terça-feira, 17 de maio de 2011

Milhares de tarrafais

Domestic Violence Free ZoneImage by QXZ via Flickr

António Campos


A insegurança e a criminalidade são temas muito do apreço dos que vivem do medo. Não que sejam irrelevantes. Eles limitam o bem mais precioso para qualquer sociedade que se queira decente – a liberdade – e são sintomas da desigualdade. Mas, quase sempre, aqueles que as têm como prioridades do debate político usam-na para nos oferecer como cura a própria doença: limitar ainda mais a nossa liberdade e promover, através do estigma, a desigualdade. Não é por isso de espantar que a criminalidade que não sirva esta agenda raramente esteja na ordem do dia.

Exemplo: a violência doméstica, que tem as mulheres como vítima quase exclusivas. Passa-se dentro de portas, não parece perturbar o quotidiano dos que não a experimentam e destrói essa cândida ideia que temos de nós de próprios enquanto sociedade moderna e evoluída. Este ano já tirou a vida a trinta mulheres. E estes são apenas os casos limite. Os espancamentos, as limitações violentas à liberdade individual, as humilhações que destroem até aos ossos a auto-estima de tantos seres humanos são banais. Fazem parte de um quotidiano que olhos e ouvidos de tantos decidem ignorar. Porque entre marido e mulher não se mete a colher.

Escondida entre quatro paredes, a violência doméstica deixa a vítima na mais completa e angustiante solidão. Muitas vezes corroída pela culpa, numa sociedade que ainda aceita com naturalidade que alguém pode ser propriedade de alguém. Que infantiliza as mulheres, tratando-a como um mero adereço. Que as trata como palradoras compulsivas, fadas do lar ou meninas mimadas viciadas em compras, que cada classe social trata dos seus próprios estereótipos. Que convive bem com a figura da “primeira-dama”, uma espécie de penacho de um Chefe de Estado. Que pergunta a uma mulher como concilia a vida familiar com a vida profissional mas nunca se lembra de fazer a mesma pergunta a um homem. Que trata a infidelidade masculina como sinal de virilidade e a infidelidade feminina como sinal de promiscuidade. Que paga, em média, mais aos homens do que às mulheres pelo mesmo trabalho. Que, tendo mais mulheres a sair das faculdades, não as deixa chegar aos lugares de topo, porque homem que é homem não aceita ordens de mulher. Que vê a função de “doméstica” com uma estranha naturalidade e a de “doméstico” como uma bizarria.

Uma mulher que me ensinou desde o meu nascimento muito do que sei fez-me saber sempre uma verdade fria: só é realmente independente e livre quem pode garantir o seu próprio sustento. Quando se pode fechar a porta sem olhar para trás. Por isso, podemos mudar muitas leis (e, ao tornar a violência doméstica num crime público, deixámos claro que, como comunidade, não aceitamos ficar em silêncio), mas nada conseguiremos enquanto as mulheres não conquistarem a igualdade como profissionais, trabalhadoras e cidadãs.

Só aí a violência doméstica deixará de ser uma questão de género. Só aí, milhares de homens demasiado inseguros para amar uma igual deixarão de conseguir transformar as suas casas em campos de concentração. Só aí conseguiremos punir estes selvagens como merecem. Só aí passarão a ser olhados com asco pelos seus vizinhos, amigos e familiares. Só aí ficarão sós até meterem nas suas fracas cabeças que ninguém pertence a ninguém. Só quando for maior vergonha ser um agressor do que ser “corno”, “banana” ou apenas civilizado, é que estriparemos do nosso quotidiano este crime que confunde amor com tortura. Só aí faremos justiça às trinta mulheres assassinadas em 2010 pelos seus companheiros, maridos ou namorados. No século XXI. Num país europeu.

Daniel Oliveira
Nov.2010

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sexta-feira, 13 de maio de 2011

Educar

Photo of Paulo FreireImage via Wikipedia



António Campos


Gostaria de partilhar com o leitor os primeiros conceitos que formaram a ciência da Antropologia. Enquanto pesquisava, encontrei as melhores ideias do melhor educador que conheci, além de Paulo Freire: o meu antigo professor, já falecido, Meyer Fortes.

O seu sentido da educação era profundo. Há uma história sobre ele, não estou certo de a ter transferido já ou não, por isso volto a referi-la da forma e maneira que Meyer Fortes me contou: corriam os anos 40, de facto, em 1945 do século passado, estudava a etnia Tallensi do Ghana (antiga Costa do Ouro) do Norte e um membro de chefia Tallensi, contava-me um episódio que tinha acontecido dentro da sua família, uma das suas filhas tinha sido violada por um guerreiro, que são os que mais ordenam, defendem o povo, arriscam a sua vida pelos outros, especialmente nas eternas guerras com os Ashante, os seus vizinhos, quer um quer outro entravam em terras que não eram deles, para pilhar. Numa dessas pilhagens a sua filha tinha sido abusada por um guerreiro Ashante. Contra os guerreiros nada pode ser feito, pelo que teve que aceitar o facto e adoptar a neta como filha. Como, aliás, acontece em muitos povos, os mais novos são filhos de todos os pais jovens se são da mesma fratria ou clã. Entre os Mapuche do Chile, no outro extremo do mundo, que tenho estudado durante anos, a família é semelhante, como entre os Massim da Melanésia, analisados por Malinowski ao longo de mais de dez anos, entre 1914 a 1922. Morava com eles, como Meyer com os povos mencionados e eu, com o clã Picunche da Nação Mapuche que habita no Chile e na Argentina.

Esta história, foi-lhe contada em frente de uma neta de poucos anos de idade. Puritano como era, Meyer perguntou ao Chefe, se era conveniente tratar de assuntos como este em frente de uma criança. Surpreendido, o seu interlocutor perguntou: e porque não? Por acaso ela não tem o direito a saber a história da sua família e a do seu povo? Como quer que narre a realidade e assim ela aprenda os factos que acontecem entre eles e que, se um dia lhe acontecer, saiba o que fazer. Saiba respeitar a quem merece e defender-se de quem não merece. Foi uma lição para Meyer. Aliás, foi assim que soube também como os Tallensi, tal como fazem os Ashante, ensinam cálculo de uma maneira sábia. Ainda meninos, são-lhes oferecidos pintainhos que os pequenos devem tomar conta e ao juntarem uma boa quantidade, as galinhas são trocadas por pequenos bisontes, porcos ou javalis, forma de acumular riqueza entre estes povos, e assim, na hora de casarem e formar um grupo doméstico, têm bens suficientes para tratar da sua família na terra comunal do clã de qualquer de um destes povos. Os mais novos aprendem agricultura e, já púberes, os guerreiros escolhem os mais fortes e ensinam-lhes artes marciais. A categoria adquirida é das mais altas, como narra o meu antigo professor, no seu texto de 1938: Sociological and psychological aspects of education in Taleland, na revista África, Vol. XI, nº 4, Londres, número especial.
Parece, caro leitor, que a educação entre estes povos é analógica, por outras palavras, a aprendizagem é por repetição, sistema abandonado pelas formas modernas de educar, que introduziu a dialéctica dentro dos estudos: parte da aprendizagem como é analisada por mim em 1994: educação, ensino ou aprendizagem?Texto ao que pode aceder aqui.

Educar é transferir o saber de uma geração para outra, cada vez mais corrigida e enriquecida pelos novos saberes. Parte deste processo, é ensinar lógica analógica; outra é deduzir ou lógica contraditória, aprendida pelos mais novos ao comparar um facto com outros diferentes (como a história de Portugal e a das suas colónias). Como narrativa, é a melhor forma de entender a realidade sócio histórica de um povo. Ou, para aprender aritmética, levar as crianças para o terreno para medir a terra, saber quantas sementes podem ai ser enterradas, calcular o tempo das colheitas ou ser-lhes explicado quantos grãos de trigo cabem dentro dos sulcos, a distância ente os grãos, para não ter uma colheita tão junta, que não se consegue cortar ou segar. Um exemplo: 8 foices de segar trigo são 4 foices de roçar o produto.

Educar, porém, é domesticar a mente selvagem da criança que ainda não sabe calcular. A melhor escola é o trabalho, mas a lei manda ir à escola e estudar como nas academias da Grécia Clássica: textos, explicações, mas sem prática nenhuma.

Como tenho dito noutros textos: educar é um conjunto de normas pedagógicas tendentes ao desenvolvimento geral do corpo e do espírito; conhecimento e prática dos usos da gente fina. Ou ainda, instrução, polidez e cortesia.

A primeira cortesia devia ser dos órgãos de soberania, para não mudar, como entende, os docentes de uma para outra escola nos anos seguintes. Sobretudo os docentes de Educação Especial que sabem ensinar crianças incapacitadas, favor que a nossa soberania nunca tem feito: cada ano os locais de ensino são diferentes sem as assembleias de pais serem consultadas. Assim, deparamo-nos com uma realidade injusta, fundamentalmente, para a criança, que para ser incentivada a aprender é punida na escola ou em casa…sítio em que falta a paciência aos adultos e o desejo de estudar à criança. A casa é para viver, a escola, para aprender.

Raul Iturra
Nov.2010

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terça-feira, 10 de maio de 2011

Atoardas, falatórios, boatos e até calúnias...

Rumor Has It…Image via Wikipedia



António Campos


Sempre que alguém anuncia que vai procurar explicar como nasce, cresce e morre um boato, vou logo a correr, pressuroso, procurar perceber o que está por detrás do permanente sucesso do meio de comunicação mais antigo do mundo, baseado no” diz-se” e “consta”.

Em “Mitos Urbanos e Boatos”, a jornalista Susana André afoita-se numa investigação em torno de boatos consolidados, nacionais e estrangeiros, conta histórias de medos, de sexo, de ocorrências fantásticas, de assassinatos de carácter, guerras entre empresas, presunções, investidas e insidias com racismo, religião, ajustes de contas; ilustra até com histórias que se contam sobre gente famosa e que não têm nenhuma base de sustentação (A Esfera dos Livros, 2010.O que singulariza o boato? Algo de quem ninguém sabe a fonte, é posto a correr nas ruas, nos locais de trabalho, na internet.

Por mais que se procure o seu controlo, o boato, que goza de má fama, mas que nos faz pôr o nariz no ar, às vezes nasce de confusão ou mesmo de uma réstia de fundamento, sobrevive e eclode como vírus potente. É um fenómeno social incontrolável. Todas as explicações em torno do boato ficam obrigatoriamente incompletas: podem justificá-lo como catarse, podem corresponder a pavores que mobilizam multidões, actuando premonitoriamente, à frente dos investigadores, podem ser peças de propaganda, podem ser o que os antropólogos, sociólogos e psicólogos possam supor, mas nunca o boato cabe numa norma plausível e universal, é o media mais imprevisível de todos os tempos.

Susana André começa por se debruçar sobre os mitos urbanos, pequenas histórias com argumentos fantásticos, com difusão à margem da comunicação social. São relatos que muitas vezes provocam angústia ou apreensão, insegurança, pavores sociais. Como ela escreve: “Para garantirem a eficácia da propagação, os mitos urbanos vestem muitas vezes a capa do bom samaritano; simulam alertas sobre situações de alegado perigo e apelam à necessidade de criar correntes de solidariedade que ajudem a travar os acontecimentos que narram: agulhas infectadas nas cadeiras dos cinemas, tatuagens infantis impregnadas de LSD, assassinos nos bancos traseiros dos carros”. São apresentados como alertas. Parecem cativar através de apelos à transmissão de muitos outros, são muitas vezes tomados como factos verdadeiros. São relatos instáveis, misturam conto e boato, lenda e fantasia, dados aparentemente credíveis e mentiras monumentais. Como é evidente, estas lendas urbanas pesam na opinião pública desacautelada, que muitas vezes se rende facilmente à aparente boa vontade de quem nos vem alertar, até disfarçado de entidade científica.

Mudando de agulha Susana André passa para os escândalos sexuais, o boato em que o político, o futebolista ou cançonetista têm envolvimentos com foros de escândalo. Também aqui ninguém afiança a proveniência da notícia, a origem é indetectável. O mesmo se dirá de heróis, ídolos, galãs, políticos que afinal não morreram e estão vivos, quem desapareceu foi um sósia: é um universo de especulações onde cabe Adolfo Hitler, Paul McCartney ou Jim Morrison. Passando para o noticiário e para a imagem, a autora lembra-nos o arrastão de Carcavelos, o que terá sido dito durante uma entrevista que depois ninguém consegue confirmar, a capacidade persuasiva do locutor que consegue arrastar a multidão até à histeria e ao pavor (exemplo clássico da emissão de 30 de Abril de 1938 em que Orson Welles simulou uma invasão marciana).

A internet é hoje o maior alfobre de atoarda e boataria. Como escreve a autora, “Ao abrigo de pseudónimos e moradas falsas, o ciberterrorismo é uma figura com futuro. Na terra dos blogues, redes sociais, virtuais e mensagens electrónicas, as velhas teorias da conspiração refrescaram-se e reproduziram-se”. Vídeos com montagens de figuras públicas, acusações de plágio, apelos de ajuda humanitária (caso dos pijamas para o IPO, um pedido que já tem barbas). Temos igualmente os boatos cor-de-rosa (Teresa Guilherme e Manuel Goucha Soares, Pinto da Costa e Maria Elisa…), a infinidade de boatos em torno dos famosos (onde estão sepultados, se fizeram filmes porno, qual é a verdadeira identidade Marilyn Manson…), das famílias reais, dos políticos (que por vezes não resistem à infâmia das calúnias e põem termo à vida). Há também a dimensão do boato que serve para atirar abaixo a concorrência, para pôr os consumidores apavorados: margarinas cancerígenas, hambúrgueres feitos com minhocas, a Coca-Cola apresentada como ultra desinfectante, os antitranspirantes que provocam cancro, os tampões íntimos que são tóxicos, etc., etc. Numa última e fértil linha da boataria, temos as conspirações e as distorções, a velha teoria da conspiração centrada nos judeus, jesuítas e maçons; mas também a dúvida de que o acontecimento científico é obra da manipulação (caso da chegada do homem à lua).

Como se vê, é escusado procurar uma linha lógica para a boataria: continua por se saber como floresce e se expande qualquer coisa que não é mas é tomado como autêntico, a capacidade de mentir e persuadir durante dias, meses e anos, há boatos que desaparecem e reaparecem com a mesma capacidade atordoar ou desorientar (é o caso da falsa lista dos aditivos cancerígenos) isto para já não falar no maquiavelismo das publicações cor-de-rosa, na tentativa de destruir o adversário político ou de manter a internet enxameada de sinais vermelhos. Boato é isto mesmo, um rumor circulante, muitas vezes corrosivo em que a atitude mais recomendável, em muitas situações, é, pura e simplesmente, não lhe dar ouvidos… ou tratá-lo como boato.

Beja Santos
Nov2010

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sexta-feira, 6 de maio de 2011

Clima de Guerra ou a Guerra do Clima 2

MexicoImage by NASA Goddard Photo and Video via Flickr

António Campos


O furo do Golfo do México: a ambição para além da razão.

O acontecimento mais marcante do ano no mundo, em termos de desastre provocado pelo homem, será provavelmente a fuga de crude do furo petrolífero no golfo do México, ao largo dos EUA, da responsabilidade da empresa petrolífera BP. Depois do tufão Katrina, na mesma zona (quiçá fruto também de experiências mal sucedidas), esta catástrofe ameaça pôr em causa a vida naquela parte do globo e poderá alastrar-se para além dela de forma descontrolada [4].
A autorização para a exploração foi especialmente dada por Obama por se tratar de uma zona de captação profunda onde não havia qualquer experiência anterior nem esquemas de segurança adequados. Embora as autoridades norte-americanas tivessem sido alertadas para isso não deram muita importância ao caso. Após algum tempo de exploração a plataforma explodiu e a fuga de crude para o mar entrou em descontrole total.
As várias tentativas de estancar o derrame não produziram qualquer resultado. O que ficou demonstrado foi que, com uma tecnologia totalmente virada para a guerra, quer norte-americanos quer ingleses pouco ou nada sabiam sobre a forma de curar uma ferida daquele tipo. A tão badalada superioridade técnica anglo-saxónica ficou bastante abalada. Não obstante, com a arrogância que lhes é própria, prosseguiram galhardamente, exibindo a sua ignorância e leviandade. Alguns chegaram ao extremo ridículo de acusar outros países de um hipotético ataque aos EUA.
O escândalo tomara tais dimensões que na tentativa de esconder esta incapacidade e a gravidade da situação os jornalistas foram proibidos de informar sobre o assunto. Enquanto as imagens autorizadas oficialmente, repetidas à exaustão nas televisões de todo o mundo mostravam uma aparente pequena fuga, as poucas notícias que se conseguiam não oficialmente iam revelando que a situação se agravava de dia para dia e a solução para estancar o derrame estava cada vez mais longe. Especialistas chegaram a afirmar que se estaria não apenas perante um simples acidente de percurso, embora difícil de resolver, mas face ao maior acidente ecológico jamais ocorrido no país, senão mesmo o mais grave de sempre em todo o mundo. Se a principio se falava numa fuga diária equivalente a cerca de um navio tanque, mais tarde esse número passava a quatro.
Após a anunciada solução final para o caso ter mais uma vez redundado em fracasso, em Julho, afirmaram alguns especialistas que, longe de se tratar de um simples furo, a verdade era que o crude jorrava descontroladamente por uma ou várias fendas que avaliavam ser já do tamanho do Himalaia. Por baixo estaria uma toalha de proporções gigantescas, cujo esgotamento não estava à vista. Esses técnicos previam que, a manter-se esse ritmo de fuga, o que seria bastante provável, ela iria durar anos e a mancha inundaria todas as costas do golfo, passando depois para o Atlântico arrastada pela corrente do Golfo. Prognosticavam ainda que, se isso acontecesse, o mais provável seria a eliminação irreversível de toda a vida no Atlântico Norte. Chegada à costa ocidental da Europa, estas tenderiam a gelar. A Inglaterra seria a primeira vítima.
Nunca mais houve notícias excepto a de que o problema estava solucionado. Mas a suspeita de que os acontecimentos ultrapassaram as capacidades humanas adensa-se. Hoje um silêncio sepulcral como os que precedem a revelação das más notícias alastra como a própria mancha de crude. Organizações ambientalistas, tão lestas em outras ocasiões, estão mudas e quedas, segundo se diz, para não afrontarem o gigante BP.
Nada parece fazer parar a ambição desmedida do capital na rapina incontrolada deste esgotado planeta. Desde a exploração mineira, á petrolífera, vale tudo. Esta ganância desenfreada conta com a cumplicidade de muitos governos ditos democráticos.
O número de derrocadas em explorações mineiras seja na China, seja no Chile, bem como os desastres em plataformas petrolíferas, já para não falar nos desastres ignorados que ocorrem diariamente nas mais diversas obras por todo o planeta, mostra bem esse desprezo do capital pelas condições de trabalho a que são sujeitos os trabalhadores.
Como em tantas ocasiões ao longo da história, mais uma vez a ambição se sobrepôs à razão
.
HAARP: uma nova arma de destruição maciça?

Mas quando julgávamos que tudo tinha já sido dito eis que surgem revelações sobre prováveis novas causas de alterações climáticas. Desde há alguns anos que havia suspeitas sobre o desenvolvimento pelos EUA e provavelmente outros países, de um novo dispositivo técnico de ionização da atmosfera, denominado HAARP, que provocaria fenómenos geo-climáticos, como sismos, furacões, tsunamis, etc., com a aparência de serem de origem natural [5].
Segundo um alto quadro da marinha russa, esse dispositivo seria uma nova arma que estaria em desenvolvimento tendo em vista uma guerra climática global. Ela permitiria lançar o caos no país a atacar, enfraquecer as defesas e facilitar a subsequente invasão. As últimas catástrofes, em várias partes do globo, seriam já consequência de experiências nesse sentido. O canal televisivo Canal História apresentado em Julho deste ano, afirma mesmo que tal dispositivo teria já terminado a fase de instalação e experimentação e estaria a ser utilizado por todo o mundo. As instalações seriam localizadas em pelo menos cinco locais, sendo dois em território dos EUA, um numa base norte-americana na América Central, outra algures na Europa e uma última na Ásia.
Foi o sismo do Haiti que despoletou a questão da HAARP com mais intensidade. Deu nas vistas o aparato militar norte-americano que nas vésperas do sismo cercava o território, cujas tropas, logo após este suceder se apressaram a desembarcar. Não para levarem ajuda humanitária, mas para garantirem a segurança! No próprio momento do sismo os comandantes militares já se encontravam na embaixada norte-americana, por sinal um edifício de construção anti-sísmica. Daí á suspeitar-se que o sismo tenha sido provocado foi um pequeno passo.
Revela o analista francês Thierry Meyssan [6] que as experiências com a nova arma teriam tido início nos finais da 2ª guerra mundial por técnicos neo-zelandeses para provocar tsunamis contra os japoneses. Prosseguidas por australianos foram depois desenvolvidas pelos norte-americanos que lhe atribuíram um grau de importância equivalente ao da bomba atómica. Durante a guerra do Vietname a nova tecnologia teria sido usada com eficácia do ponto de vista técnico/climático, mas com pouco êxito militar. A partir de 1975 os soviéticos teriam desenvolvido um programa pacífico com o objectivo de provocar pequenos sismos de molde a «esvaziar» os grandes sismos da sua energia e evitar maiores catástrofes. Após a derrota da URSS, com Boris Yeltsin, os técnicos e os laboratórios soviéticos teriam sido comprados pelos militares norte-americanos e integrados no programa HAARP.
Alguns usos possíveis da nova arma teriam sido na Argélia e na Turquia, mas o caso mais discutido é o do sismo de Sichuan na China em 12 de Maio de 2008.
Nada disto surpreende. Considerando os antecedentes históricos e a ambição de domínio planetário largamente expressa pelos EUA e seus aliados, não admira que todos os meios sirvam esses fins.
Porém, nada disto nos poderá fazer esquecer que o urânio empobrecido continua a ser derramado sobre iraquianos, afegãos e palestinianos, provocando milhares de mortes imediatas e doenças genéticas por gerações, e que no Vietname, trinta e cinco anos depois da guerra, o Agente Laranja despejado sobre os seus habitantes ainda hoje continua a matar.

Conclusão

Voltamos à questão inicial. Não há catástrofes naturais. Existem sim fenómenos naturais que a acção do homem transforma em catástrofes. A maioria delas por negligência e quase todas por ambição de alguns, aproveitando-se, como os abutres, das circunstâncias e da desgraça alheia. Mas para esses isso parece já não chegar. Se as catástrofes dão lucro porque não ampliar o mercado, provocando-as? E já agora – autêntico dois em um – que tal utilizar esse conhecimento para fazer a guerra? Aí temos mais uma vez a inteligência humana posta ao serviço da perversidade e da insanidade. Não para salvar as pessoas das catástrofes, mas para submeter ainda mais aquelas que sobrarem vivas.
Como sempre, por trás de tudo isto, o suspeito do costume, a plutocracia, o governo dos ricos, um relativamente reduzido grupo de fanáticos que se instituiu a si próprio como guardião da civilização em todo o mundo, e se julga imune á barbárie que provoca. Como já é, infelizmente, habitual, os EUA e o seu satélite Israel a proclamarem inconscientemente uma guerra santa como salvação da humanidade, que bem poderá ser a última. Como se, após terem aberto a Caixa de Pandora pudessem escapar à maldição dos Deuses, numa qualquer Arca de Noé espacial.
Até quando o mundo o irá permitir?


Notas:
[1] Principais catástrofes ambientais durante o ano:
Dez.2009 - Um tufão como nunca antes fora visto em Portugal atinge a região do oeste de Lisboa destruindo tudo à sua passagem.
Janeiro – Brasil - derrocadas provocadas por chuvas torrenciais em Angra dos Reis no causam dezenas de mortes.
– o Haiti é atingido por um terramoto grau 7 causando dezenas de milhar de mortos. - 200 mil (em 25/8)
Junho
– Brasil (Palmares, Recife) – enxurrada fluvial com 15m de altura arrastou milhares de pessoas e casas.
- Rio de Janeiro - mais de 227 vítimas fatais e mais de 52 mil pessoas desabrigadas e desalojadas.
Agosto
–China: avalanches – Deslizamentos de terras no noroeste da China provocaram 702 mortos e 1148 desaparecidos.
- Rússia: seca e fogos queimam milhares de hectares chegando a arder resíduos radioactivos de outra catástrofe anterior em Chernobyl.
- Japão - Terramoto de 7,2 grau
- Vanuatu terramoto de 6,2 graus
- América Latina em geral - sismos quase diários em vários países da cordilheira dos Andes.
- Chile: Desastre mineiro - Consequência lógica do modelo de saque, depredador e explorador, imposto desde o golpe de 1973 e continuado em «democracia».- Alirio Herera (La Haine)
- Paquistão – cheias. Cerca de 1/5 do país debaixo de água. Milhares de mortos. Milhões de desalojados.
- Índia – inundações. Milhares de desalojados
- Inundações na Europa central e secas e fogos em outros países como Portugal.
[2] A investigadora norte–americana Naomi Klein no livro «A doutrina do choque: a Ascensão do Capitalismo de Desastre» chamou a este modelo de capitalismo, que se aproveita da desgraça alheia, «Capitalismo de desastre». «Essa exploração das situações de crise afectam as colectividades humanas, paralisa- nos diante do medo, e nos torna impotentes diante da realidade».
[3] (http://www.youtube.com/watch?v=aTf0h3nobAs)
[4] - F. William Engdahl, - «A fuga de petróleo pode perdurar anos se não for travada», in Resistir.info.
[5] Ver Michel Chossudovsky, «Owning the Weather” for Military Use» , Global Research, September 27, 2004.
[6] Voltairenet.com – «Haiti et l’arme sismique»)
Bibliografia
- Thierry Meyssan, “1997-2010” : L’écologie financiére”, in Voltairenet.org
- Zavier Cano Tamayo, “A verdadeira origem da tragédia no Haiti”, in Resistir. info.
- Marcello Sales, “As derrocadas no Brasil”, in Carta Maior
- Michael R. Kratke - “BP – uma bomba relógio no sistema financeiro internacional.”
- Michel Chossudovsky, “O papel de Israel no desencadear de um ataque ao Irão.”

http://www.odiario.info/?p=1860 
https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6041973580550713426-2193208797908047906?l=sociologias-com.blogspot.com
Guilherme Alves Coelho
 Nov.2010

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terça-feira, 3 de maio de 2011

Clima de Guerra ou a Guerra do Clima

The Catastrophe SnailImage by dklegman via Flickr

António Campos


Uma sucessão crescente de catástrofes “naturais”.

2010, foi mais um ano de catástrofes ambientais suspeitas. Por todo o mundo se bateram recordes de inundações, sismos, fogos, secas, mortos, feridos e desalojados.
Se estes acontecimentos foram surpreendentes pela sua quantidade e amplitude, eles inscrevem-se porém numa série incomum de fenómenos geo-climáticos semelhantes, que se foram multiplicando ao longo dos últimos anos, um pouco por todo o mundo, a uma cadência e com uma magnitude crescente de ano para ano. [1]
Especialistas, técnicos ou simples cidadãos, interrogam-se sobre as razões destes acontecimentos. Serão consequências das tão propagandeadas e pouco debatidas alterações climáticas? Serão fruto da negligência e da ganância sem limites? Ou será ainda algo mais grave?
O ano de 2010 veio, de certo modo, dar resposta a muitas destas interrogações; veio reforçar as opiniões anteriores de muitos especialistas acerca da responsabilidade humana na maioria das catástrofes ditas naturais; veio revelar facetas da intervenção humana até agora pouco conhecidas; veio confirmar que muitos desses desastres até proporcionam lucros fabulosos; veio levantar a suspeita de que por esse motivo, e de acordo com a lógica do mercado, alguns possam ter sido provocadas propositadamente para obtenção de lucro [2]; e veio finalmente revelar que esse procedimento já estava a ser levado às últimas consequências com um objectivo mais vasto e perverso: a sua utilização como arma de guerra.

As cheias na Madeira: um exemplo de “catástrofe natural”.

O caso mais grave ocorrido em território português deu-se no inicio do ano na Ilha da Madeira. Uma conjugação pouco habitual de chuvas intensas num curto intervalo de tempo, provocou o transbordo das águas das ribeiras e o arrastamento de toda a espécie de detritos, não só os naturais - rochas, lama, árvores, etc., mas também, e principalmente, os construídos - estradas, pontes, casas, veículos, para além de animais e pessoas. Segundo os últimos balanços terá havido pelo menos 42 mortos e vários milhões de euros de prejuízos. Ainda de acordo com algumas informações, os prejuízos materiais e humanos serão muito superiores a anteriores situações semelhantes.
Situada em pleno Atlântico, a ilha da Madeira é uma das duas únicas regiões autónomas de Portugal. Vive essencialmente do turismo e do dinheiro dos contribuintes do Continente. É um paraíso fiscal. A sua orografia mostra um pico e encostas íngremes em todos os quadrantes, pelas quais descem inúmeros cursos de água: as ribeiras. A sobreocupação destas encostas com construções é um facto conhecido.
Corre na internet um pequeno documentário apresentado há 2 anos na TV, em que vários técnicos alertavam para o perigo das construções que continuavam a erguer-se na ilha em leitos de cheia, em clara violação da lei [3]. Bastaram dois anos para confirmar a justeza desses avisos.
Porém, para os dois responsáveis máximos por estes assuntos na Madeira - o Presidente do Governo Regional e o Presidente da Câmara do Funchal - estes avisos não passavam de calúnias de «alguns irresponsáveis». Na sua perspectiva tudo estaria em ordem. Tudo estaria nos lugares certos. Á excepção da natureza.
Como é sua missão, rapidamente a Comunicação Social corporativa se apressou dar cobertura a esta versão e a apresentar a situação como uma «catástrofe natural». Para ela solicitavam a habitual onda de solidariedade em part time, vulgo caridade, afastando assim, subliminarmente, qualquer responsabilidade humana no assunto.
O planeamento do território, a prevenção, bem como o seu cumprimento rigoroso, não fazem parte do ideário do capitalismo, seja ele aplicado por socialistas, democratas-cristãos ou social-democratas, como é o caso. Sem planos urbanísticos a especulação imobiliária avança melhor. E com ela aumentam a incúria e o desleixo, multiplicam-se os erros. Se algo correr mal, como agora, serão assacadas responsabilidades à natureza. Tal procedimento até pode ser útil: fazer reverter a reconstrução não como prejuízo, mas como vantagem para a economia (de alguns). Ao contrário do aforismo popular, a sua máxima parece ser «mais vale remediar do que prevenir».

(continua)

Guilherme Alves Coelho
Nov.2010

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sexta-feira, 29 de abril de 2011

Democracia contra regime austeritário

Le Monde diplomatiqueImage via Wikipedia



António Campos


(passados poucos meses mas mantém-se actual)


A 24 de Novembro de 2010, a greve geral convocada em Portugal pelas duas centrais sindicais, a Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP) e a União Geral dos Trabalhadores (UGT), a primeira desde 1988, vai juntar-se às amplas movimentações sociais de contestação às medidas de austeridade orçamental que os governos da União Europeia têm vindo a adoptar. Essas medidas têm em comum o facto de deixarem incólume um sector financeiro que, apesar de ser responsável pela crise, está a ser consentidamente deixado à solta pelos poderes públicos para regressar, como já regressou, à realização de lucros tão astronómicos quanto imorais. E têm também a uni-las a escolha que os governos europeus fizeram de penalizar, pelo contrário, aqueles que apenas vivem do seu trabalho ou aqueles que subsistem através de prestações sociais para as quais descontaram antes da reforma ou do desemprego, bem como os que sobrevivem com subsídios a que se vêem obrigados a recorrer ao serem atingidos pela pobreza. Uma escolha a todos os títulos desastrosa, porque regressiva em termos societais e recessiva em termos económicos.

Na verdade, os governos europeus, independentemente da sua cor política, parecem sentir-se mais mandatados para defender os direitos inalienáveis dos mercados do que os dos cidadãos. Com os primeiros têm compromissos sérios, que não podem deixar de honrar; com os segundos têm combinações frouxas, que podem substituir pela imposição de duríssimos sacrifícios. Só assim se explica que tais governos se tenham posto em sintonia para congelar e cortar salários, pensões e a generalidade das prestações sociais; para utilizar a pressão de um desemprego duradouramente acima dos 10% de modo a nivelar por baixo os direitos laborais; e para promover um aumento das desigualdades socioeconómicas e uma degradação dos serviços públicos, ameaçando fazer colapsar o Estado social.

O regime democrático, de que o Estado social é um dos pilares fundamentais, encontra-se sempre ameaçado quando as políticas salariais, fiscais e de acesso aos serviços públicos fundamentais não são suficientemente universais nem redistributivas para reduzirem o fosso das desigualdades socioeconómicas. Era já o que acontecia antes da crise em países como Portugal, um dos mais desiguais da Europa. Mas esta resposta à crise veio juntar-lhe um outro fosso, que põe em perigo as bases políticas de qualquer democracia, que é o fosso entre as políticas implantadas e os programas políticos com que os governos foram eleitos. Também neste aspecto, o caso português é um exemplo flagrante dessa dissociação, a qual encerra um forte potencial corrosivo das próprias bases em que assenta a representação democrática, como expressão da vontade dos cidadãos. O preço a pagar por agentes financeiros felizes e capazes de enriquecer pelo controlo do acesso ao crédito (e das condições em que esse acesso se faz) poderá bem vir a ser, não apenas economias submersas em recessões prolongadas e sociedades mais desiguais e com menores níveis de bem-estar, mas também democracias tão irreconhecíveis que se tornam irrelevantes, senão mesmo dispensáveis.

O novo regime que está a ser imposto como inevitável na União Europeia, e que bem se pode chamar regime «austeritário», representa uma séria ameaça para o contrato político, económico e social em que se fundamenta a democracia. A firme recusa dessa ordem insustentável que os movimentos sindicais e sociais estão a mostrar aos governos da União Europeia, de Atenas a Paris, de Madrid a Bucareste (ver o dossiê dedicado ao tema nesta edição de Novembro), vai em Novembro passar por Portugal. O povo europeu em construção, fazendo lembrar o operário em construção do belo poema de Vinicius de Moraes, faz, com a sua recusa da austeridade, uma clara aposta na democracia − uma democracia substantiva e não para especulador ver.

Do êxito do movimento social vai depender em grande medida a possibilidade de se inverter o rumo das desastrosas políticas de austeridade. Mas este movimento coloca desde já na agenda política e social, além dos conteúdos concretos que defende, algumas questões que não estavam propriamente nos planos dos que gostariam de convencer os cidadãos a aceitar, sem resistência e sem esperança, estes e os próximos pacotes de austeridade. Entre essas questões encontra-se certamente a do aprofundamento de caminhos de solidariedade, seja ela entre gerações (dos estudantes aos reformados), entre trabalhadores em diferentes situações (assalariados, precários, desempregados) ou entre trabalhadores de diferentes regiões e países (veja-se o caso dos trabalhadores belgas da Total, que em Outubro bloquearam os depósitos de combustível de que precisavam as companhias petrolíferas francesas, assim apoiando os grevistas franceses).

Não haja dúvidas, as possibilidades de inversão das políticas de austeridade que o movimento social abre são de tal forma preocupantes para os governos europeus que a reacção será enérgica, e tão concertada quanto as políticas que o motivam. Todas as novelas orçamentais serão alimentadas pelas forças políticas que defendem as medidas de austeridade, não tanto para deslocar as atenções para diferenças que podem ser pequenas entre os protagonistas, mas para instalar entre os cidadãos um sentimento de desilusão com «a política» e «os políticos», visivelmente incapazes de resolverem os verdadeiros problemas com que eles se confrontam entre novelas − desilusão essa que é o caldo de todos os populismos e derrapagens autoritárias. Os meios de comunicação seguirão estas peripécias com a grande excitação do directo, da fulanização e da história rocambolesca que se conta a si mesma. Mas seguirão também algumas greves e manifestações, salientando o mais leve episódio de violência que possam associar-lhes e pondo em palco comentadores e analistas que, vindos agora prioritariamente do campo da sociologia e outras ciências sociais, farão tão pouco pelo pluralismo de opinião na comunicação social como acontece já hoje com os concordantes economistas que vemos nos ecrãs das várias televisões.

Seja como for, a simples existência de movimentos como a greve geral de 24 de Novembro são fortes sinais de que ainda há, mesmo entre os mais prejudicados pelo regime «austeritário», cidadãos apostados em defender a democracia. Os poderes públicos, e em particular os governos que mais se queixaram de não ter alternativa, de que a pressão dos mercados é demasiado forte (como o português), têm aí uma oportunidade de reajustar as suas políticas pelo diapasão da democracia substantiva. Irão fazê-lo?

 por Sandra Monteiro
Le Monde Diplomatique em português
Nov.2010

http://pt.mondediplo.com/spip.php?article773
 


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terça-feira, 26 de abril de 2011

Como Se Fora Um Conto - Vigaristas que mereceriam ser presos

Library of the Palace of Mafra designed by Man...Image via Wikipedia



António Campos


Quem nos disse que já sabia o que nos ia acontecer? Todos e mais os outros!

Há muitos meses, anos até, que se ouve nas ruas, nas mesas de café, com vozes baixas e medrosas mas também em frases inflamadas e ditas bem alto, a revolta surda das gentes anónimas. E no entanto… !

Em nenhum momento o povo Português teve qualquer tipo de dúvida (excepto os mandantes deste pobre País e também os que querem vir a sê-lo, mas esses não pertencem ao povo) de que a Justiça em Portugal não funciona nem funcionará tão cedo, de que ninguém irá para a cadeia no famoso caso Casa Pia, da mesma forma que as dúvidas não existem sobre o mesmo desfecho em qualquer dos grandes casos de Justiça que ainda hoje correm nas barras dos tribunais.

Ninguém alguma vez duvidou de que o Orçamento para 2011 acabasse por ser aprovado, pese embora todo o folclore protagonizado pelo governo e por alguma oposição.Toda a gente sabia que o actual Presidente da República se iria candidatar, apesar dos tabus em que é useiro e vezeiro e a que sempre nos habituou. Não há quem não saiba, por força das evidências, que o ano de 2011 vai ser ainda mais terrível que o actual, embora ouçamos todos os dias o ainda nosso Primeiro a dizer que estamos cada vez melhor e que não precisamos do Fundo Monetário Internacional no nosso País.

Todos sabemos da falta de credibilidade do nosso governo a nível Nacional e Internacional, fruto das sucessivas mentiras e enganos do ainda nosso Primeiro e do seu Ministro das Finanças. Não há dúvidas algumas, seja de que espécie forem, de que o ainda nosso Primeiro não quer governar e que espera ansiosamente que alguém piedoso o coloque dali para fora o mais rapidamente possível, e que no fundo, ninguém quer, hoje, o seu lugar. Há muita gente do nosso País que duvida da capacidade do líder do maior partido da oposição para vir a ser o nosso próximo Primeiro e ao mesmo tempo o salvador da Pátria, e não se revê em qualquer outro que por cá existe.

Todo mundo Português sabe da enormidade de vigarices que por cá existem, dos roubos, desvios, compadrios, mentiras, subornos, influências, e de outros actos ilícitos e criminosos praticados pela grande maioria dos responsáveis pelo nosso País, e aceita que a Justiça feche os olhos ou finja que não vê, esperando no mais profundo do seu íntimo que um dia chegue a sua vez de ser e fazer como eles para poder enriquecer rapidamente. Face a tudo isto, e a ainda uma mão cheia de coisas que não abordei aqui, só se pode concluir que o que nos acontece é totalmente culpa nossa que só falamos e nada fazemos de consequente, e que, enquanto povo, somos uma cambada de carneiros imbecis e ignorantes, e seguidores cegos de líderes vigaristas que mereciam ser presos e condenados a trabalhos forçados para todo o resto das suas vidas.
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Mas isto vai tudo melhorar, o nosso País ainda vai ser um Pais em condições, com gente honesta e solidária, um dia, quem sabe, quando e se houver uma invasão ou uma outra revolução, quando toda a população de vígaros for presa, quando mudarmos a educação e as mentalidades das pessoas, ou quando mudarmos totalmente as gentes que cá vivem.

de José Magalhães
Nov.2010

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