.


O que significa que as pessoas têm de reconhecer a informação real das mentiras. Quais as referências teóricas que eles têm como uma escolha?


No jornalismo, como acontece na medicina, você deve acreditar num meio de comunicação ou jornalista da mesma forma que você pode confiar num cirurgião para operar o seu coração. Uma vez que normalmente não podemos ir para o Afeganistão para ver o que está acontecendo, temos que confiar nele que está informando sobre os factos do país. O primeiro passo é saber quem é o chefe dos meios de comunicação, qual a empresa ou que interesses estão por trás dele. Ele pode merecer a nossa confiança só se sabe que este é um projecto independente de grupos de empresários. Do mesmo modo, devemos detectar os analistas e jornalistas honestos e rigorosos, especializados em temas diferentes. No meu livro "desinformação" Faço propostas nesse sentido. Por outro lado, devemos conhecer a gama de movimentos sociais, a fim de procurar os seus conselhos. Eles sabem lidar com as fontes e informações valiosas que os média não nos dão.


http://www.legrandsoir.info/La-censure-est-le-propre-du-pouvoir.html


Entrevista com Pascual Serrano Romalo
por Manola
Traduzido e adaptado do francês



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quarta-feira, 2 de junho de 2010

O declínio da União Europeia e de Portugal no mundo actual 2)

Location map: Portugal (dark green) / European...Image via Wikipedia


António Campos


OS DESEQUILÍBRIOS MUNDIAIS E NO INTERIOR DA UNIÃO EUROPEIA VÃO-SE AGRAVAR

Uma das causas da crise actual foi a acumulação dos desequilíbrios mundiais, provocada por uma globalização capitalista selvagem que liberalizou sem quaisquer regras o comércio mundial, o que está a determinar o declínio de economias como a da União Europeia e de Portugal, e o agravamento das desigualdades quer a nível mundial quer no interior de cada país.

A política seguida pelos países produtores de petróleo, pela Alemanha, e pela própria China, que têm acumulado elevados saldos positivos nas suas Balanças de Pagamentos Correntes e que, no lugar de os utilizarem para reduzir as desigualdades sociais internas e aumentar o nível de vida das suas populações, têm ou investido na compra de títulos da dívida pública americana (só a China investiu cerca de 800.000 milhões de dólares, a maior parte deles depois certamente canalizados para a indústria de guerra americana, ao mesmo tempo que tem adquirido grandes empresas nos países capitalistas), ou aplicado directamente em investimentos especulativos (muitos bancos alemães foram fortemente afectados pela crise do subprime), permitindo assim a canalização de meios financeiros gigantescos para a especulação financeira, criou as condições que levaram à crise actual, com consequências catastróficas, quer económicas, quer sociais.
E, segundo as previsões do FMI, aqueles desequilíbrios continuarão a agravar-se. Assim, no período 2010-2015, o saldo anual da Balança de Pagamentos Correntes da Alemanha será positivo e corresponderá a 4,9% do PIB; o da China será também positivo, atingindo 6,9% do PIB, enquanto o dos EUA será negativo e corresponderá a –3,4% do PIB; o da Zona Euro será nulo (0%), e o de Portugal será negativo e atingirá em média, anualmente, o elevado valor de –9,4% do PIB. Se isso efectivamente acontecer, o declínio e as dificuldades de Portugal num quadro de crescimento anémico vão certamente aumentar ainda mais.

A DÍVIDA EXTERNA DE PORTUGAL VAI CONTINUAR A AUMENTAR A UM RITMO ELEVADO

No período 2006-2009, o PIB português a preços correntes aumentou apenas 5,2%, mas a Dívida Líquida Externa cresceu 44,9% (atingindo 111,7% do PIB) e a Dívida Bruta subiu 21,1% (atingindo 298,1% do PIB). E esta dívida enorme vai continuar a crescer a um ritmo elevado.
Utilizando as previsões do FMI do saldo da Balança de Pagamentos Correntes e do crescimento do PIB no período 2010-2015, estimamos que o saldo negativo acumulado na Balança de Pagamentos Correntes de Portugal some 98.416,5 milhões €, o que corresponde a 56% da média dos valores do PIB no mesmo período, o que fará disparar a dívida de Portugal ao estrangeiro.

É URGENTE SUBSTITUIR A OBSESSÃO DE REDUZIR O DÉFICE ORÇAMENTAL PARA MENOS DE 3%, POR UMA POLÍTICA QUE TENHA COMO OBJECTIVO O CRESCIMENTO ECONÓMICO SUPERIOR A 3%

É urgente substituir a actual política de estrangulamento e definhamento do crescimento económico por uma política que tenha como objectivo principal o crescimento económico. No lugar de um PEC que pretende reduzir o défice orçamental para menos de 3%, a UE e Portugal precisam é de um Programa que tenha como objectivo principal alcançar uma taxa de crescimento económico superior a 3%. O grande obstáculo a tal mudança é o bloqueio em que estão os dirigentes políticos e os economistas defensores do pensamento oficial com acesso privilegiado aos media, que são incapazes de definir uma estratégia de desenvolvimento para a UE e para Portugal, e limitam-se a papaguear a defesa de uma política de consolidação orçamental em plena crise económica, o que está a conduzir a Europa e Portugal ao declínio. É uma fuga cega para a frente que só pode levar ao declínio e ao desastre. É chocante constatar que a UE não tem qualquer estratégia a não ser a consolidação orçamental. Não deixa de ser curioso que um país como os EUA, que conduziu o mundo à crise actual, fortemente endividado, com uma Balança Comercial altamente deficitária, e com um défice orçamental gigantesco, esteja neste momento mais interessado em recuperar o crescimento económico do que preocupado com a consolidação orçamental que tanto preocupa os governos da Europa e o pensamento económico dominante.

Em Portugal, a política dominada pela obsessão do défice tem sido ruinosa para a nossa economia, já que tem determinado taxas de crescimento anémicas, em muitos anos até inferiores a 1%. Para além disso, esta política está a ter graves consequências sociais. Segundo o FMI, o desemprego oficial atingirá em Portugal 11% em 2010 e 10,3% em 2011, o que corresponde a 614,5 mil desempregados este ano. Mas a este número oficial de desempregados há ainda a acrescentar os 140 mil desempregados que não constam das estatísticas oficiais, ou por não terem procurado emprego no período em que foi feito o inquérito (aqueles a que o INE designa como “inactivos disponíveis”), ou por fazerem pequenos biscates para sobreviverem (o chamado “subemprego visível”). Se somarmos também estes desempregados ao desemprego oficial, o número total de desempregados em 2010 atingirá certamente os 750 mil, ou seja, uma taxa de desemprego superior a 13%, portanto valores que nunca foram atingidos em Portugal depois do 25 de Abril. Substituir a política de redução do défice em plena crise económica por uma política que tenha como objectivo o crescimento económico é um imperativo nacional. Adiar por mais tempo esse desiderato é condenar Portugal ao declínio e ao retrocesso económico e social. É difícil inverter esta política, mas é necessário e “ nós podemos” (we can).

De Eugénio Rosa, 26 de Abril de 2010 (adaptado)- conclusão


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segunda-feira, 31 de maio de 2010

O declínio da União Europeia e de Portugal no mundo actual 1)

European court of JusticeImage by gwenael.piaser via Flickr


António Campos


O FMI acabou de divulgar as “Perspectivas da Economia Mundial: Reequilibrar o crescimento”, onde apresenta previsões até 2015. Apesar da fragilidade dessas previsões, elas revelam uma tendência clara de declínio da UE e de Portugal. Segundo o FMI, no período 1992-2001, a taxa anual de crescimento económico na Zona Euro foi de 2,1% e, em Portugal, de 2,9%. Mas, a partir de 2001, certamente como consequência dos Pactos de Estabilidade, preocupados apenas com a redução do défice orçamental, a quebra no crescimento económico foi acentuada. Entre 2002 e 2009, a média das taxas anuais de crescimento na Zona do Euro baixou para 1%, e em Portugal para apenas 0,4%. As previsões do FMI para o período 2010 -2015 revelam que o declínio vai continuar, já que a média das taxas anuais de crescimento neste período será apenas 1,4% na Zona do Euro e de 0,8% em Portugal (quase metade).

Se compararmos as taxas de crescimento económico previstas pelo FMI para o período 2010-2015 para a Zona do Euro (1,4%/ano) e para Portugal (0,8%/ano), com as previstas também pelo FMI para as “Economias Avançadas” (2,3%/ano) e para os EUA (2,7%/ano), conclui-se que os desequilíbrios mundiais vão-se acentuar. E isto porque as taxas de crescimento económico das “Economias avançadas” e dos EUA são quase o dobro das previstas para a Zona do Euro, e o triplo das previstas para Portugal. E isto já para não referir a China, com taxas anuais de crescimento que se situam entre os 9% e os 10%. O declínio da UE e, com ela, de Portugal é evidente no mundo actual e vai continuar a um ritmo acelerado se persistir na mesma política.

Um dos aspectos que caracteriza o discurso político oficial, assim como o do pensamento económico dominante com acesso fácil aos media é o silêncio face à previsão da continuação do aumento rápido do endividamento do País ao estrangeiro, apesar de ser um problema muito mais grave do que o défice orçamental. No fim de 2009, segundo o Banco de Portugal, a Dívida Líquida do País ao estrangeiro atingiu 182.595,4 milhões € (111,7% do PIB); e a Dívida Bruta Externa de Portugal somava já 487.675,7 milhões € (298,1% do PIB). Para o período 2010-2015, utilizando as previsões do FMI do saldo da Balança de Pagamentos Correntes Portuguesa, estimamos que os saldos negativos acumulados nesta Balança somem 98.416,5 milhões de euros, o que corresponde a 56% da média dos valores do PIB no mesmo período. Face a estes valores e à chantagem e especulação a que está a ser sujeita neste momento a Grécia, qualquer português deve-se sentir preocupado, até pelos sacrifícios que isso no futuro poderá causar. No entanto, nem o governo nem o pensamento económico dominante, obcecados com o défice orçamental, manifestam o mesmo, pois o seu silêncio sobre a dívida é quase total quando defendem o PEC.

É urgente inverter a actual política de estrangulamento e definhamento do crescimento económico e substituí-la por uma política que tenha como objectivo principal o crescimento económico. No lugar de um PEC que pretende reduzir o défice orçamental para menos de 3%, é necessário é um Programa de Crescimento que tenha como objectivo principal alcançar uma taxa de crescimento económico superior a 3%. O problema é que os dirigentes políticos europeus e os economistas defensores do pensamento oficial com acesso privilegiado aos media, que condicionam a opinião pública, estão bloqueados e incapazes de definir uma estratégia de desenvolvimento para a Europa e para Portugal, e limitam-se a papaguear a consolidação do défice num período de forte crise económica, quando isso só pode conduzir a UE e Portugal ao declínio, como está a acontecer. É uma fuga para a frente que só pode levar ao desastre e ao retrocesso. A UE não tem futuro com tal política e com a liberalização do comércio mundial sem regras, de que se aproveitam países como a China e a Índia, onde as desigualdades sociais e salariais em relação à Zona Euro são enormes. É chocante constatar que a UE não tem qualquer estratégia a não ser a consolidação do défice com a ilusão de que depois o desenvolvimento surgirá como por milagre. A realidade é bem diferente, e a UE e Portugal só poderão sair mais pobres e enfraquecidos.

Devia servir de reflexão que um país como os EUA, que levou o mundo à crise actual, fortemente endividado, com uma Balança Comercial altamente deficitária, e com um défice orçamental gigantesco, esteja neste momento mais interessado em recuperar o crescimento económico do que preocupado com a consolidação orçamental que tanto fascina os governos da União Europeia e o pensamento económico dominante. Portugal, com um desemprego que atingirá em 2010, segundo o FMI, 11% (614 mil desempregados oficiais, a que se devem somar mais 140 mil que não constam das estatísticas oficiais de desemprego), precisa mais do que qualquer outro país de um Programa de Crescimento Económico, e não de um programa de declínio como é o PEC.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) publicou já em Abril deste ano as “Perspectivas da Economia Mundial: Reequilibrar o crescimento”, onde apresenta previsões até 2015. Estas previsões valem o que valem, o mesmo acontecendo com as da CE, do Banco de Portugal e do governo, mas apesar da sua relatividade elas mostram que UE e, com ela, também Portugal caminham para o rápido declínio se a política que tem sido seguida não for rapidamente substituída. E não se pode dizer que o FMI não seja “amigo” do governo de Sócrates; muito pelo contrário, ele até avaliou positivamente o PEC: 2010-2013 apresentado por este governo(…).

No período 1992-2001, a taxa média anual de crescimento económico na Zona Euro foi de 2,1% e, em Portugal, de 2,9%, o que permitiu ao nosso País convergir para a União Europeia.
A partir daquela data, com os Pactos de Estabilidade, centrados na redução rápida do défice orçamental, a quebra no crescimento económico foi visível, tanto na UE como em Portugal, sendo muito maior no nosso País. Entre 2002 e 2009, a média das taxas de crescimento na Zona do Euro baixou para 1%, e a de Portugal para apenas 0,4%. O declínio é evidente. E as previsões do FMI para o período 2010-2015 revelam que esse declínio vai continuar. Segundo o FMI, a média das taxas de crescimento anuais no período 2010-2015 será apenas 1,4% na Zona do Euro e de somente 0,8% em Portugal, ou seja, menos de metade (57% da Zona Euro).

Se compararmos as taxas de crescimento económico para o período 2010-2015 previstas pelo FMI para a Zona do Euro (1,4% ao ano) e para Portugal (0,8% ao ano), com as previstas pelo FMI para as “Economias Avançadas” (2,3%/ano) e para os EUA (2,7%/ano), conclui-se que os desequilíbrios mundiais vão-se acentuar. E isto porque as taxas de crescimento económico previstas para as “Economias avançadas” e para os EUA são o dobro das previstas para a Zona do Euro, e o triplo das previstas para Portugal. E isto já para não fazer comparações com as chamadas “Economias Emergentes”, onde a China ocupa um lugar de destaque, com taxas anuais de crescimento económico entre os 9% e os 10%.

É esclarecedor observar que naqueles países que durante vários anos foram apresentados como modelos a seguir por Portugal – a Irlanda e a Finlândia – as taxas de crescimento previstas para os anos 2010, 2011 e 2015 se situam entre 1% e 1,8%.

Em resumo, a União Europeia está bem longe do objectivo enunciado na Agenda de Lisboa, o de ser o espaço económico mais competitivo e mais avançado no domínio do conhecimento. No lugar da concretização desse objectivo ambicioso, tem pela frente o declínio, se não for capaz de alterar as políticas que tem seguido(…).

De Eugénio Rosa; 26 de Abril de 2010 (adaptado)

Continua……..


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